2008-10-01

Dias Perfeitos


Não me lembro de dias tão fisicamente perfeitos como estes últimos de Setembro e primeiros de Outubro do ano da graça de 2008.

Queria registá-lo aqui, eu que, como os meus leitores habituais devem saber, dou sempre uma corrida retemperadora (o meu seguro de saúde) pela hora do almoço dos dias úteis, todo o ano, todos os anos, faça sol o chuva, frio ou calor. Por isso mesmo conheço os ventos e a instabilidade das praias do Norte.

Netes dias perfeitos, tenho apanhado momentos de acalmia absoluta, pedaços de paraíso em que só se ouve o silêncio (das ondas) e se sente o cheiro a mar.

Perante isto, até o mp3 fica em casa.

Celebremos, pois.

2008-07-10

Supremo Tropa de Elite


Sai-se da sala de cinema sumido.

A natureza humana e o carácter em estado puro. Literatura. Autenticidade. Contundência.

Os extremos do bicho homem. Um filme que é muito cinema (muitíssimo!) exibe-nos de forma inclemente aonde chega este estranho animal quando sem freio.

O resultado é uma favela e um estado de guerra permanente.

Cabe lá o amor, a fraqueza, a vingança, um descontrolado sentido de justiça, mas não cabe a paz.

Queremos que fiquem todos longe de nós.

Que fime, senhores, que filme!

Pedro Guilherme-Moreira

13 Anos de nobreza


Embora celebre também hoje, 10 de Julho, 11 anos de agregação à Ordem dos Advogados como profissional senior, a verdade é que sempre considerei o dia da licenciatura como o momento zero da advocacia, exactamente por ter começado aí a estruturar o que até aí não passara de um sonho.

Celebrarei pois 13 anos de advocacia no dia 25 de Julho de 2008, e ela permanece um sonho que persigo com paixão.

Disse a alguns amigos, há dias, que este ano precisava de férias e que, apaixonado como sou por notícias, já não suporto ouvi-las há alguns dias a esta parte.

A advocacia é o acto nobre de afastar o lixo da essência das coisas.

Até da "a essência da vida", se quiserem.

Quando os advogados se divertem a atirar lixo uns aos outros, é normal que um como eu esmoreça por momentos.

O ano passado fui traído por um colega pela primeira vez, uma marca que se vai eternizar, mas estes breves e insignificantes 13 anos são dourados pelo que me fizeram crescer como homem.

A advocacia encerra uma nobreza extrema.

Ser confundido com um ladrão cansa, por vazias que se vistam as frases e os seus autores.

13 anos depois este é, pois, o meu primeiro momento de cansaço pelo desrespeito da função.

Mesmo os melhores clientes, alguns bem chegados, surpreendem-nos com um azedume que nos custa a aceitar. As próprias vitórias já não chegam.

Volto pois ao primeiro ano como jogador federado de voleibol para dizer que tenho saudades de perder, tenho saudades de que os outros saibam perder.

Aprendam a humildade.

Agora vou arrumar a casa e voltar em força para mais 13 anos (será?).

Pedro Guilherme-Moreira, pele de toga, liberdade de sangue;

A desimportância dos parabéns


No dia dos meus anos dirigem-se-me pessoas que não me conhecem, umas, ou conhecem-me mas só se lembram de mim quando a agenda as avisa.

Recebo sms de parabéns às primeiras horas do dia do meu banco e de algumas empresas a quem tive de dar a minha data de nascimento, e um dia destes estarei a receber felicitações de ministros e ministérios. Outras empresas mais duvidosas a quem dou uma data de nascimento falsa (quase sempre na inernet), dão-me os parabéns o ano todo.

No dia do meu funeral terei a visita (atrasada já:) de "amigos" que se sentem vagamente obrigados a lá estar.

É por isso que me desimportam os parabéns. Absolutamente.

No dia dos meus anos quero olhares calorosos, prenhes, mensagens com dificuldade de se conterem nos seus próprios limites.

No dia do meu funeral quero só os que gostem de mim. A razão pode ser a mais fútil e rebuscada, mas importa-me que gostem de mim. Só nesse dia.

Fazer os que faço ou outros quaisquer não tem importância nenhuma, como não têm os parabéns. Sinto, é verdade, um suave brilho suplementar, nada mais. Algo de muito íntimo, e portanto insusceptível de ser paritlhado, a não ser com os que andam sempre dentro de mim.

Hoje vou ser eu a telefonar a esses e a pedir-lhes uma palavrinha.

Assim é que é.

Pedro Guilherme-Moreira, não digo quantos, 10 de Julho de 2008

2008-06-24

O Ignorância faz 5 anos


Comemoramos a ocasião de ter nascido numa feliz noite de São João com outra feliz noite de São João. A nossa essência nalgumas imagens de hoje. PG-M



Disseste-lhes que o São João e a chuva...?


...se enredam se vivem se empatizam se recordam?

...que os teus ossos e atua pele são feitos de morrinha?

...que à noite o Porto não é cinzento mas multicolor?

Explicaste-lhes que a festa não se faz para dentro, em nossa honra ou pela nossa felicidade, mas pelos outros, pelos sorrisos e gargalhadas dos outros?

Lembraste-lhes que não há outra no mundo em que te seja pedido que toques os outros ou os despenteies ou lhes busques a timidez ou te mostres finalmente tu?

Fizeste-os ver que ninguém nesta noite sai à rua para chorar ou partilhar tristezas, que nenhum Carnaval é tão feliz?

