2007-04-13

António sai da luz


(escrevi este texto espontanemente, logo após ter lido a "Crónica do Hospital", do António Lobo Antunes, na altura disponível, por exemplo, no blogue "Sombras", em http://assombras.blogspot.com/2007/04/porque-um-escritor-no-morre-assim.html , e escrevi-o porque tinha de o fazer. Agora publico-o aqui no blogue, porque na essência é um grito público. Mas apetecia-me poder ser terno com o António, como ele é connosco. Perante o que ele escreveu,  fica-se mudo. Depois cresce em nós uma vontade indomável de gritar. Eis.)

Obrigado, obrigado, obrigado. Impressionante. Belo.


Está a doer-me, mas também não importa se me dói a mim.


Sofro como se fosse um amigo, e é, que o vou tendo comigo há uns tempos a esta parte, mesmo muito comigo, e faz-me lembrar um pouco a Natália que não conheci, a escritora, não a amiga que me morreu quase com um sorriso e uma seringa que haveria de espetar já eu não a podia acudir, ele a vir agora dizendo-se velho, mas nunca acreditando, eu a ver que ele novo já não é, mas também esperando que isso pouco importe, mas detendo-me, nestes últimos tempos e sob o pretexto desta Babilónia com que nos ilumina, ouvindo-o com o Carlos ou vendo-o com a Judite,

Vendo-o com a Judite, vendo-o muito fundo nos olhos claros,

- Tens uma doçura infinita, António.

Parecia-me alienação, mas afinal é só naturalidade, humanidade

- Dizes há alguns anos que só vais escrever mais três. Deixa lá. Escreverás. Deixarás os que te escrevem.


Mas escreve pelo menos mais um, esse que não é nada e vai a meio do esboço que deitarás para o lixo.


Escreve esse, que, se queres que te diga, importa-me pouco, neste momento, o livro que ainda está para sair e que dizes ser o melhor que alguma vez escreveste.


Eu que nunca consegui ler um livro teu inteiro, António, mas já peguei neles todos, e sempre que atravesso as livrarias persigo as tuas palavras, uma página, duas páginas, um fascínio imenso.


Posso pedir-te para não teres medo?


Para creres no Henrique, no anjo, mesmo sem ouvir palavras e esperanças vazias. Ou ouvindo-as, ficando só com o amor de quem as diz.


Saí lá dessa metástase, não para luz, mas para a sombra solitária da tua secretária, onde rasgarás o papel começando de novo.


É isso. Será tão sublime que vais começar tudo de novo.


Um grande, grande abraço, António.


Apetece-me dizer que gosto muito dessa tua grandeza pequena, aquela que se reduz a ti, aos teus olhos e hesitações, à ternura e ao carinho que a brutalidade de cada frase tua vaza no mundo.


Pedro Guilherme-Moreira

4 comentários:

José Alexandre disse...

Felizmente António está melhor agora, curado, como ele prefere dizer. Gostei do que escreveu. Tem um link para este post no site não oficial hhtp://www.ala.nletras.com (em referências).

Joana disse...

Permita-me indicar-lhe esta hiperligação: http://diariodeumhomemsentimental.blogspot.com/2008/01/no-um-escritor-de-escrita-fcil.html

NickyBlue disse...

Estou certa que vai apreciar esse link! :)

PG-M,o ignorante-mor disse...

Então não apreciei?Obrigado!Tinha-me escapado esta entrevista.Que dois que eu tanto admiro!PG-M