2006-03-04

Somos TERRA FRIA (North Country)


Sou-vos sincero:

como advogado, como lutador chato e perfurante pela liberdade, nesta dormência perigosa que tem sido a nossa democracia, fiquei terrivelmente inspirado por este filme, que, ao contrário de “Monstro”, não é apenas palco para a grande grande grande grande Charlize Theron (mulher de armas, que nunca se deixou inebriar pela sua beleza...inebriante) brilhar, mas é também uma excelente fita!


A história é verídica, e faz-nos migrar pela sala em tensão, mas também em plenitude, durante duas horas.


A tensão advém, creio, da familiaridade com aquilo que se passa ainda hoje, à nossa volta, todos os dias, em cada momento, em cada pormenor.


É que a história pode ser catalogada de forma simplista como sendo sobre “a primeira vitória judicial de uma mulher vítima de assédio sexual”, mas nós sabemos que é sobre a liberdade como um todo.


É, acima de tudo, sobre as curvas suaves do despotismo das sombras, esse pequeno monstro moderno que nos vai corroendo de bocadinho em bocadinho, até ao desespero total.


A plenitude advém do extraordinário testemunho de coragem de uma só pessoa, que, em determinado momento, até da família fica isolada.


A plenitude instala-se porque nos convencemos de que também seríamos capazes.


Seríamos?


A resposta tem de ser positiva, pela saúde dos nossos filhos.


Mas é fácil, muito fácil, cair na linha dois, e seguir o outro rumo, o rumo das massas, que é cómodo, cinzento, confortável.


Absolutamente imperdível.


Até porque Charlize.


Pedro Guilherme-Moreira


4 comentários:

Tirol disse...

Em boa hora consultei este blog... são 23 horas de Sábado e estava a pensar ir ao cinema (depois de acabar o jogo do Benfica, obviamente... sob pena de divórcio...). Mas agora os realizadores apostam todos em filmes longos que tornam qualquer ideia de ir à sessão da meia-noite num espasmo incompreensível para o nosso corpo cansado de uma semana de escritório. O certo é que fiquei com muita vontade de ver este filme. Pela história e, sobretudo, pelo comentário feliz e convicto do PG-M. Se o filme for tão bom como o "ignorante-mor" o pinta, sou capaz de não me arrepender de sair de casa a esta hora e com este tempo (claro que o díficil vai ser convencer o marido, benfiquista infeliz depois de uma derrota ou empate do seu clube com o simples Estrela da Amadora...). Mais uma vez obrigada pelo óptimo "post".

CÁ FICO disse...

há muito que me deixei de ir ao Cinema...

Gostava sim!Os preços tornaram-se proibitivos...
E foi assim que me deixei pelas imagens dos Clássicos Ben Hur...

..Também que os filmes dos states ou de qualquer outro lugar tornaram-se cada vez mais ideológicos e psicológicos...
"Providence" foi um filme de rotura e novidade...uma espécie de "nona dimensão" á semelhança de "2001 - Odisseia no Espaço"..

o comercio da /ª arte deturpou os direitos de criatividade e de autor...apenas existe a industria cinematográfica decadente( a ARANHA) e as "carcaças velhas", quais " moscas " que paulatinamente se vão decompondo...

Miguel Primaz disse...

Meu Caro Colega,

Acabei de assitir ao filme em causa e gostaria de partilhar a minha total identificação com o que explana no post.
Um filme imperdível, que nos faz levantar "asas" ao inspirar-nos ideais que o quotidiano acelerado tende a ofuscar.

Bem Haja

PG-M,o ignorante-mor disse...

Ainda bem, meu colega. Fico muto feliz, quando assim é. E faz-me pensar que não foi um qualquer momento de romantismo forense. Efectivamente, saí de lá com uma determinação renovada a continuar a seguir a linha estreita mas inexpugnável da minha coluna vertebral:)