Deixaste todos os estrangeiros solver-se na alegria dos teus martelos de plástico?

Misturaste a tua essência tripeira com o resto do mundo?

Misturaste a tua essência tripeira?

A tua essência?

Foste tu enfim.

Pedro Guilherme-Moreira, hoje, noite minha, noite pura, noite Porto, noite tudo e mesmo a chuva

2008-06-19

Eça finalmente (e o audiolivro)


Pelas 12h será hora da corrida junto ao mar, que neste prenúncio de Verão se tem enchido de maresia viva e sol.

Há muito que aguardava a experiência de “ler” um livro correndo, mas surpreendeu-me o prazer que daí retirei.

O esforço físico quase se esquece, a compenetração é perto do absoluto, superior à música ou às entrevistas do Carlos Vaz Marques e do Viegas em mp3, e muito superior à rádio.

Mas o mais marcante é que, depois de muitas tentativas para gostar de Eça e da incapacidade de não gostar de o ouvir dentro da minha cabeça pela minha voz interior, finalmente Eça me chegou luxuriante pela voz de José Wallenstein.

Era isso, precisava que outros me lessem Eça, assim, ao ouvido.

Recomendo viva e entusiasticamente.
E no caso de Eça com a coincidência de ter passado muitas vezes correndo pela sua casa da Praia da Granja, cá em Gaia (imagem), onde morreu a sua mulher há não muitos anos (sepultada algures no cemitério de Arcozelo, mas nele perdida para sempre – ninguém sabe o local exacto da sua última morada). Casa que, como muitos saberão, foi desgraçadamente demolida o ano passado por um erro clamoroso da Câmara que agora fala em reconstruí-la (!!!).

O audiolivro que comecei ontem e terminarei hoje é “Civilização”.Ele e o seu “civilizado” amigo que tem uma biblioteca com mais de oito metros de Economia Política (que Eça detectou só à procura de Adam Smith) estão a chegar a uma aldeia de montanha. “Vê-se” o comboio a aportar no apeadeiro e a caminha forçada estrada acima que os está agora a surpreender em cascatas que jorram das fragas e se sobrepõem ao silêncio e aos suspiros de “Que maçada!”.

Agora não vou querer parar de ler correndo e ouvindo.

Pedro Guilherme-Moreira

2008-06-03

Somos uns merdas


Somos uns merdas.
Vi ontem na televisão uma mulher que adoptou uma menina cigana deficiente que mais ninguém queria (filha de pais “tóxicos”), e há-de dar o seu amor a crianças doentes terminais. Não chorava nem se queixava, e ali estava a menina cigana com o carinho dos restantes irmãos, e a mãe franca e determinada a agradecer a Deus a sua sorte.
E nós remoemos na soleira da porta pelas maiores banalidades.
Somos uns merdas.
Vi uma mãe de pouco mais de trinta anos que sorri à vida que lhe deu um filho com uma doença rara que só o deixa mexer a cabeça e que ela traz no colo dos dias com a naturalidade do amor, recebendo cento e sessenta euros porque a assistência permanente ao filho não a deixa trabalhar. 80 para ela, 80 para o filho.
E nós insultamos os que nos amam, somos cínicos com os amigos e inclementes com este ou aquele conhecido que num momento de fraqueza se distraiu e não nos soube tratar como os soberanos que nos achamos.
Somos uns merdas.
Vi uma mãe açoreana que canta e sorri com o seu filho deficiente que já tem trinta e três anos. Tem quatro filhos, e este é o mais novo. Até aos três anos teve de ser operado três vezes, sempre em Lisboa, e as lágrimas só lhe vêm às faces da mãe quando se lembra da dor de ter deixado os outros filhos sozinhos para acompanhar as operações deste filho no continente.
E nós com as merdas do dia a dia, esquecendo os verdadeiros valores.
Somos uns merdas.
Vamos pôr mais vezes a vista em cima destas pessoas e ser melhores do que uns merdas.
Pedro Guilherme-Moreira, 2008-06-03

FILMES-LITERATURA


Vi dois filmes quase seguidos que me deram um prazer incomum de neles rever os meus livros, os livros que leio e os livros que escrevo.
“Cashback” (“Turno da Noite” em Portugal) e “Things We lost in the fire” (“Tudo o que perdemos em Portugal” - devia chamar-se “Tudo o que ganhamos”) são dois excelentes filmes (bem acima da média) que nos permitem um olhar autêntico para as coisas e para as pessoas.
O primeiro é inglês, os segundo americano, realizados respectivamente por Sean Ellis, que escreve o argumento, e Susanne Bier (argumentista:Allan Loeb).
Confesso o meu deslumbramento por Cashback. São 102 minutos absolutamente deliciosos e nada maçadores, bem pelo contrário. Somos levados de forma brilhante ao detalhe de tudo e a habilidade do protagonista em parar o tempo dá cenas de antologia (aquela em que ele despe as clientes do supermercado onde trabalha é, além de sensual, belíssima). Magnífico!
“Things We lost in the fire” traz-nos um vistoso Benicio del Toro, mas acima de tudo a sublime Halle Berry que nos dá neste filme a extravasante excelência dos superdotados, pela sua capacidade de contenção no seu melhor papel, no meu entender claramente superior ao que lhe deu o Óscar de Melhor Actriz (a primeira afro-americana) em Monster's Ball (2001).
Ao observá-la senti a mesma emoção que experimento a ouvir Maria Callas na Ave Maria de Bach/Gounod. Nos momentos-limite, Halle Berry e Callas não deixam que o rio galgue as margens e conseguem conter todo o seu virtuosismo no leito, alcançando o impossível toque dos deuses.
Ambos os filmes nos levam à pele dos progonistas e às suaves curvas do tempo, permitindo-nos pressentir, por momentos, o deleite de um livro lido no nosso lugar.
Pedro Guilherme-Moreira, 2008-06-03

