2007-07-26

O MEU POLEGAR ESQUERDO



É curioso como, mesmo sendo nós partículas insignificantes do Universo, a visão atómica do nosso umbigo revele uma complexidade desarmante.
Quase quarenta anos a pensar que era um ambidextro 90% dextro e 10% canhoto, mesmo com um filho também ambidextro, mas com a lateralidade distribuída ao contrário, e foi preciso um acidente que me deixou parcilamente privado do meu polegar esquerdo para me redescobrir com espanto.
Já era muito sensível ao posicionamento na observação do próprio corpo, na sua fragilidade e insignificância, mas agora fiquei absolutamente fascinado quando, obrigado a usar uma tala temporária e amovível, me apercebo de que faço a mairoia das coisas simples do dia a dia com a mão esquerda: abrir um frasco, digitar o código no multibanco, atar e desatar nós, rodar a chave de uma porta, etc, etc, e a minoria com a mão direita (marcar os algarismo num telemóvel, escrever e comer).
O problema estava em que a minoria era nobre.
Mas um tipo como eu, que se deslumbra com coisa destas com a maior das facilidades, ao descobrir que afinal é canhoto, leva uma lição de vida.
Como é possível andar distraído com o próprio ego desta maneira?
Daqui para a frente, já não posso dizer que era canhoto só no voleibol.
Era e sou canhoto. Ponto.
E aprendi uma lição: também é preciso parar ao espelho sem ter receio de afogamentos narcísicos.
E meter a mão na pele. Não apenas na consciência.

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