2006-02-03

POESIA EXPLICADA?

Desculpem lá, mas hoje escrevi um bocadinho mais denso, não por sofisticação, mas por mero egoísmo. Queria dizer isto mesmo, e desta forma. E aproveitei este momento menos claro para fazer o que há muito prometia a mim próprio: EXPLICAR O POEMA (perde a "piada"? é criminoso? paciência...para mim é a oportunidade de expor a poesia como uma espécie de jogo, de puzzle, de escultura, de composição musical) sem qualquer tipo de pretensão académica ou científica, explicação essa que se segue ao mesmo, que, já agora, é a



DECLARAÇÃO DE UM AMOR NORMAL


Um só fio de água em sublimação,

Um traço de sol caído nas pálpebras,

Um riso de dentro comido entre nós,


Ausências presentes em tardes de chuva,

Lençóis consumidos por meros olhares,

O Sexo esperando que o amor o consinta.


Não quero que a minha verdade lhe minta

Ao querer declarar-lhe a forma de ser

Do amor que aqui trago, sem superlativos;

Mas se na lonjura do céu, fui sabendo


Que o éter é feito da minha mulher,

Escrevi-lhe de lá o soneto invertido

De versos, de espaço, de sempre, e temendo

Um sol distraído, um riso perdido.


Pedro Guilherme-Moreira

2006-02-03


POESIA EXPLICADA:

Não o levem, por favor, à conta de vaidade. Garanto-vos, e porque estou numa de explicar, que é, apenas e só, envolvimento.

Ora, comecemos pela forma atípica: é um soneto invertido porque a concepção de amor do autor também está invertida: começa na actual, acaba na dúvida inicial. O poema pode também ser lido rigorosamente ao contrário, do último para o primeiro verso, sem que o sentido lhe seja totalmente destruído. A ideia era essa, embora, sinceramente, me tenha eximido de prejudicar o alinhamento normal para que o resultado de trás para a frente fosse totalmente coerente.

O poema, construído a onze sílabas métricas por verso (tem uma com dez...toca descobrir qual, e há uma explicação: a palavra que o termina tem a sílaba métrica na antepenúltima sílaba, e o ritmo sobrepôs-se ao rigor) aposta essencialmente na musicalidade e no ritmo, como sempre


Agora vejamos verso a verso, foto e título incluído:


Foto: o sol da tarde cadente, na Praça da Batalha, no Porto, frente ao Teatro Nacional São João, onde se representava a peça "Castro" (amor normal/amor arrebatado/traço de sol...:)

DECLARAÇÃO DE UM AMOR NORMAL

(o amor está nas coisas simples - é um tema recorrente, no meu caso, mas a que volto de quando em vez, porque me parece importante relembrá-lo; repare-se que o poema regride para momentos de arrebatamento, seguindo a lógica exposta inicialmente...veja-se o verso "que o éter é feito da minha mulher");

Um só fio de água em sublimação,

(pretende-se jogar como conceito de sublimação e de sublime; ao mesmo tempo, rasga-se tal conceito com o do sujeito, que é líquido - o fio de água -; ou seja, o amor passa por todos os estádios, mas é essencialmente uma sublimação, a transformação directa de sólido em gasoso, de duas entidades numa só; nova, claro, sem que se eclipem as primitivas)

Um traço de sol caído nas pálpebras,

(uma mera descrição do prazer daqueles momentos em que um sol suave nos inunda os olhos, pretendendo significar a serenidade no amor)


Um riso de dentro comido entre nós,

(a cumplicidade)


Ausências presentes em tardes de chuva,

(a ideia de que o importante é estar por perto, não necessariamente interagindo em permanência; as tardes de chuva foram escolhidas porque dão a ideia de recolhimento em casa;)

Lençóis consumidos por meros olhares,

("lençóis consumidos" é hoje uma expressão vulgar numa descrição de um acto sexual; aqui pretende-se realçar a beleza do contraste na partilha de um leito por amor, calor, olhar, afecto, mesmo que sem sexo;)


O Sexo esperando que o amor o consinta.

(a minha frase favorita do poema:), e peço desde já perdão pela presunção; diz quase tudo. O Sexo não tem agenda, mínimos ou máximos impostos, mas evolui serenamente ao sabor do amor, não importando se foi ontem, se será agora ou daqui a um mês; essa é a realidade de quem se ama; sexo não é nem nunca foi denominador;)


Não quero que a minha verdade lhe minta

Ao querer declarar-lhe a forma de ser

Do amor que aqui trago, sem superlativos;

(estes três versos devem ser lidos de um trago. Tradução: "não quero que ao dizer à minha mulher a forma como a amo, a tal forma normal, ela daí depreenda vulgaridade ou menos sentimento, bem pelo contrário";)


Mas se na lonjura do céu, fui sabendo

Que o éter é feito da minha mulher,

(aqui está o movimento final, tal como numa composição musical; primeiro a antítese: a lonjura do céu e a proximidade da mulher; o éter que se faz de mulher, e de onde é escrito o soneto invertido; agora o poema, porque em soneto invertido, vai esvair-se numa dúvida, como se vai ver; estes dois versos são os versos do amor arrebatado . Afinal estão cá com uma dupla função: a função temporal, de colocar este conceito de amor no passado, e a função de desmascarar o próprio poeta, que canta um conceito e acaba por se render a outro:). Também queria realçar a presença da mulher, pouco comum na poesia, que tenta ocultar as mulheres dos maridos, e os maridos das mulheres, ficando com as musas, as paixões, as amantes, as indefinições;)

Escrevi-lhe de lá o soneto invertido

De versos, de espaço, de sempre, e temendo

Um sol distraído, um riso perdido.

(o soneto está invertido de tudo, como explicado, de versos, de espaço, de sempre - ou seja, de tempo - , e termina com a dúvida inicial de qualquer amor, quando não nos deixamos iluminar pelo traço de sol, quando deixámos cair o riso dela na rua, por excesso de hesitação; claro que este final em suspenso também tem dupla função; a que está aqui em cima, e a de conferir uma saudável incerteza a tudo o que se diz e sabe do amor que se tem; a preocupação permanente, para que tudo não caia numa rotina sem sentido, a construção e desconstrução diária):

E pronto, fiz, está feito.
Poesia explicada.

Boa ou má, já está.

Pedro Guilherme-Moreira

2006-02-03