2006-03-03

ALJUBA ROTA


Confesso que havia anos que planeava deter-me nesta aldeia que nos enforma a essência de ser português.

E foi desta vez que, num regresso de Lisboa, depois do prazer que é rasgar o regresso ao Norte pelos lados de Sintra, num dia perfeito, sempre em busca do mar, até à Ericeira - e ver, grato, que é possível, às portas de Lisboa, a visão bucólica de uma Cheleiros, sozinha, num vale quase de brincar, e pouco depois a surpresa de um Convento de Mafra a renascer (pelo menos por fora); foi desta vez, dizia, que descobri melhor, ainda que pela rama, é certo, Aljubarrota.

Alcobaça não me queria oferecer almoço, e fazia-se tarde. Perguntei na rua, em entrando em Aljubarrota, a metros do Nun'Álvares de pedra, por sítio onde se comesse bem, como faço sempre. Disseram-me que era na Sofia, e foi mesmo. O carro ficou no único sítio possível, junto a um muro de pedra de onde se espreitava erva e ovelhas. E na Sofia comeu-se mesmo bem um Arroz de Bacalhau.

Aljubarrota é um local, apesar de tudo, atípico nesta zona. Tem um estranho perfume alentejano, não sei explicar porquê. Mas sente-se. É bonita, antiga, pequena, acolhedora, luminosa. E as pessoas são envolventes, querem explicar, querem sedimentar-se em nós.

Mas foi também em Aljubarrota que me disseram que não há nada para ver do passado de um povo. Seria possível? Era. Mandaram-me dez quilómetros para a frente, a uma terrinha sobranceira à EN1, São Jorge, onde fica o campo da batalha, o tal que se procurava, e que vai retratado aí em cima.

Nem um único letreiro. Nada. O Museu militar onde se guardam alguns elementos desse momento histórico está em obras, e no local nada nos diz o que ali se passou.

Fica a emoção de ter pisado o campo onde Nun'Álvares comandou um exército minoritário, e venceu os castelhanos com a brilhante táctica militar do quadrado.

Fica a emoção de ter cheirado a lenda de uma certa padeira nos olhos do povo que dela desce.

Mas fica acima de tudo a revolta pelo que não se faz hoje neste país por este país.

E destaco "hoje", porque é logo a seguir a São Jorge que a visão do Mosteiro da Batalha nos diz que nem sempre foi assim.

Segui para Norte sentindo-me roubado, usurpado, e, como sinto tantas vezes (eu e tantos outros), como se de uma comichão eterna se tratasse, Portugal adiado.

Pedro Guilherme-Moreira

1 comentário:

hmbellas disse...

Não é justo, num dia de trabalho, ou melhor numa sexta-feira, fim de mais uma semana de trabalho, encontrar uma pagina como a tua e não poder ficar aqui toda a tarde a divagar... ainda mais quando se buscavam elementos para outra oposição a mais uma injunção...
obrigada pelo merecido descanço.