2006-12-15

DARFUR-24-12 (Natal 2006)


menina morre à fome em Darfur (2004)

DARFUR-24-12

Toca o sino pequenino
No regaço há um menino
Que não come que não dorme
Que não brinca nem sorri
Que se aninha e nos pergunta
Pelo espaço sideral
“Vem aí o Pai Natal?”

E a mãe rasgada dentro
Chora a lágrima fungível
Pela boca desse filho
Que tem fome e bebe o sal
“Vem aí o Pai Natal?”

Virá breve vai agora
Vai e embala o olhar liberto
Volta ao pó e pela aurora
Sobe aos ventos do deserto.



Pedro Guilherme-Moreira
2006-11-19
Natal 2006 Posted by Picasa

O MENINO (Natal 2006)

Há um menino que é pobre, mas não sabe disso, e que a altas horas da noite se escapule do meio da cama dos pais, da cama de todos, e diz “vou fazer xixi”, mas vai é à sala olhar o braseiro onde estala a última vara da braçada que arrastara pela neve ao cair do dia, que é cedo de tarde, e sorri de conforto, e já que o tem na cabeça alça a manta castanha de lã salgada do borboto que apetece, por ser a história do calor que o traz feliz desde que se lembra, demora-se a abrir a pesada porta de madeira pintada do verde dos pinheiros mansos, para que os pais ainda possam fingir que o não ouvem, e encosta-se do lado de fora, que os olhos brilham da televisão da casa do doutor ali em baixo no vale, onde em Dezembro passam vezes tantas à hora os anúncios de cores em valsa, o azul abraça o vermelho que abraça o amarelo que abraça o laranja que abraça o celeste que abraça o lilás, e as rosas, as mesmas que se deixam soprar desde o vento, às vezes tapam a vista e ele fica encantado a sonhar para dentro que este Natal vai ser igual ao do ano passado, quando abriu a loja de chineses da vila, e ele chorou convulsivamente quando viu que o Pai Natal tinha vindo por ele desta vez, mas este ano, como fora educado e lho disseram uma só vez depois da comoção do presente esventrado, podia não vir, e ele dizia aos pais, para fora, que o que me importa são as batatas e as couves com azeite, e o vinho doce e quente com passas e mel, e o braseiro das varas de uma braçada só dele, mas por dentro esperava uma lembrança outra vez, mas as rosas voltaram de novo a erguer-se, e ali, só com vento gelado e a visão desfocada do Natal impossível, era todo feliz.

2006-08-09

SENHOR CAMIONISTA, AS FÉRIAS JUDICIAIS...


SENHOR CAMIONISTA, AS FÉRIAS JUDICIAIS...