2008-04-29

Sensações Absolutas (Cirque du Soleil - Quidam)



Depois de assistir ao espectáculo Quidam, do Cirque do Soleil, a única coisa que me espanta é não ler mais testemunhos de deslumbramento. É difícil alcançar palavras justas para descrever a absoluta excelência em todos os aspectos do trabalho de quem nos põe a sonhar acordados, ou melhor, de quem nos coloca no centro dos nossos próprios sonhos. Apesar do abuso nos comes e bebes (levem água de casa, ou vão ter de pagar 133 avos do salários mínimo por uma garrafita - a preços de hoje, com o salário mínimo a 400 euros, são 3 euros), ninguém chora o que pagou pelo bilhete -  e os preços não são  baratos. Deixo-vos alguns parágrafos ficcionados que escrevi sobre aquele que foi para mim um dos mais belos momentos que presenciei em toda a minha vida.

"Mas houve outro momento sublime na contenção, certamente mais fácil de receber, mas idêntico nas lágrimas que oferecemos em agradecimento. Há muitos anos estava eu por Lisboa empobrecendo e calhou-me na sorte um trabalho que dava umas coroas num Circo que dava barro para sonhos. Sonhei durante anos a fio poder ver ao vivo os canadianos do Cirque du Soleil, pelo que cri mal quando esta oportunidade me veio cair no colo. Fiquei na distribuição de lugares da plateia e juro-lhe que durante uma semana fui a mais incompetente funcionária do Cirque, mas recolhi sonhos verdadeiramente palpáveis como só eles sabem fabricar. É difícil detalhar-lhe a harmonia de fatos, peles, luz e som, a fluidez dos gestos, a excelência de cada elemento na sua arte. Prefiro falar-lhe na contenção que nos arrasta para o âmago das coisas.

Havia dois corpos que pareciam nus, secos, perfeitos, quase esculturais mas com defeitos suficientes para se cheirarem da plateia, o número deve aparecer nos resumos do Cartaz dos periódicos como “o momento da junção de um contorcionista masculino com uma contorcionista feminina, ou de um ginasta masculino com uma ginasta feminina, mas obviamente vai muito para lá disso.

Os longos minutos que eles passam em carne diante de nós são o espelho da nossa própria harmonia. Do nosso corpo. Em nenhum momento há um impulso, um salto, uma queda, uma brusquidão, tudo se passa na lenta câmara da fusão de formas humanas com sugestões divinas. Vê-se tudo uma primeira vez com espanto absoluto. À segunda, percebemos o empenhamento. À terceira já sabemos os desenhos e consentimos a fraqueza dos nossos próprios músculos perante a tensão bela de cada passagem. Da quarta em diante as lágrimas surgem sem avisar. Aconteceu uma das vezes eu correr aos bastidores na senda de um abraço apertado ao casal de deuses que nos ofertava com a ironia de se ser divino em terra. Mas pressenti que iria conhecer pessoas aparentemente normais. Não queria isso. As duas figuras que (na síntese) deram uma só estátua de barro humano seriam depositadas na minha memória e em todos os poros do meu corpo pelos anos fora. Não precisamos de correr para cima deles, de deixá-los marcados com os nossos lábios, de constatá-los indiferentes. Basta-nos ficar em silêncio e nunca desviar o olhar. Contenção. Pura contenção."

Pedro Guilherme-Moreira, 2008-04-29

As virgens do Futebol - quando sportinguistas e benfiquistas torceram pelo Porto


Gostava de ser breve nestas palavras. Sempre que falo de futebol, tento trazer um olhar paralelo, e hoje trago-vos um que me deixou algo indignado este fim-de-semana em que andei pela apaixonante Lisboa. Como adepto do FCP, fui abordado insistentemente por adeptos de clubes da capital que tiveram a iniciativa de me avisar que, se o Porto não ganhasse ao Guimarães (fora) no Domingo, o futebol era um vergonha. O Porto lá acabou por ganhar 0-5, e um jronal desportivo trouxe nas parangonas do dia seguinte o seguinte título "Mais sério é impossível". Portanto, o silogismo parvo é este: se o Porto ganhar ao Guimarães, é sério; se não ganhar, é corrupto; ganhou, é sério. Mas será que essa gente acreditava mesmo nisso?
Ora, posso assegurar-vos que há muito pouco de sério no futebol (em geral), e isso não mudou este fim-de-semana.
E eu, que nunca quis mal a clube nenhum, e tenho mesmo o hábito de me solidarizar com o sofrimento dos amigos quando as derrotas são mais pesadas (incluindo Benfica e Sporting, como podem conferir mais abaixo neste mesmo blogue), passei por ser um "hooligan" por desejar que o Guimarães vencesse o jogo, e até me chegaram a dizer que um verdadeiro portista nunca desejava a derrota da sua equipa, logo eu, que cheguei a vestir a camisola do meu clube e tive um pai mais de trinta vezes internacional ao serviço do FCP.
Portanto, eu devia comportar-me como um dirigente ou jogador do meu clube.
É típico do nosso futebol e da gente que temos obcecada por ele, sacrificando tudo e todos por noventa minutos de delírio (família e sanidade mental), esta inversão súbita de valores, que mostra a monstruosa quantidade de obtusos que há à volta desta fenómeno.
Pois termino dizendo apenas que é desporto desejar que um clube como o Guimarães conquiste um honroso segundo lugar, e é naturalíssimo que não tendo o meu clube nada a perder, o primeiro desejo suplantasse o prazer que sempre me dá ver a minha equipa ganhar, como acontece aliás em muitos jogos Porto-Académica (como estudante de Coimbra que fui).
Nada tem a ver com um desejo, que nunca tive, de insucesso dos primos da segunda circular.
Isto, meus amigos, é que é não ser doente por futebol.
Finalmente, é perfeitamente ridícula a conversa de que um clube que ainda tem um objectivo importante não pode poupar jogadores titulares sujeitos a grande desgaste. Viu-se. Foram cinco secos, mesmo sem titulares.
E fica escrito porque queria que soubessem, ó energúmenos obtusos, que nós, os que pensamos e valorizamos as coisas realmente importante da vida para lá do futebol, também temos conversa para cervejas, tremoços e Sport Tv! Não nos limitamos a desprezar-vos.
Pedro Guilherme-Moreira, 2008-04-29

