2006-03-22

PORTO


PORTO

A ponte é apenas
prostituta
Da oca ideia de ti,

Mas tu
Já não te mostras assim,
Tu és pedaço de sombra
e silêncio adivinhado

Num cimbalino a escaldar.

Tu és
Todos os bairros e ilhas,
A Foz e o Campo Alegre,
O Palácio e a Rotunda,
Todos os mártires da pátria,
O Infante, as Fontaínhas,
Sá da Bandeira, Bonfim,
Antas, Maia e Rio Tinto,
Gondomar e Matosinhos,
ou Vila Nova de Gaia.

Tu és mais meu ao nascer,
Serás mais meu ao morrer.

Mas afogado no Douro,
Agricultando-te esquinas,
Arando a pedra e a sombra,
Cultivando-te o mistério,

Vim da Ribeira para cima,
Perdendo o ar em Mouzinho,
E encostei-me às Cardosas
Para te olhar o focinho,

O tal salão de visitas
Que os Aliados cederam
Ao Universo.

Ficas-me imerso
Na carne,
Ficas perverso
No sangue,
Fervendo o sal do sotaque,

Fazes doer a distância
Quando me afasto de ti
E fico longe do verso

Então, descolo do chão,
Embriago-me em calão,
Palavras largas, ovais,

E em Rabelo, a saudade
Vem ao poema lembrar

Que um “carago” dito assim,
Na ausência da cidade,
Põe um tripeiro a chorar.

Amamos a insultar.

Por isso, não há cicuta
Nem desvio de conduta,

Quando os comboios apitam
E em Campanhã te gritam

“Meu Porto filho da puta!”
Pedro Guilherme-Moreira
2006-03-22

2006-03-17

O PERDÃO (A Natália Correia)

O PERDÃO (a Natália Correia)

Era eu e meio mundo,
Na solidão pensante,
A desdenhar os vôos
Da tua lança infame.

Perdoei-te.

Eram mulheres de homens,
Em amantes ressentidos,
Que mirravam na fronteira
Do teu país, Mátria em si.

Perdoei-te.

E foi um Março qualquer,
Nem por ontem nem por nunca,
Nem por ti nem por ninguém,
Que resolveste partir.

E eu, que andei sem ti
Meia vida e meia morte,
Já me perdi neste passo;
Se não fui, também não vim;

Parei, surrealizei e vi,
Nesse segundo sem ti,
Que noites sem teu trovão
São cem planaltos sem chão,

Sem me empurrares,
Sem me espantares.

Não pode ser, Natália,
Que vais fazer tu aí?
Que vamos nós ser aqui?

Não te perdoo, assim.
Perdoa-me tu,
Por mim.


Pedro Guilherme-Moreira
16 de Março de 1993

2006-03-04

Somos TERRA FRIA (North Country)


Sou-vos sincero:

como advogado, como lutador chato e perfurante pela liberdade, nesta dormência perigosa que tem sido a nossa democracia, fiquei terrivelmente inspirado por este filme, que, ao contrário de “Monstro”, não é apenas palco para a grande grande grande grande Charlize Theron (mulher de armas, que nunca se deixou inebriar pela sua beleza...inebriante) brilhar, mas é também uma excelente fita!


A história é verídica, e faz-nos migrar pela sala em tensão, mas também em plenitude, durante duas horas.


A tensão advém, creio, da familiaridade com aquilo que se passa ainda hoje, à nossa volta, todos os dias, em cada momento, em cada pormenor.


É que a história pode ser catalogada de forma simplista como sendo sobre “a primeira vitória judicial de uma mulher vítima de assédio sexual”, mas nós sabemos que é sobre a liberdade como um todo.


É, acima de tudo, sobre as curvas suaves do despotismo das sombras, esse pequeno monstro moderno que nos vai corroendo de bocadinho em bocadinho, até ao desespero total.


A plenitude advém do extraordinário testemunho de coragem de uma só pessoa, que, em determinado momento, até da família fica isolada.


A plenitude instala-se porque nos convencemos de que também seríamos capazes.


Seríamos?


A resposta tem de ser positiva, pela saúde dos nossos filhos.


Mas é fácil, muito fácil, cair na linha dois, e seguir o outro rumo, o rumo das massas, que é cómodo, cinzento, confortável.


Absolutamente imperdível.


Até porque Charlize.


Pedro Guilherme-Moreira


2006-03-03

ALJUBA ROTA


Confesso que havia anos que planeava deter-me nesta aldeia que nos enforma a essência de ser português.

E foi desta vez que, num regresso de Lisboa, depois do prazer que é rasgar o regresso ao Norte pelos lados de Sintra, num dia perfeito, sempre em busca do mar, até à Ericeira - e ver, grato, que é possível, às portas de Lisboa, a visão bucólica de uma Cheleiros, sozinha, num vale quase de brincar, e pouco depois a surpresa de um Convento de Mafra a renascer (pelo menos por fora); foi desta vez, dizia, que descobri melhor, ainda que pela rama, é certo, Aljubarrota.

Alcobaça não me queria oferecer almoço, e fazia-se tarde. Perguntei na rua, em entrando em Aljubarrota, a metros do Nun'Álvares de pedra, por sítio onde se comesse bem, como faço sempre. Disseram-me que era na Sofia, e foi mesmo. O carro ficou no único sítio possível, junto a um muro de pedra de onde se espreitava erva e ovelhas. E na Sofia comeu-se mesmo bem um Arroz de Bacalhau.

Aljubarrota é um local, apesar de tudo, atípico nesta zona. Tem um estranho perfume alentejano, não sei explicar porquê. Mas sente-se. É bonita, antiga, pequena, acolhedora, luminosa. E as pessoas são envolventes, querem explicar, querem sedimentar-se em nós.

Mas foi também em Aljubarrota que me disseram que não há nada para ver do passado de um povo. Seria possível? Era. Mandaram-me dez quilómetros para a frente, a uma terrinha sobranceira à EN1, São Jorge, onde fica o campo da batalha, o tal que se procurava, e que vai retratado aí em cima.

Nem um único letreiro. Nada. O Museu militar onde se guardam alguns elementos desse momento histórico está em obras, e no local nada nos diz o que ali se passou.

Fica a emoção de ter pisado o campo onde Nun'Álvares comandou um exército minoritário, e venceu os castelhanos com a brilhante táctica militar do quadrado.

Fica a emoção de ter cheirado a lenda de uma certa padeira nos olhos do povo que dela desce.

Mas fica acima de tudo a revolta pelo que não se faz hoje neste país por este país.

E destaco "hoje", porque é logo a seguir a São Jorge que a visão do Mosteiro da Batalha nos diz que nem sempre foi assim.

Segui para Norte sentindo-me roubado, usurpado, e, como sinto tantas vezes (eu e tantos outros), como se de uma comichão eterna se tratasse, Portugal adiado.

Pedro Guilherme-Moreira