Senhor Camionista, deixe-me cumprimentá-lo, antes de mais. Ouvi-o atentamente na rádio, no programa da Eduarda Maio, e fiquei a pensar no que sentiria o senhor camionista se eu, que sou advogado, chegasse um dia à sua beira, digamos que lá pelas onze da manhã, numa qualquer estação de serviço por essa Europa fora, e, sem saber que tinha conduzido doze hora de enfiada, murmurasse entre dentes, enquanto o senhor camionista degustava a sua cerveja fresquinha, “bêbados parasitas, a beber a esta hora da manhã, em vez de estarem a trabalhar”?
Garanto-lhe que tentei tudo para telefonar para a Eduarda, e pedir-lhe para fazer a única coisa que ainda não se fez neste país, quando se debate as férias judiciais: pôr o povo a conversar com o objecto da sua crítica. Crítica, deixe-me desde já dizer-lhe, fácil, fluida.
Um dos seus colegas, minutos antes, também a viajar da Guarda para Castelo Branco, depois de ter saído de Salamanca logo pela manhã, disse uma coisa extraordinária sobre os magistrados: “Eles dizem que trabalham nas “férias”, mas eu não os vejo a trabalhar na praia!” E, a instâncias da Eduarda, de como é que distinguia um juiz na praia, respondeu ele: “Se tiver muitos papéis...”;
Ora, senhor camionista, eu sei que é difícil acreditar, mas o seu colega disse mesmo isto. O senhor disse algo de parecido (chamou aos advogados, aos funcionários e aos magistrados “parasitas”) e ainda falou dos tais dois meses de férias judiciais que todos querem gozar.
Permita que lhe diga, senhor camionista, mas ao senhor é difícil perdoar tanto desconhecimento, o senhor que ouve fóruns radiofónicos horas a fio, e já devia saber estas coisas. É por isso que lhe digo que, se me tivesse à sua frente enquanto bebia a sua cervejinha na estação de serviço, não dizia as coisas que disse, porque eu ia simplesmente perguntar-lhe:
- O senhor sabe o que está a dizer?- Sei – diria o senhor camionista, e continuava – enquanto nós esperamos horas no Tribunal pelo julgamento, os funcionários andam sempre a passar, riem-se uns para os outros e tudo! Ouvem rádio a trabalhar e tudo. Não fazem nada!
- O senhor nunca se ri e ouve rádio, quando está a trabalhar, senhor camionista?
- Ora, rio, mas eles estão num sítio de respeito.
- Mas o senhor acha que respeito é isso, senhor camionista?
- Pode não ser, mas isto das férias é um escândalo! Dois meses?
- Diga-me uma coisa, senhor camionista, quando vê o apresentador do telejornal, acha que ele trabalha só uma hora por dia?
- (...)
- Pois é, senhor camionista...esses dois meses são de trabalho, não de férias...
- De trabalho? Que trabalho?
- Diga-me outra coisa, senhor camionista, nunca lhe aconteceu ter de atrasar um prazo de entrega?
- Já, muitas vezes.
- O que acha se lhe dissessem que, doravante, se não cumprisse o prazo, perdia o negócio, prejudicando assim dezenas, senão centenas de pessoas, que dependiam de si?
- Isso não pode ser, há sempre uma justificação.
- E se, mesmo com justificação, perdesse o negócio se se atrasasse uma hora a entregar uma mercadoria?- Impossível, não podia viver.
- Sabia que é assim que vivem os advogados? Sabia que durante mais de dez meses a fio não há perdão para um prazo falhado que seja? Conseguia viver assim?
- Eu não!
- Então o que me diz quanto a advogados que, dia após dia, estão preso em tribunais para diligências e julgamentos? Se o senhor passasse a vida a correr para tribunal, conseguia concentrar-se num trabalho maior, mais aprofundado, mais delicado?- (...)
- E se fosse juiz, e tivesse todos os dias de estar na sala a fazer julgamentos, conseguia ter vagar para estudar e construir as suas sentenças, principalmente nos casos maiores?
- (...)
- Não é verdade que, sabendo que não ia ter de correr para tribunal (sendo advogado), ou de passar a vida em julgamento (sendo magistrado), conseguia despachar muito trabalho, e trabalho maior, na altura em que não houvesse julgamentos ou prazos a correr?
- Era...
- E sabe quantas leis são publicadas num ano?
- Centenas?
- Às vezes milhares de pequenas e grandes alterações! Sabe quando é que há tempo e vagar para aprofundar o estudo de todas essas alterações, para atender melhor os clientes (os advogados), ou conhecer melhor a lei (magistrados e advogados)?
- Nas “férias”?
- Pois, senhor camionista, agora talvez perceba que essas ditas “férias judiciais” são tudo menos férias. São a oportunidade de trabalhar, de fazer coisas absolutamente necessárias para que o trabalho (de juízes de advogados) seja mais produtivo e tenha mais qualidade.
