2006-01-03

INSUPORTÁVEL



É sempre assim.

Como ele é parte de mim
E à carne regressou
No último dia de aulas,

E ficou perto demais,
E o seu cheiro também
E foram vezes maiores
Que ficámos abraçados
Calados,

Dia ante dia,

As cabeças encostadas,
Eu a cheirar-lhe o cabelo
Sem dizer nada, e ele,
Às vezes quieto,
Às vezes liberto,
Porque lhe cansa
O afecto,

A perguntar Papá,
Porquê o quê?
Quando e como?
És infinito?
Vou ser maior
Do que tu?

E eu afasto-me
E vejo-lhe os olhos doces
Por trás dos óculos,
Deixo-o no portão da escola,
Aos pés da ausência,
Fora de mim

E o corpo pequenino
Na Lonjura

E choro sempre
Lágrimas grossas
Mas surdas
Sem soluços
Ou lamentos,

E digo alto que o amor
É

Insuportável.


Pedro Guilherme-Moreira
2006-01-02

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