2008-02-22

Contra-Crónica (à de Lobo Antunes "Agora que já pouco te falta")


sem ofensa, e num mero exercício de estilo, porque só questiono o que amo, esta é a contra-crónica em lobantunês à página 14 da Visão de 2008-09-21:


hoje o sol já tinha deixado o pique e a refeição quando entrei na papelaria do Francisco para lhe pagar o café e lhe roubar a crónica do lobo antunes, que leio sempre de pé escondido entre as árvores de revistas, tento que os meus braços sejam ramos com as folhas da revista na ponta, depois de ler é Outono e a árvore fica nua e a revista volta para o escaparate, sempre o mais fundo, gosto que o francisco escolha aquele para a visão para eu sentir que o enganei e que não li nada, só fiquei contemplando as capas dos desportivos
(isso posso fazer, não posso?)
para decidir qual não compro, mas hoje, como tem acontecido nas últimas semanas, a visão já estava esgotada e eu teimo em ler o antónio no papel, e paguei o café ao Francisco mas não roubei a crónica, fiquei com um ligeiro coxear na minha plenitude, não me faltavam as velhas a conversar na esquina do esteves nem o vieira plantado no portão do campo nem os carros a colher os primeiros raios oblíquos do sol que já tinha deixado o pique e se dirigia para o mar, o mesmo mar que eu mais tarde viria a saber pelo António encostava a cabeça aos caixilhos para o ver dormir, ele não disse que era na praia das maçãs mas eu sei que era,
não me faltava nada disso mas faltava-me a crónica do antónio.
fui naquela tristeza em que as lágrimas andam derramadas no verso do corpo mas não são suficientes para assomarem aos olhos e passei pela bomba para gastar o talão de promoção do lidl que dá um euro e vinte de desconto nos postos da bp, com esse desconto talvez comprasse a visão, e depois de pagar vi-a ali inesperadamente a olhar para mim, eram muitas e eu achei estranho porque tinham esgotado em todo o lado, o empregado da bomba esclareceu
- esteve aí o lobo antunes a dizer que não fosse por isso
não fosse por isso eu peguei numa delas e abri na pagina catorze e fiquei perdido, fico sempre perdido de mim quando ele fala de como lhe chegam os livros, que só começa quando sabe que não vai conseguir, anda há cinco livros a dizer que escreve mais três, e agora diz que talvez seja o último se ele conseguir depurar o lhe chega, mas eu fechei a revista não fosse por isso e fui conduzir a pedir que o tempo não fosse esse, que António não alcançasse a perfeição aos seus olhos e parasse de escrever, pensei em muitas coisas ao mesmo tempo como o António pensa, pensei que isto era uma despedida, que ele pode estar definitivamente doente, que finalmente decidiu desatar a obsessão do suicídio que o persegue desde sempre, mas concluí, não sei se bem se mal
(não seja por isso, ficam aí dez revistas para o pedro),
que o antónio estava só a seguir o mesmo trilho que lhe escreve os livros, porque ele não pode acreditar que é possível escrever o livro prefeito.

Foi quando senti a mão do antónio sobre o meu ombro de lã, dizendo-me
- é possível, pedro, é possível. acontece que fica escrito e é perfeito hoje
Mas amanhã destalha como qualquer ideia em qualquer lugar e tempo do mundo
E depois de amanhã volta a ser perfeito
E daqui a muitos anos é proibido pô-lo em causa, e aí fica perigoso.
Talvez nessa hora o bisneto do meu sobrinho Zé maria diga ao mundo que o lobo Antunes era um mito, e é quando finalmente a ideia deste livro perfeito vinga.
- Não seja por isso.


Pedro Guilherme-Moreira

1 comentário:

belém disse...

à página 14 da Visão de 2008-09-21 - exercício de enganoso futurismo...

sobre o demais, nada digo, nada...