- Ai é?
- E não só. A oportunidade de trabalhar com calma e vagar é de tal ordem, que muitos advogados e magistrados mal tiram férias (reais!) para descansar, gozando a maioria das vezes uma semana mal gozada, pouco mais, porque há muita coisa para fazer antes de recomeçarem a correr os prazos.
- Pois...
- Agora diga-me o que acontece a muitas sentenças, a muitos trabalhos de fundo, e a muitos estudos aprofundados, se lhe cortarem esse tempo pela metade...
- Não se faz nada disso...
- Pois não faz. Nem se pega em certas coisas – e o país fica prejudicado. E provavelmente os advogados e magistrados, agora, até vão gozar mais dias de descanso do que gozariam antes de lhes tirarem metade do tempo, porque vêem que não vão ter tempo útil para abordar certos assuntos. Quando voltarem, tudo vai ser feito com muito maior pressão, sem vagar e clarividência. Piores decisões de juízes geram mais recurso, piores peças de advogados geram maior contestação, mais papelada, mais tempo de processo.
- Chiça...
- E os prazos, a correr até Agosto, e a recomeçar logo no princípio de Setembro, não deixam que os advogados, principalmente os que trabalham sozinhos, tirem férias decentes, porque têm de deixar pronto muito trabalho cujo prazo vai terminar logo após as férias judiciais. Muitas vezes, porque a mulher (ou o marido) não têm flexibilidade na marcação de férias, no emprego deles, até deixam de passar as férias em família, porque só podem parar uma ou duas semanas em Agosto (e só em Agosto, agora!).
- E ficam “lixados”...
- Pois, um sistema que dá cabo de uma margem de produtividade razoável, como era a margem dada pelas anteriores “férias judiciais”, é um sistema que gera pessoas descontentes, desmotivadas, cansadas, pouco produtivas.
- Pois.
- Mais ainda há pior, senhor camionista: há a face negra da questão - muitas entidades - e pessoas! - competentes para instruir ou dar início a processos cujos prazos não se interrompem em Agosto, sabendo que grande parte dos advogados não tem outra alternativa que não ausentar-se neste mês, estão a notificá-los em massa exactamente nesta altura...
- Não me diga...
- Pois é, e sabe o que acontece?
- O quê?
- Se se faz isto nesta altura é com o fito (anti-democrático, e até anti-humano) de que o direito de defesa precluda enquanto o advogado está a banhos, para haver condenações rápidas, de preceito (ou seja, sem defesa) - e isto é de uma enorme perversidade! O melhor que pode acontecer é não darem sequer tempo aos desgraçados que só podem gozar férias em duas semanas de Agosto para pôr o pé na areia, mas o pior é darem cabo da carreira do profissional (que muitas vezes trabalha sozinho) e do direito do cliente, que podia ser o senhor camionista.
- Pois, é o caso das multas da estrada, não é?
- Pode ser esse caso, sim senhor.
- Mas, se isso for assim, é indecente!
- E depois, senhor camionista, o senhor sai cá para fora, sendo advogado ou magistrado, trabalhando muitas vezes dia e noite (tal como os camionistas), e ainda ouve pessoas dizer o que o senhor e o seu amigo disseram, e dessa maneira.
- Até lhe apetece mandar-me a um lado, não é?
- É que o povo, senhor camionista, não tem razão só porque é pobre e ignorante! O povo, se quiser saber, é como os outros: informa-se! Não fala enraivecido só pelo que “apanhou”, ou lhe pareceu, no noticiário da véspera, senhor camionista.
- Tem razão!
- Então posso beber esta cerveja consigo, e ter a certeza de que o senhor percebe que ninguém quer mal ao senhor Ministro da Justiça, que lá porque ele é teimoso não quer dizer que tenha razão, e que os muitos milhares de advogados e magistrados que andam para aí a ralhar (eu diria, mais de 90%) fazem isso porque o sentem do fundo do coração?
- Pode, sim senhor!
- Percebeu porque é pior para si, para todos e para o país cortar uma coisa que se chama férias que não são férias nenhumas, mas apenas um tempo para trabalhar diferente e fundamental?
- Se percebo!
- Então venha de lá essa cerveja! É que eu nunca pensei que, porque o senhor trabalha sentado e a ouvir música, e bebe umas cervejas nas estações de serviço, é parasita e não faz nada. Não pense isso de nós, também, se fizer o favor, senhor camionista.
- OK!- Já agora, como se chama, senhor camionista?
- Joaquim Silva, camionista, ao seu dispor!
- Idem deste lado, senhor Silva! Joaquim Silva, advogado, ao seu dispor.