2008-03-17

Para a Bisavó, não Für Elise

Há três anos ele cabia-me no bolso da imaginação e nem que não quisesse era de colo, abraçava-o em cima dos muros, ele cerrava-se sobre o meu pescoço, muitas vezes deixava-se cair e eu ria-me, hoje não me rio porque se ele o fizer chega ao chão e dobra-me a coluna, olha-me nos olhos quase sempre sobre os óculos dele e já de um ângulo diminuto e começa a reivindicar sem cartaz os direitos da pré-adolescência.
Há três anos eram cinco, hoje são oito, os pés encaixavam sob o suporte das teclas, para não ficarem suspensos, hoje pousam sobre os pedais.
Ouvi-o por Elisa desde a última audição, professor a minha bisavó adora uma música que é assim mais ou menos
Na na na na na na na na na
Na na na na
Na na na na
Epá, mas isso é muito avançado para ti, Guilherme, mas eu faço assim, se prometeres deixar a música para a próxima audição num brinquinho, vou-te ensinando essa,

só que o Guilherme vinha para casa e quando ensaiava tocava cinco vezes para Elisa (Beethoven) e uma para a Musette (Thompson). Esta música ficou num brinquinho, os panfletos da audição foram impressos e não vinha lá nada para Elisa. Nem na versão simplificada, professor?
Ontem, na aula de preparação, o Guilherme mostrou ao professor que já tocava a que não era suposto tocar.
- Pronto, ganhaste, vais tocar para Elisa.
Chegou a casa sem euforias, a Musette já ia de olhos fechados há muito, por isso insistiu uma, dez, cinquenta vezes para Elisa.
No Orfeão de Valadares, os professores Miguel e Nuno são tão heróis como os outros mas são os legítimos super-heróis deles, e vice-versa, e quando o Guilherme entrou para tocar as duas foi como se entrasse num estádio. E cem pessoas já são um estádio.

- Guilherme Moreira com Musette (de Thompson) e Für Elise (de Beethoven).

Sentou-se. Falhou duas notas na que estava de cor, a do brinquinho, como aliás há três anos tinha acontecido, mas desta vez é o Guilherme que não se perdoa.
Mais tarde, o professor viria a comentar que nada o demovera de Elisa, era tudo por Elisa, e no momento-chave não havia dedos para Musette.

Através da parede de casa, ouvi-o orgulhoso ensaiar a música que sonhara oferecer à bisavó centenas de vezes no piano. Havia sempre uma pequena falha.
Hoje, sem hesitar, quando chegou o momento com que alimentara o seu pequeno grande sonho, o Guilherme aproveitou:

tocou para a bisavó uma Elisa perfeita.

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Um pai chora sempre desalmadamente nem que seja pelo aperto do peito e mesmo que esse choro convulsivo se materialize apenas num mero e tímido sorriso para quem nos perscruta o desempenho do miúdo depois de um bom momento. O meu dever, contudo, é deixar aqui sinais de excelência, e se acontecer serem do meu filho, e que ele sirva de exemplo para mim e para outros, claro que alcanço uma certa plenitude :).

Deixo o link para "A audição" de há três anos: http://ignorancia.blogspot.com/2005/03/audio.html

2008-03-16

Este mundo em que estamos (o ataque gratuito a Marion)

Neste vou ser claro, curto e seco:
disseram que Marion Cotillard tinha dito uns disparates sobre o 11 de Setembro. Tudo uma mentira inventada por uns senhores americanos, e amplificado em todo o mundo sem qualquer triagem e responsabilidade (nem os chamados "de referência" tiveram o devido cuidado). As pessoas começaram a dizer na rua "eu até gostava dela, mas isto...". Claro que a fabulosa actriz, ainda com o Óscar quente, ficou destroçada. O agente dela, infelizmente, nem sequer soube esclarecer devidamente o sucedido. E o problema é que poucos percebem francês para conferir que o que foi amplificado foi um disparate.

Muito rapidamente: o que eles dizem que ela disse foi o que ela disse que leu. Ou seja, não era opinião dela. Ela estava a dizer que mesmo as aparentes verdades absolutas não podiam ser hoje aceites sem ser questionadas, porque muitas vezes são fabricações de governos ou lóbis. O que é óbvio. Mas nesta fase nada disse sobre o 11 de Setembro. Depois diz que é apaixonada pelas teorias da conspiração, que são totalmente apaixonantes e viciantes. E dá o exemplo de sites dedicados a construir teorias da conspiração, sendo algumas delas as que erradamente lhe foram atribuídas e que ela apenas disse ter lido, não fazendo a sua apologia.


