2007-12-14

NATAL numa escola pública (lágrimas enfim)



Este ano este é o meu postal de Natal.
O meu desejo de Feliz Natal ao outro é sempre uma espécie de êxtase em que o meu maior órgão, a pele, extravasa numa espécie de abraço colectivo. Isto vem-me de dentro e é genuíno, espalha-se até aos amigos e familiares que nem sequer se lembraram de mim durante todo o ano, e aos inimigos (se os tenho nem me lembro nem sei) que me tiveram sempre presente. Aos que gostam de fazer mal e aos que só querem saber de si. E aos bons, claro, embora seja normal que aos que gostam mesmo de nós baste um silêncio morno de lã, espécie de sorriso cúmplice.
Este ano tive uma ideia, não foi nada difícil ter essa ideia, e não tenho nenhum mérito por ela. Mais mérito têm os que a acolheram e nela trabalharam comigo, as professoras, as auxiliares, alguns pais, todos os que ficaram a arrumar as mesas depois da festa, todos os que fazem cada tarefa banal que não é vista por ninguém.
Este ano, lá na escola pública do meu filho, dei graças à divindade ou à alma colectiva que me protege e me guia, quando me fez tomar a decisão pela qual eu sabia ter de lutar muito durante quatro anos: apostar que é possível ser-se feliz e ter-se uma formação de qualidade numa escola pública.
As carências são todas, as benesses nenhumas.
Mas há pessoas, boas pessoas, e a própria batalha faz-nos crescer, não conheceria esta metade do mundo se não viesse ter com ela, e este ano era preciso que os meninos pobres tivessem Natal, e para que eles pudessem ter Natal, era preciso que todos tivessem, e isso era até demasiado fácil e grato.
Os miúdos vão-me vendo por lá, de vez em quando a dar uns sermões na aula, e dizem “Dr. Pedro” com ternura. Como mais ninguém diz.
O envolvimento quase umbilical (sim, como se um cordão nos unisse) que eu tenho com todos eles tinha sido algo doloroso até aqui, por me fartar de baixar a cabeça perante o tudo que falta e o nada que há, batalhando muito pelo pouco.

Este ano tudo transbordou.
Na rua, porque sempre me tiveram à sua frente a ralhar, grande e assustador como eu posso ser para uma criança pequenina, entre 6 e 9 anos, tenho dezenas de crianças a estender-me a mão, ouço o tal ternurento “Dr.Pedro” em supermercados, padarias, quiosques, mercearias, vejo-as desfazerem-se, doces, só para eu ver cada grão cristalizado do seu sorriso.
Hoje, na escola, depois de se terem portado tão bem na Festa de Natal que eles próprios erigiram e as professoras souberam sustentar com amor – mais do que com profissionalismo - (quando nos anos transactos se baixava as mãos e quase se desistia pelos “terrores” com os quais nada se podia fazer – eu sempre disse que não havia um deles que não fosse anjo – as professoras tiveram sempre profissionalismo;), quando quase tudo estava acabado e eles desmobilizavam da cantina/salão de festas para as salas onde, pela primeira vez, iam ter uma prenda, dezenas passaram por mim e me abraçaram, sem sequer saberem se eu tinha feito alguma coisa (estive lá, foi o que foi, aplaudi-os, cantei com eles, e chega! Tinha ao meu lado um ciganito “problemático” já crescido que olhava aquilo tudo com desprezo, a folha do “menino está dormindo” abandonada, e eu “Então não cantas?”, ele encolhe os ombros, eu sorrio e faço-lhe uma festa na cara morena e bolachuda, não digo mais nada, mas não tinham passado cinco minutos e ele já acompanhava os colegas; caramba, isto bate forte!).

Nesses abraços, começou o descalabro.
Perdi-me com prazer pela escola a ver-lhes as caras lúcidas de sol neste Dezembro primaveril.
Ultimamente, nos dias banais do mundo lá de fora, as lágrimas não me surgem, pura e simplesmente não me surgem, tenho sofrido em seco, tenho rido em seco.
Hoje tinha de ser.
Deixei-os e vim para o escritório. Tirei um lenço, limpei-as, tinham vindo caladas e felizes, sem espasmos.
E perante as microscópicas canalhices do nosso mediático ou íntimo dia-a-dia, as crianças disseram-me uma vez mais o que é que vale nesta vida.
Feliz Natal!
Pedro Guilherme-Moreira

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