2006-06-09

O TÚMULO DOS PIRILAMPOS (e os abismos da alma)



Uma dor, uma dor imensa mas plana, serena, como um mar de calmaria, como um lago na alvorada de um dia fresco de Verão.
Um olhar para dentro, um buraco negro, talvez uma galáxia, tantas lágrimas, lágrimas que fizeram um circuito interno, passando pelos olhos, mas nunca os transbordando, como Isao Takahata, o realizador, certamente desejaria.

Estou mesmo a vê-lo, perante o produto acabado, pensando alto. Quem vir este filme há-de experimentar o genuíno sofrimento, há-de fazer justiça ao meu povo e a todos os povos, a cada criança que experimentou ou venha a experimentar o que a minha Setsuko e o meu Seita experimentaram, nestas ou noutras circunstâncias, mas quero que se passe tudo por dentro , sem marcas exteriores, como uma imensa cicatriz interior.”

Senti esse ferida a abrir na carne na noite em que vi o filme.
Senti depois o vazio entrincheirado em mim para sempre, quando acordei.
E decidi que era meu dever tentar traduzir por palavras uma certeza íntima: a quase "obrigação" de ver este filme.

Quem vir este filme chora pouco por fora.
Isao Takahata quis fazer da sua obra, que é prima, um testemunho seco e avassalador do real.
E nem o cliché “caso verídico” serve.
Se é um caso verídico (ver final deste texto *), e Isao nunca o nega, é-o milhões de vezes durante a história da humanidade, foi-o em 1945, quando os "pirilampos" escavaram outros tantos túmulos para enterrar o povo japonês, como o é hoje, neste preciso segundo.
Não há divisão ou subdivisão no Cinema que resista ao absoluto brilhantismo deste filme.

Se dizer “animação” afasta liminarmente o leitor destas palavras, prefiro omiti-lo.
Se há filme em que resulta esmagador o quanto é irrelevante ser ou não animado, é o “Túmulo dos Pirilampos”. Por Excelência.
Por absoluta Excelência.
E, pasme-se, é japonês e nem sequer é de Myazaki, mas de Isao Takahata, um realizador nascido em 1935, e quase ignorado pelo mundo. Até no traço Isao Takahata se distingue do amigo. Isao puxa-nos para a Terra. E abusa de nós, também. Os planos aproximados da menina de quatro anos, Setsuko, são verdadeiramente impressionantes. Está ali a nossa irmã, prima, filha. Está ali um anjo encantado, num momento, e a menina do lado, no outro.
Abusa de nós no final, não no desenlace propriamente dito (que só por si é quase insuportável), mas no "flashback" que faz (levando-nos a um lugar onde não tínhamos estado, ou melhor, a um tempo que não conhecíamos de um lugar que já conhecíamos).
Esse "flashback", como pai que sou, levou-me ao limite do suportável. Depois me dirão se tenho razão. Em fundo, dilacerante, ouve-se Amelita Galli-Cruci (1882-1963, "If not the greatest coloratura soprano of all time..."), em "Home Sweet Home" - é um momento que marca para todo o sempre - está ali a nossa própria substância.

E, terminando em total violação de quaisquer regras jornalísticas, passo a uma breve sinopse. Este filme é, afinal, sobre a fome – nunca vi nenhuma imagem real que me abalasse tanto, e gritasse “fome!”, como as imagens reais dos desenhos de Isao Takahata.
Não percam e, se o virem, façam-no em silêncio, em absoluta calma.
O filme está classificado para maiores de seis.
O meu filho tem quase sete. Intimamente, sinto que lhe devia mostrar o “Túmulo”, tal como não lhe vendo os olhos de cada vez que ele sai à rua. Mas ainda não.
Porque é duro, muito duro.




Pedro Guilherme-Moreira
2006-06-09
* Este filme é fidelíssimo ao livro homónimo de Akiyuki Nosaka, que lhe está na base, e este, por sua vez, é auto-biográfico. Por isso, a resposta é "sim", esta história aconteceu. Mas, por difícil que isso seja de aceitar, foi ainda mais terrível. Para o perceber, há que ler a breve entrevista ao autor, que, com desarmante sinceridade, fala do que realmente se passou. Mas deixo um pedido: a entrevista deve ser lida após o visionamento do filme. A sua leitura prévia pode aniquilar a forma como Isao planeou emocionar-nos. O link para a entrevista é este:
http://www.nausicaa.net/miyazaki/grave/interview.html









6 comentários:

Rolando disse...
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Rolando disse...

Olá...grande filme sim senhor, dos melhors que vi até hoje..emocionante, sem duvida nenhuma...mas queria aqui só deixar uma rectificação, foi Isao Takahata, o realizador do Túmulo dos Pirilampos que realizou Heidi e não Miyasaki...

Carlos Silva disse...

Filme lindíssimo, de um lirismo poético exacerbante..


Extremamente triste, de uma violência psicológica gritante, é no entanto, uma história lindíssima, que eleva a beleza e a força do espírito humano perante a adversidade.


Parabéns pelo blog.

Isaura disse...

Adorei !! Muito bem escrito !Decididamente tenho de encontrar o filme .. . .alguma sugestão ??

FLAMES (Mariana e Roberta) disse...

Um anime fantástico descrito de uma forma soberba! 5 estrelas.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, meninas Mariana e Roberta:)