Claro que é melhor destruir uma actriz que estava a fazer sombra aos ciclos do costume, e poucos conseguem aceitar que a mesma tenha superado num só papel muitos mitos do cinema.


Para quem quiser ouvir pelos seus ouvidos, e enquanto andar neste link, aqui vai:
http://www.youtube.com/watch?v=u9nVCUUVSx0

PG-M

PS: É impressionante a maldade. O que se faz para "chacinar" a imagem pública de alguém, e rapidinho. Até queriam tirar o Óscar à madame Cotillard!

2008-02-25

Marion Cotillard - Antes que venha o mundo (Avant que le monde arrive)




Antes que o Óscar te queime a substância querubim de incêndios dourados,
(Avant l'Oscar brûle la substance des anges des incendies dorés)


Antes que venham os iluminados decidir que a tua excelência não se pode consentir (o que raio é o overacting?), afinal tens toda uma pátria aos pés, e agora o mundo, e eu, este anónimo que teima em ver as estrelas de frente, as do céu não as caídas do cinema, e que desde o minuto um, depois de ter ver possessa de Piaf, aquele minuto em que desembrulhamos o corpo da magia do cinema e nos levantamos do lugar, calcamos as pipocas sobre a alcatifa e declaramos, já com a luz branca do shopping a surgir pela porta


- Magnífico!

(Avant le faux sages décident que votre excellence ne peut être consenti (ce qui est overacting?), En fin de compte que vous avez tout un pays à pieds, et maintenant le monde, et moi-même, cette anonyme qu' insiste pour voir les étoiles par ses visages, mais pas le film chuté, et que, d'une minute, après j'ai vu vous possédé de Piaf, une minute où nous dévoilons le corps de la magie du cinéma et de sortir de notre place, mettez les popcorns sur la moquette et déclarer, avec la lumière blanche du shopping à venir par la porte
- Magnifique!)


Repara que eu nem sequer sabia que tu eras uma menina quando te vi levar "La Môme" até à morte, só podias ser uma actriz francesa consagrada que a selecção de Hollywood não tinha deixado chegar, depois procuro-te e sei que és bonita não complexa como Piaf, és elegante, mesmo olímpica, não mirrada como Piaf, és transparente e não negra como Piaf, vejo o filme de novo e ainda fico pior, mais inquieto, será que o Cinema vai deixar passar este monumento em claro?
Não deixou.

(Je ne pouvais pas vu une fille quand vous avez pris de "La Môme" jusqu'à la mort, elle pourrait peut être une actrice française qui ne réussissent pas le choix d'Hollywood, et maintenant je sais que vous êtes belle, et pas complexe comme Piaf, élégant, même olympique, transparent et non pas noir comme Piaf, je vois le film encore et encore, je le crains, plus agité, le cinéma va oublier ce monument à la même?
Il n'a pas oublié. )


Ganhaste em casa o César, o improvável Bafta na Britânia e agora o universal Óscar, e mais quinze ou dezasseis prémios todos merecidos.
O que fizeste no "La Môme" ("La vie en Rose" em Portugal) é inefável. Tremendo.Não sei para onde vais, Marion, gostava que não fosses a lado nenhum de especial, mas a verdade é que, do ponto de vista divino, já és deusa, e nunca se é deusa cedo demais.Ficas para sempre, gostava apenas que ficasses mais um pouco e não fosses Monroe, Dean, Phoenix ou Ledger.

Hoje fui buscar a minha bisavó Germaine Lechartier, lá acima às memórias de um impreciso noroeste francês, para dar sentido ao meu sangue que fervilha como se fosses cá de casa.

(Aujourd'hui, j'étais à la recherche de ma arrière-grand-mère Germaine Lechartier, dans le souvenir imprécis du nord-ouest-ouest français, de donner un sens à mon sang que la ruche comme si tu être ici à la maison. )


Pedro Guilherme-Moreira


PS: Goste-se ou não se goste de cinema, o que fez Marion Cotillard deve ser conferido por toda a humanindade:). Não é exagero, afinal é o quê o verdadeiro Cinema?

2008-02-22

Contra-Crónica (à de Lobo Antunes "Agora que já pouco te falta")


sem ofensa, e num mero exercício de estilo, porque só questiono o que amo, esta é a contra-crónica em lobantunês à página 14 da Visão de 2008-09-21:


