2007-06-23

NOITE DAS MARTELADAS:receita para caloiros




No dia em que aquilo que de mais pessoal em público tenho - precisamente o blogue Ignorância - faz quatro anos, gostava de dizer pouco mais do que meia-dúzia de parágrafos sobre essa noite magnífica que é a de São João, porque ainda há muita gente que não tem ideia do êxtase de humanidade que pode significar circular por uma ou duas horas entre as marteladas do coração do Porto (e falo do Porto porque é a cidade que me viu nascer, e que me vê todos os dias ao espelho, procurando a minha tez e o sentido mais profundo da minha forma de ser).

Quem pensa que São João é confusão, e profere frases como “eu não gosto de me meter em confusões”, só tem de ter uma coisa em mente: não vá ver o fogo à Ribeira.
Porque se for, não diga que não foi avisado. Mesmo o tripeiro mais experiente acaba por ceder à tentação, e, se não tiver todos os cuidados e planear bem a sua fuga, pode acabar em apertos um bocadito aflitivos. Por isso, e como este ano vou falar para os caloiros do São João, dispense o fogo no primeiro ano, e não desça para lá do Largo de São Domingos (e se estiver aí à meia-noite e meia, fuja para cima com rapidez, antes que venha a turba!).

Se eu fosse um alienígena sanjoanino, começava esta experiência pelas 23h, talvez depois de jantar no Abadia.
Subia calmamente a Rua Sá da Bandeira, para fazer a digestão, virava à esquerda na Rua Fernandes Tomás, e começava a descer no topo da Avenida dos Aliados, em frente à Câmara do Porto, com um pequeno martelo (os grandes são um apelo para os “adversários”) escondido atrás das costas.

Não há que forçar a timidez, porque ela vai acabar por se tornar irrelevante, minutos mais tarde.

Se for careca total, nem sequer precisa de martelo para chamar os admiradores.
E se quiser estar sossegadinho, vai mesmo ter de usar capachinho, com cola extra-forte.
É natural que se vá irritar com os mais tradicionalistas do alho porro. Mas tenha paciência, que as tradições não se devem deixar morrer.
Posso é garantir-lhe que, apesar de recente, a experiência das marteladas não tem parelha.
Se tiver mais de 1,85m, é garantido que vai levar mais 50% de marteladas do que uma pessoa normal, principalmente de crianças que andam nos ombros dos pais, de meninas “imberbes”, e de senhoras de alimento, que adoram oscilar a sua “dimensão” em pequenos saltos para o agredir com o martelo, polvilhando tal actividade com sonoras gargalhadas.

Ao chegar à Praça da Liberdade, ao fundo dos Aliados, garanto-lhe que já leva um sorriso nos lábios.

Agora está na hora da experiência mais intensa. Agarre bem a sua carteira, e interne-se na multidão que anda a martelar, em grande azáfama, entre a Praça da Liberdade, a estação de São Bento e o início da Mouzinho, a rua que o leva à Ribeira (mas lembre-se que este ano não deve lá ir). Se quiser descer mais um bocadinho, vá lá, pode fazê-lo até ao Infante, mas volte a subir depressa, como lhe disse atrás.

Não vou precisar de lhe dizer que se passeie para cima e para baixo dos limites supra referidos durante uma boa horinha, porque vai desejá-lo.
Repare bem nas pessoas, nas suas expressões, na felicidade dorida e na dor feliz de muitos;
na forma como algumas olham para trás, para confirmar, quase agradecidas, quem lhes bateu;
repare na genuína descoberta das crianças, espantadas por poder tocar nos outros, e serem tocadas por eles, elas que por uma noite não são afastadas do mundo dos maus pelos pais;
divirta-se a ver os polícias massacrados, alguns já sem boné, outros muito ciosos da farda, a verem-se sem ele a cada segundo, para mais uma martelada;
veja um pouco de fora o fascínio dos estrangeiros que vêm à festa, perfeitamente embasbacados por aquilo estar bem para lá de todas as descrições e roteiros turísticos;
baixe-se para as crianças se rirem à sua custa, mesmo que de vez em quando lá tenha de apanhar com a parte dura do martelo;
perceba a razão pela qual o escolhem a si, talvez um sorriso a mais, talvez um sorriso a menos, que os que têm coragem de aparecer no São João de cara fechada já o fazem sabendo que vão ser procurados toda a noite, porque o tripeiro quer quebrar-lhe essa defesa que lhe envolve o coração o resto do ano, e não o deixa respirar.

No final, regressará agradecido, e com vontade de que a vida fosse assim mesmo, cheia de abraços, porque cada martelada é um abraço, e como é bom dá-lo, e como é bom recebê-lo.

Há uns anos, era tradição este mar de gente circular toda a noite, incessantemente, entre a Batalha, descendo a Rua 31 de Janeiro, subindo os Clérigos, Cordoaria, Palácio de Cristal, e a Boavista. Isso perdeu-se, porque foram pulverizadas as festas mais apelativas, principalmente os divertimentos da Rotunda da Boavista.

Também é verdade que o fogo da meia-noite não tinha o prestígio que hoje tem, pelo que hoje, esse momento de êxtase sem confusão está naquele bocadinho que lhe indiquei, e o grande fluxo de pessoas faz-se de São Bento para a Ribeira e volta.

Para o ano, a segunda lição: como ir ver o fogo e ir à Ribeira sem ser engolido.

Este, fique pelo menos com a ideia de vir ao Porto numa noite de 23 para 24 de Junho, porque, e isto garanto-lhe, vai perceber que não há disto em mais lado nenhum no mundo.

E é por isso que não se vai esquecer de cada martelada, porque sorriso, porque abraço.

Pedro Guilherme-Moreira

2007-06-23

Noite de S. João 2007