(Nota: como eu gostava de me sentar com mais Joaquins e Marias Silva, camionistas, picheleiros, carpinteiros, pedreiros, empregados de balcão, professores, motoristas, médicos, lixeiros, banheiros, etc, etc, para lhes falar olhos nos olhos, e lhes dizer que muita da bacorada que se diz na tasca também os responsabiliza; porque o povo, muitas vezes, só ouve o que quer, e diz sempre o que lhe apetece, sem se importar com quem visa, sem se importar com o país que também é deles!)

Pedro Guilherme-Moreira (ou Joaquim Silva)
2006-08-09 Posted by Picasa

2006-07-10

EU



EU


Antes que feneça,
Vai dizer-lhes que minto,

Antes que mereça,
Vai dizer-lhes que sinto

O mórbido prazer de saber
Que o sentido se reduz

A uma gota de alcaçuz
No meu pobre corpo em pó.

Que mereça o céu por isso,

Tenha Deus dó
Piedade,
Deste cabrão da verdade.

Seja a vida o meu feitiço,

E eu nobre morto só.


Pedro Guilherme-Moreira
10 de Julho de 2006

2006-06-09

O TÚMULO DOS PIRILAMPOS (e os abismos da alma)



Uma dor, uma dor imensa mas plana, serena, como um mar de calmaria, como um lago na alvorada de um dia fresco de Verão.
Um olhar para dentro, um buraco negro, talvez uma galáxia, tantas lágrimas, lágrimas que fizeram um circuito interno, passando pelos olhos, mas nunca os transbordando, como Isao Takahata, o realizador, certamente desejaria.

Estou mesmo a vê-lo, perante o produto acabado, pensando alto. Quem vir este filme há-de experimentar o genuíno sofrimento, há-de fazer justiça ao meu povo e a todos os povos, a cada criança que experimentou ou venha a experimentar o que a minha Setsuko e o meu Seita experimentaram, nestas ou noutras circunstâncias, mas quero que se passe tudo por dentro , sem marcas exteriores, como uma imensa cicatriz interior.”

Senti esse ferida a abrir na carne na noite em que vi o filme.
Senti depois o vazio entrincheirado em mim para sempre, quando acordei.
E decidi que era meu dever tentar traduzir por palavras uma certeza íntima: a quase "obrigação" de ver este filme.

Quem vir este filme chora pouco por fora.
Isao Takahata quis fazer da sua obra, que é prima, um testemunho seco e avassalador do real.
E nem o cliché “caso verídico” serve.
Se é um caso verídico (ver final deste texto *), e Isao nunca o nega, é-o milhões de vezes durante a história da humanidade, foi-o em 1945, quando os "pirilampos" escavaram outros tantos túmulos para enterrar o povo japonês, como o é hoje, neste preciso segundo.
Não há divisão ou subdivisão no Cinema que resista ao absoluto brilhantismo deste filme.

Se dizer “animação” afasta liminarmente o leitor destas palavras, prefiro omiti-lo.
Se há filme em que resulta esmagador o quanto é irrelevante ser ou não animado, é o “Túmulo dos Pirilampos”. Por Excelência.
Por absoluta Excelência.
E, pasme-se, é japonês e nem sequer é de Myazaki, mas de Isao Takahata, um realizador nascido em 1935, e quase ignorado pelo mundo. Até no traço Isao Takahata se distingue do amigo. Isao puxa-nos para a Terra. E abusa de nós, também. Os planos aproximados da menina de quatro anos, Setsuko, são verdadeiramente impressionantes. Está ali a nossa irmã, prima, filha. Está ali um anjo encantado, num momento, e a menina do lado, no outro.
Abusa de nós no final, não no desenlace propriamente dito (que só por si é quase insuportável), mas no "flashback" que faz (levando-nos a um lugar onde não tínhamos estado, ou melhor, a um tempo que não conhecíamos de um lugar que já conhecíamos).
Esse "flashback", como pai que sou, levou-me ao limite do suportável. Depois me dirão se tenho razão. Em fundo, dilacerante, ouve-se Amelita Galli-Cruci (1882-1963, "If not the greatest coloratura soprano of all time..."), em "Home Sweet Home" - é um momento que marca para todo o sempre - está ali a nossa própria substância.