hoje o sol já tinha deixado o pique e a refeição quando entrei na papelaria do Francisco para lhe pagar o café e lhe roubar a crónica do lobo antunes, que leio sempre de pé escondido entre as árvores de revistas, tento que os meus braços sejam ramos com as folhas da revista na ponta, depois de ler é Outono e a árvore fica nua e a revista volta para o escaparate, sempre o mais fundo, gosto que o francisco escolha aquele para a visão para eu sentir que o enganei e que não li nada, só fiquei contemplando as capas dos desportivos
(isso posso fazer, não posso?)
para decidir qual não compro, mas hoje, como tem acontecido nas últimas semanas, a visão já estava esgotada e eu teimo em ler o antónio no papel, e paguei o café ao Francisco mas não roubei a crónica, fiquei com um ligeiro coxear na minha plenitude, não me faltavam as velhas a conversar na esquina do esteves nem o vieira plantado no portão do campo nem os carros a colher os primeiros raios oblíquos do sol que já tinha deixado o pique e se dirigia para o mar, o mesmo mar que eu mais tarde viria a saber pelo António encostava a cabeça aos caixilhos para o ver dormir, ele não disse que era na praia das maçãs mas eu sei que era,
não me faltava nada disso mas faltava-me a crónica do antónio.
fui naquela tristeza em que as lágrimas andam derramadas no verso do corpo mas não são suficientes para assomarem aos olhos e passei pela bomba para gastar o talão de promoção do lidl que dá um euro e vinte de desconto nos postos da bp, com esse desconto talvez comprasse a visão, e depois de pagar vi-a ali inesperadamente a olhar para mim, eram muitas e eu achei estranho porque tinham esgotado em todo o lado, o empregado da bomba esclareceu
- esteve aí o lobo antunes a dizer que não fosse por isso
não fosse por isso eu peguei numa delas e abri na pagina catorze e fiquei perdido, fico sempre perdido de mim quando ele fala de como lhe chegam os livros, que só começa quando sabe que não vai conseguir, anda há cinco livros a dizer que escreve mais três, e agora diz que talvez seja o último se ele conseguir depurar o lhe chega, mas eu fechei a revista não fosse por isso e fui conduzir a pedir que o tempo não fosse esse, que António não alcançasse a perfeição aos seus olhos e parasse de escrever, pensei em muitas coisas ao mesmo tempo como o António pensa, pensei que isto era uma despedida, que ele pode estar definitivamente doente, que finalmente decidiu desatar a obsessão do suicídio que o persegue desde sempre, mas concluí, não sei se bem se mal
(não seja por isso, ficam aí dez revistas para o pedro),
que o antónio estava só a seguir o mesmo trilho que lhe escreve os livros, porque ele não pode acreditar que é possível escrever o livro prefeito.

Foi quando senti a mão do antónio sobre o meu ombro de lã, dizendo-me
- é possível, pedro, é possível. acontece que fica escrito e é perfeito hoje
Mas amanhã destalha como qualquer ideia em qualquer lugar e tempo do mundo
E depois de amanhã volta a ser perfeito
E daqui a muitos anos é proibido pô-lo em causa, e aí fica perigoso.
Talvez nessa hora o bisneto do meu sobrinho Zé maria diga ao mundo que o lobo Antunes era um mito, e é quando finalmente a ideia deste livro perfeito vinga.
- Não seja por isso.


Pedro Guilherme-Moreira

2008-02-19

A Estátua de Gesso


Mãe, quando morreste lembro-me bem de toda a gente a comentar não a saia casaco com que te deitaram já em sossego no último cetim, mas o facto de teres sido pioneira na aldeia. A pioneira dos lencinhos de papel mili, aquela marca estranha que ninguém conhecia mas que enriqueceu a Josefina do quiosque e te empobreceu a ti. Como teu filho, tenho de confessar que sinto um desmedido orgulho por ser filho da pioneira, mas a ti nesta oração te confesso que sempre apoiei os lenços de pano, primeiro obviamente por egoísmo, porque sou homem e não tinha de os lavar, depois de ti veio a Maria que ainda mos lava, e depois porque pude cinicamente alcandorar-me no pretexto do ambiente, ao mesmo tempo que montaram o cerco aos pais das fraldas descartáveis, obrigando-os não só a aturar e a limpar o rasto dos putos, como a reciclar fraldas de pano, afinal como tu mãezinha, que, sabe-se lá como, também lavavas os meus dejectos. Mas como já estou a fugir ao tema queria só dizer-te que, embarcando no discurso cínico do ambientalista que não sou, pude finalmente, pela primeira vez em muitos anos, ser admirado pela raparigas por sacar de um lenço de pano que, mesmo que à transparência mostrasse aquilo a que eu misericordiosamente chamava manchas de café, era tido por contributo fundamental para o planeta. E quando me ouviam a ir buscar uma daquelas que tinham contrato de arrendamento prolongado na garganta, as meninas lá diziam
- Já se ouve o discurso ecologista do Jorge!
Ora, mãezinha, mas eu vinha aqui falar-te mesmo era da pequena estátua que fiz de ti, e como te sinto junto a mim de cada vez que olho para o aparador e a vejo, e olha que a Maria nem suspeita da matéria prima. Foi assim, mãezinha:
Já tu estavas a sete palmos e eu comecei a vasculhar nos teus casacos e nas tuas malas cada pedacinho de ti, cada brinco perdido, cada gancho de cabelo, e a emoção tomou-me quando reparei que tinhas deixado um lencinho de papel em todos os lugares da tua existência, e não deixaste simples lenços impessoais, deixaste lenços usados no pingo abundante do teu nariz e retesados pelo tempo. Achei-os no fundo do gavetão, na cesta de produtos de higiene do armário da casa de banho, em cada recanto da tua mala castanha, pelo menos meia-dúzia no teu sobretudo bege, quatro no bolso direito e dois no esquerdo, três entalados no cinto das tuas calças azuis de fazenda, enfim mãezinha em todo os lados de ti, cada um com a sua forma única, pedacitos indignos contorcendo-se com os vírus moribundos que neles deixavas, e juro-te que quando cheguei ao fim chorava abundantemente pelos sinais que me deixaste.
Todos amassei num amálgama de ti, humedeci-os de novo, e dei-lhes a tua forma anafada numa estátua de gesso que deixei secar outra vez como o teu pingo retesado, e que todos os dias beijo no reino que agora é o teu no meu aparador. Obrigado mãezinha por seres a porca que eras, pioneira dos lencinhos de papel, esses que são o paradigma da higiene que tu tão bem combateste (e eu nunca mais disse a ninguém que lenços de pano é que é).

