2008-01-22

Um Almoço Iluminado (pelo senhor Yokozuna)


Tenho de começar por dizer que me penitencio, à cabeça, por ter deixado a bateria do meu Nokia 6630 ter acabado em pleno dia. Embora tenha consciência de que tal não tem perdão, ainda assim espero remir esse pecado com a sua denúncia pública. É que é inocente, nos dias que correm, esperar que as pessoas cumpram os seus compromissos “à la longue”, ou seja, que combinem as coisas com a estúpida antecedência de uma semana, sem passar o resto da dita a

confirmar a coisa por email e telemóvel.

Efectivamente, eu tinha combinado a semana passada, numa certa pizzaria junto ao mar, onde se comem umas belas pizzas que começam nos 33cm, e embora toda a gente saiba que essa medida é de respeito em qualquer ambiente e função, apoucam as ditas por serem as mais baratas, e acabam por se surpreender com o tamanho, que nestes casos conta. Ora, como dizia, tinha combinado nessa pizzaria e nessa terça-feira tempestuosa repetir o almoço na terça-feira seguinte, com as mesmas três pessoas, que ainda por cima eram todas da mesma família, tendo tal sido proposto pelo patriarca e confirmado aos filiados (os outros dois eram filhos dele).

Hoje cheguei às 13:20h e não havia sinal dos três. Ou eu os tinha perdido, ou o patriarca tinha dito que se estiver um sol radioso não há almoço (e estava um sol radioso) ou estavam simplesmente atrasados. Peguei no telemóvel, tentei ligar a um deles, mas o telemóvel morreu-me nas mãos. Tentei reanimá-lo desesperadamente, esfregando vigorosamente na bateria, mas nada. Sabia-me desde logo o grande culpado, não só por ter ido a um almoço que fora combinado de boca uma só vez, mas por não poder atender todas as chamadas que me estavam destinadas pelo resto do mundo. Nessa tarde, como esperava, aturei a justa ira de muitos amigos que me queriam do outro lado do telemóvel, mas, curiosamente, nenhum dos três me havia tentado ligar.

Mas voltemos ao almoço iluminado.
Às 13:30h entrei para a pizzaria e comecei a imaginar coisas. Pensei que os três, que negoceiam intensamente com o Oriente, poderiam estar encravados numa absorvente reunião com um japonês qualquer chamado, por exemplo, Yokozuna, e esse pensamento, talvez por causa do fervor religioso do Senhor Yokozuna, certamente partidário de umas das duas religiões oficiais do Japão, o xintoísmo ou o budismo, promoveu o senhor Yokozuna a consciência omnipresente no resto do almoço.

Com a mediação do senhor Yokozuna, resolvi pedir o mesmo Tortelini alla panna, e dar início à reunião, porque a ausência física dos três era um mero argumento demonstrativo da minha má vontade quanto a reuniões, como me segredou o senhor Yokozuna, eu que tenho a mania de ostentar a estúpida máxima de que “só reúne quem não quer fazer”.
- Meu caro – disse ele - se a reunião fosse comigo, certamente era física, e tinha começado no aeroporto, onde estou acostumado a ter, pelo menos, uma passadeira vermelha psicológica. Mas quem é que o meu caro pensa que é? Alguém?

O senhor Yokozuna tinha toda a razão. Não era legítimo da minha parte, que não sou ninguém como o Romeiro, esperar que as reuniões ou os almoços combinados aconteçam com a presença dos convivas.

Surpreendentemente, a reunião e o almoço foram perfeitamente esclarecedores. Tive a oportunidade de expor todos os meus pontos de vista e argumentos sem quaisquer interrupções ou comentários de qualquer um dos três. Ora, embora os comentários deles sejam sempre informados e sabedores, porque todos os três sabem da poda, e eu não, e apesar de me estarem sempre a lembrar disso, a verdade é que nunca como naquele momento as minhas ideias ecoaram pela sala de refeições e interessaram a tanta gente, porque, verdade seja dita, todos me olhavam de viés, mas olhavam.
- Não se preocupe, disse o senhor Yokozuna, é inveja!

Ora, graças a este iluminado japonês eu tive a oportunidade de perceber como era egoísta e centrado no meu umbigo, sem me habituar a levantar a cabeça e a olhar o mundo e a considerar os outros.
Pensava demais, reflectia demais, e a verdade é que as coisas devem ser mais empíricas, devemos viver a nossa vida olhando-nos bem de perto e desviar menos a cabeça para os outros. O nosso umbigo está acima de tudo, e mais ainda o convencimento de que somos capazes de ter um distanciamento objectivo de todas as questões.

Por isso, eu fui imprudente quando compareci ao almoço, pensando que, porventura, era mais do que o senhor Yokozuna na esfera dos três. É por isso que fiquei sozinho, como o louco, e que a maioria tem razão. Não há coincidências nem incumprimentos colectivos.

Hão-de dizer-me que só fui porque não tenho nada para fazer, e a verdade é que o que eu tenho para fazer não é assim tão importante como o que eles têm para fazer. Hão-de dizer-me que sou muito complicado e me vitimizo, e é verdade. Que sou egoísta e maniqueísta, e é verdade. Afinal, não tenho nada para fazer, mas sou muita coisa junta. Falta-me o sentido de humor cáustico, aquele que ataca os outros nos seus aparentes ponto fracos, mas tenho poder de encaixe. Sou muita coisa junta, e tenho poder de encaixe!

Deus ou Buda me dêem agora suficiente humildade para saber pedir perdão pelas minhas faltas. Perdão!

Um momento.

O senhor Yokozuna está aqui a dizer-me que ainda sou capaz de ser perdoado por ter comparecido a um almoço combinado à moda antiga, mas que não há perdão em nenhuma religião moderna ou milenar para o facto de eu ter deixado a bateria de um Nokia ter acabado. Diz-me ainda que Buda vai contemplar na penitência por ter sido um telemóvel finlandês a pifar.

Houvera sido um japonês e ia a trabalhos forçados na outra vida.

Pedro Guilherme-Moreira
2008-01-22
PS: Junta-se factura do almoço :)!

1 comentário:

perdigota disse...

Em primeiro lugar gostava de deixar o meu desagrado pela tua imaginação pouco frutífera, já que Yokozuna é, PROVAVELMENTE, o nome japonês menos original de todos os nomes japoneses de grandes empresários que têm refeições à hora do almoço.
No entanto, e a bem da verdade, devo agradecer a esse tal de Yokozuna (que bem podia ser Tamagochi) pela iluminação com que te prendou numa refeição com tão intensamente debate, que te fez ver um pouco mais fundo dentro de ti! E sempre que se vê um pouco mais fundo dentro de nós, toda a pizza tem o seu significado e o seu lugar no mundo (ainda para mais com 33 cm).
Não obstante a iluminação prodigiosa da refeição (quiçá talvez mesmo uma epifania), como é que alguém tão iluminado pode deixar acabar a bateria dum telemóvel finlandês as 13h 20m da tarde?? Ah, lá está, o nome do teu blogue sempre tem uma explicação prática!!! Brincadeirinha! Beijinhos