2007-07-26

A LESTE DE ARMAÇÃO



A leste de Armação de Pêra há um perfume de dignidade que nos ensina humildade e nos atira para a insignificância da nossa presunção.
Personifico em duas meninas que vendem pão de manhã à noite numa padaria da vila a superioridade cívica de um povo. Têm sotaque soviético, não sei de onde, nem preciso. Intui-se.
Até hoje, quando decidi escrever sobre isto, e escrevendo percebi-me, trazia dessa padaria um encanto que me era quase ininteligível.
Reencontrava nos mesmos dias as mesmas meninas todos os anos, ficava feliz no reencontro e triste na despedida, mas nunca disse "olá" ou "adeus".
Somos desconhecidos conhecidos, elas provavelmente esquecem-se de mim e dos meus, mas eu e os meus nunca nos esquecemos delas.
Assombram-nos de luz, uma luz que é trabalho empenhado salgado por breves e raros sorrisos.
Como portugueses, sabemos que essa postura não se aprende, vem da carne, nós que inundamos o centro da Europa para nos deixarmos varrer para debaixo das solas dos anfitriões.
Elas não. Elas estão sobre nós. Nunca sob, e, provavelmente sem saberem, estão a alargar o nó da corda que o nosso país tem na garganta.
- Se faz favor.
- Oito papos-secos e duas bolas com creme.
- São dois euros e oito cêntimos.
E passam-se assim os dias, tiram-se a papel químico, com uma pequena precisão:
Nós estamos de férias, elas a trabalhar.
E se há um momento de pausa nesse sorver dos dias, o sorriso alto é delas, nós só ficamos cá por baixo, rendidos por ver vender pão como quem governa um reino.
E vamos embora plenos, e voltamos para testemunhar essa massa e esse fermento de que não somos feitos.
Ao longo dos dias o profundo respeito transforma-se em profundo carinho.
Para o ano, se não houver mais, fica a tristeza e falta essa inspiração.
As meninas não viraram Mulheres, não.
Porque já são, com um M desse tamanho e tudo.
Devem ter ido ao encontro do seu pote ouro, subido o caminho todo.
Nós é que, perversos, continuamos a querer ter esta venda de pão de luxo.
Ter o que não temos neste país, ter quem o faz maior que nós próprios, e ver que ainda há portuguesinho que se queixa de tanto tendo tão pouco.
Sendo tão pouco.

Guardo numa espécie de caixinha de música cada ano que o pão de Armação se amassa a leste.
Obrigado.
Pedro Guilherme-Moreira

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