2008-01-01

2007 PORTO 2008


Nascido há quase quatro décadas num pequeno quarto com vista para a Rua de Cimo de Vila, o Porto sou eu desde sempre. Senti, pois, na minha carne a presença do ponto de intersecção com o destino quando, depois deste tempo todo, cumpri um sonho que afinal estava tão difícil de cumprir ao pé da porta: passar o ano nas ruas da cidade que me viu nascer.
Ontem tudo se compôs para um momento perfeito.
Já presenciei muitas festas nos Aliados, e nunca vi tanta e tão boa gente como ontem. Os dois lados da Avenida estavam cheios como um ovo, um mar de gente como eu ia dizendo ao meu pequenito, que, fascinado com tal cenário, insistiu durante toda a noite: “Vamos para o meio do mar!”. Preferi navegar ao largo, por ruas e vielas, Sampaio Bruno, Almada, Fábrica, Ramalho Ortigão, cruzar a respiração com gente de todos os tipos e feitios, ricos e pobres, tímidos e desassombrados, grandes e pequenos, eram tantas e tão calorosas as pessoas na noite fria, que os minutos se davam a pequenos equívocos, como aquele em que dois homens, olhando-me do fundo da rampa de Magalhães Bastos, ali ao lado do Banco de Portugal, eu que dizia por gestos aos meus que não, que não se metessem no coração dos Aliados, ou do mar, se intimidaram com o meu casaco tipo-GNR e a pose em consonância, e me perguntaram:
- Não se pode, sô guarda?
Pode, pode, respondi eu, sem sequer os tirar da ilusão, e cuidei de descer até aos pés da Praça para o dez, novo, oito, a maior árvore de Natal da Europa é que decresceu a contagem, dez círculos em volta desde a base até ao topo, belíssimo!, sete, seis, cinco, e eu que nunca tinha visto uma garrafa de champanhe na mão de cada um, milhares de garrafas e copos de champanhe que se haviam de beber, umas, quebrar, outras, molhar, outras, quatro, três, dois, um, agarra bem as doze passas na mão, que vais engoli-las, e estamos em dois mil e oito, explode a turba de alegria, começa o fogo de artifício, e durante aquele quarto de hora encantado nota-se uma leveza resoluta em cada alma, o povo ainda está demasiado optimista, é hora de aproveitar o embalo para um grande ano. Sinto nas costas a Ordem do Terço onde nasci, lá no topo de São Bento, nas faldas da Batalha, olho o calor sinto a beleza que radiodifundo, desde a “Porto Liberty Square”, o desejo do melhor ano para todos em todo o mundo! Voltei, claro, do que sou ao que serei, invicto, verdadeiro, mui nobre e leal.
Pedro Guilherme-Moreira
1-1-8

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