2008-02-01

Máscara Breve



É Carnaval de manhã,
na praia há uma estranha calmaria
de julho

(a ameaça de mau tempo ainda não se concretizou),

o sol está morno amarelo claro
contudo

as gaivotas estão pousadas na areia
sem máscaras,
as crianças na escola já as puseram
como nós.

haverá uma tempestade breve.

Pedro Guilherme-Moreira
2008-02-01

2008-01-30

21 ANOS

Antes lá estava o cabelo e a estação e os comboios eram onze da noite, a camisola vermelha e a tua cara de seda, o teu desprezo e o teu beijo,
depois listas telefones, a corte, o dia e um paredão com um farol fechado
e um farol sem barcos e barcos sem ondas e saliva sem mar
E depois ainda a praia os corpos o pudor a roupa e a aprendizagem
do amor
Os anos passavam e eu vogava sem forma

permanecias

Fui a Coimbra e à solidão e à lonjura, nunca subi à cabra perdido nos olivais, depois no quarto, um quarto andar da baixa, um parolo americano a devorar o mandarim, eu jurei no Internacional, tracei a capa que tu rasgaste de alto a baixo, o Torga comigo no trólei
um dia o Torga morreu e eu
fiz um poema a descer Corpo de Deus, a mesma rua em que acabei
tudo

permanecias ainda

Comprei a toga, provei o fel soube do escravo, fiz de David e nem gigantes
Chorei a toga e veio o dia do casamento, estavas de luz incandescente ou sol ou lume
fomos perdidos fomos sorrisos fomos Veneza
depois voltamos, estive por casa,

permanecias mais.

Fiz o caminho sempre por dentro, escolhi clareiras nunca veredas, tu estavas lá engravidámos e fomos ventre comum e nem que o milagre se replique na eternidade
É o começo do outro conto, estás do avesso estou do avesso lido com verso cresci
Cheguei ao filho e à casa e aos vapores das oito da noite e ao jantar e à roupa que me passas a ferro e tenho sonhos de velhice

permaneces maior.


Pedro Guilherme-Moreira
2008-01-30

2008-01-22

Um Almoço Iluminado (pelo senhor Yokozuna)


Tenho de começar por dizer que me penitencio, à cabeça, por ter deixado a bateria do meu Nokia 6630 ter acabado em pleno dia. Embora tenha consciência de que tal não tem perdão, ainda assim espero remir esse pecado com a sua denúncia pública. É que é inocente, nos dias que correm, esperar que as pessoas cumpram os seus compromissos “à la longue”, ou seja, que combinem as coisas com a estúpida antecedência de uma semana, sem passar o resto da dita a

confirmar a coisa por email e telemóvel.

Efectivamente, eu tinha combinado a semana passada, numa certa pizzaria junto ao mar, onde se comem umas belas pizzas que começam nos 33cm, e embora toda a gente saiba que essa medida é de respeito em qualquer ambiente e função, apoucam as ditas por serem as mais baratas, e acabam por se surpreender com o tamanho, que nestes casos conta. Ora, como dizia, tinha combinado nessa pizzaria e nessa terça-feira tempestuosa repetir o almoço na terça-feira seguinte, com as mesmas três pessoas, que ainda por cima eram todas da mesma família, tendo tal sido proposto pelo patriarca e confirmado aos filiados (os outros dois eram filhos dele).

Hoje cheguei às 13:20h e não havia sinal dos três. Ou eu os tinha perdido, ou o patriarca tinha dito que se estiver um sol radioso não há almoço (e estava um sol radioso) ou estavam simplesmente atrasados. Peguei no telemóvel, tentei ligar a um deles, mas o telemóvel morreu-me nas mãos. Tentei reanimá-lo desesperadamente, esfregando vigorosamente na bateria, mas nada. Sabia-me desde logo o grande culpado, não só por ter ido a um almoço que fora combinado de boca uma só vez, mas por não poder atender todas as chamadas que me estavam destinadas pelo resto do mundo. Nessa tarde, como esperava, aturei a justa ira de muitos amigos que me queriam do outro lado do telemóvel, mas, curiosamente, nenhum dos três me havia tentado ligar.

Mas voltemos ao almoço iluminado.
Às 13:30h entrei para a pizzaria e comecei a imaginar coisas. Pensei que os três, que negoceiam intensamente com o Oriente, poderiam estar encravados numa absorvente reunião com um japonês qualquer chamado, por exemplo, Yokozuna, e esse pensamento, talvez por causa do fervor religioso do Senhor Yokozuna, certamente partidário de umas das duas religiões oficiais do Japão, o xintoísmo ou o budismo, promoveu o senhor Yokozuna a consciência omnipresente no resto do almoço.

Com a mediação do senhor Yokozuna, resolvi pedir o mesmo Tortelini alla panna, e dar início à reunião, porque a ausência física dos três era um mero argumento demonstrativo da minha má vontade quanto a reuniões, como me segredou o senhor Yokozuna, eu que tenho a mania de ostentar a estúpida máxima de que “só reúne quem não quer fazer”.
- Meu caro – disse ele - se a reunião fosse comigo, certamente era física, e tinha começado no aeroporto, onde estou acostumado a ter, pelo menos, uma passadeira vermelha psicológica. Mas quem é que o meu caro pensa que é? Alguém?

