2006-12-15

O MENINO (Natal 2006)

Há um menino que é pobre, mas não sabe disso, e que a altas horas da noite se escapule do meio da cama dos pais, da cama de todos, e diz “vou fazer xixi”, mas vai é à sala olhar o braseiro onde estala a última vara da braçada que arrastara pela neve ao cair do dia, que é cedo de tarde, e sorri de conforto, e já que o tem na cabeça alça a manta castanha de lã salgada do borboto que apetece, por ser a história do calor que o traz feliz desde que se lembra, demora-se a abrir a pesada porta de madeira pintada do verde dos pinheiros mansos, para que os pais ainda possam fingir que o não ouvem, e encosta-se do lado de fora, que os olhos brilham da televisão da casa do doutor ali em baixo no vale, onde em Dezembro passam vezes tantas à hora os anúncios de cores em valsa, o azul abraça o vermelho que abraça o amarelo que abraça o laranja que abraça o celeste que abraça o lilás, e as rosas, as mesmas que se deixam soprar desde o vento, às vezes tapam a vista e ele fica encantado a sonhar para dentro que este Natal vai ser igual ao do ano passado, quando abriu a loja de chineses da vila, e ele chorou convulsivamente quando viu que o Pai Natal tinha vindo por ele desta vez, mas este ano, como fora educado e lho disseram uma só vez depois da comoção do presente esventrado, podia não vir, e ele dizia aos pais, para fora, que o que me importa são as batatas e as couves com azeite, e o vinho doce e quente com passas e mel, e o braseiro das varas de uma braçada só dele, mas por dentro esperava uma lembrança outra vez, mas as rosas voltaram de novo a erguer-se, e ali, só com vento gelado e a visão desfocada do Natal impossível, era todo feliz.

1 comentário:

innername disse...

era todo feliz.
humildade de quem valoriza o pó e até o ar que respira. adorei este texto.
Tb a força que empresta às emoções passadas de Lobo Antunes.