O senhor Yokozuna tinha toda a razão. Não era legítimo da minha parte, que não sou ninguém como o Romeiro, esperar que as reuniões ou os almoços combinados aconteçam com a presença dos convivas.

Surpreendentemente, a reunião e o almoço foram perfeitamente esclarecedores. Tive a oportunidade de expor todos os meus pontos de vista e argumentos sem quaisquer interrupções ou comentários de qualquer um dos três. Ora, embora os comentários deles sejam sempre informados e sabedores, porque todos os três sabem da poda, e eu não, e apesar de me estarem sempre a lembrar disso, a verdade é que nunca como naquele momento as minhas ideias ecoaram pela sala de refeições e interessaram a tanta gente, porque, verdade seja dita, todos me olhavam de viés, mas olhavam.
- Não se preocupe, disse o senhor Yokozuna, é inveja!

Ora, graças a este iluminado japonês eu tive a oportunidade de perceber como era egoísta e centrado no meu umbigo, sem me habituar a levantar a cabeça e a olhar o mundo e a considerar os outros.
Pensava demais, reflectia demais, e a verdade é que as coisas devem ser mais empíricas, devemos viver a nossa vida olhando-nos bem de perto e desviar menos a cabeça para os outros. O nosso umbigo está acima de tudo, e mais ainda o convencimento de que somos capazes de ter um distanciamento objectivo de todas as questões.

Por isso, eu fui imprudente quando compareci ao almoço, pensando que, porventura, era mais do que o senhor Yokozuna na esfera dos três. É por isso que fiquei sozinho, como o louco, e que a maioria tem razão. Não há coincidências nem incumprimentos colectivos.

Hão-de dizer-me que só fui porque não tenho nada para fazer, e a verdade é que o que eu tenho para fazer não é assim tão importante como o que eles têm para fazer. Hão-de dizer-me que sou muito complicado e me vitimizo, e é verdade. Que sou egoísta e maniqueísta, e é verdade. Afinal, não tenho nada para fazer, mas sou muita coisa junta. Falta-me o sentido de humor cáustico, aquele que ataca os outros nos seus aparentes ponto fracos, mas tenho poder de encaixe. Sou muita coisa junta, e tenho poder de encaixe!

Deus ou Buda me dêem agora suficiente humildade para saber pedir perdão pelas minhas faltas. Perdão!

Um momento.

O senhor Yokozuna está aqui a dizer-me que ainda sou capaz de ser perdoado por ter comparecido a um almoço combinado à moda antiga, mas que não há perdão em nenhuma religião moderna ou milenar para o facto de eu ter deixado a bateria de um Nokia ter acabado. Diz-me ainda que Buda vai contemplar na penitência por ter sido um telemóvel finlandês a pifar.

Houvera sido um japonês e ia a trabalhos forçados na outra vida.

Pedro Guilherme-Moreira
2008-01-22
PS: Junta-se factura do almoço :)!

2008-01-01

2007 PORTO 2008


Nascido há quase quatro décadas num pequeno quarto com vista para a Rua de Cimo de Vila, o Porto sou eu desde sempre. Senti, pois, na minha carne a presença do ponto de intersecção com o destino quando, depois deste tempo todo, cumpri um sonho que afinal estava tão difícil de cumprir ao pé da porta: passar o ano nas ruas da cidade que me viu nascer.
Ontem tudo se compôs para um momento perfeito.
Já presenciei muitas festas nos Aliados, e nunca vi tanta e tão boa gente como ontem. Os dois lados da Avenida estavam cheios como um ovo, um mar de gente como eu ia dizendo ao meu pequenito, que, fascinado com tal cenário, insistiu durante toda a noite: “Vamos para o meio do mar!”. Preferi navegar ao largo, por ruas e vielas, Sampaio Bruno, Almada, Fábrica, Ramalho Ortigão, cruzar a respiração com gente de todos os tipos e feitios, ricos e pobres, tímidos e desassombrados, grandes e pequenos, eram tantas e tão calorosas as pessoas na noite fria, que os minutos se davam a pequenos equívocos, como aquele em que dois homens, olhando-me do fundo da rampa de Magalhães Bastos, ali ao lado do Banco de Portugal, eu que dizia por gestos aos meus que não, que não se metessem no coração dos Aliados, ou do mar, se intimidaram com o meu casaco tipo-GNR e a pose em consonância, e me perguntaram:
- Não se pode, sô guarda?
Pode, pode, respondi eu, sem sequer os tirar da ilusão, e cuidei de descer até aos pés da Praça para o dez, novo, oito, a maior árvore de Natal da Europa é que decresceu a contagem, dez círculos em volta desde a base até ao topo, belíssimo!, sete, seis, cinco, e eu que nunca tinha visto uma garrafa de champanhe na mão de cada um, milhares de garrafas e copos de champanhe que se haviam de beber, umas, quebrar, outras, molhar, outras, quatro, três, dois, um, agarra bem as doze passas na mão, que vais engoli-las, e estamos em dois mil e oito, explode a turba de alegria, começa o fogo de artifício, e durante aquele quarto de hora encantado nota-se uma leveza resoluta em cada alma, o povo ainda está demasiado optimista, é hora de aproveitar o embalo para um grande ano. Sinto nas costas a Ordem do Terço onde nasci, lá no topo de São Bento, nas faldas da Batalha, olho o calor sinto a beleza que radiodifundo, desde a “Porto Liberty Square”, o desejo do melhor ano para todos em todo o mundo! Voltei, claro, do que sou ao que serei, invicto, verdadeiro, mui nobre e leal.
Pedro Guilherme-Moreira
1-1-8