E, terminando em total violação de quaisquer regras jornalísticas, passo a uma breve sinopse. Este filme é, afinal, sobre a fome – nunca vi nenhuma imagem real que me abalasse tanto, e gritasse “fome!”, como as imagens reais dos desenhos de Isao Takahata.
Não percam e, se o virem, façam-no em silêncio, em absoluta calma.
O filme está classificado para maiores de seis.
O meu filho tem quase sete. Intimamente, sinto que lhe devia mostrar o “Túmulo”, tal como não lhe vendo os olhos de cada vez que ele sai à rua. Mas ainda não.
Porque é duro, muito duro.




Pedro Guilherme-Moreira
2006-06-09
* Este filme é fidelíssimo ao livro homónimo de Akiyuki Nosaka, que lhe está na base, e este, por sua vez, é auto-biográfico. Por isso, a resposta é "sim", esta história aconteceu. Mas, por difícil que isso seja de aceitar, foi ainda mais terrível. Para o perceber, há que ler a breve entrevista ao autor, que, com desarmante sinceridade, fala do que realmente se passou. Mas deixo um pedido: a entrevista deve ser lida após o visionamento do filme. A sua leitura prévia pode aniquilar a forma como Isao planeou emocionar-nos. O link para a entrevista é este:
http://www.nausicaa.net/miyazaki/grave/interview.html









2006-03-22

PORTO


PORTO

A ponte é apenas
prostituta
Da oca ideia de ti,

Mas tu
Já não te mostras assim,
Tu és pedaço de sombra
e silêncio adivinhado

Num cimbalino a escaldar.

Tu és
Todos os bairros e ilhas,
A Foz e o Campo Alegre,
O Palácio e a Rotunda,
Todos os mártires da pátria,
O Infante, as Fontaínhas,
Sá da Bandeira, Bonfim,
Antas, Maia e Rio Tinto,
Gondomar e Matosinhos,
ou Vila Nova de Gaia.

Tu és mais meu ao nascer,
Serás mais meu ao morrer.

Mas afogado no Douro,
Agricultando-te esquinas,
Arando a pedra e a sombra,
Cultivando-te o mistério,

Vim da Ribeira para cima,
Perdendo o ar em Mouzinho,
E encostei-me às Cardosas
Para te olhar o focinho,

O tal salão de visitas
Que os Aliados cederam
Ao Universo.

Ficas-me imerso
Na carne,
Ficas perverso
No sangue,
Fervendo o sal do sotaque,

Fazes doer a distância
Quando me afasto de ti
E fico longe do verso

Então, descolo do chão,
Embriago-me em calão,
Palavras largas, ovais,

E em Rabelo, a saudade
Vem ao poema lembrar

Que um “carago” dito assim,
Na ausência da cidade,
Põe um tripeiro a chorar.

Amamos a insultar.

Por isso, não há cicuta
Nem desvio de conduta,

Quando os comboios apitam
E em Campanhã te gritam

“Meu Porto filho da puta!”
Pedro Guilherme-Moreira
2006-03-22

2006-03-17

O PERDÃO (A Natália Correia)

O PERDÃO (a Natália Correia)

Era eu e meio mundo,
Na solidão pensante,
A desdenhar os vôos
Da tua lança infame.

Perdoei-te.

Eram mulheres de homens,
Em amantes ressentidos,
Que mirravam na fronteira
Do teu país, Mátria em si.

Perdoei-te.

E foi um Março qualquer,
Nem por ontem nem por nunca,
Nem por ti nem por ninguém,
Que resolveste partir.

E eu, que andei sem ti
Meia vida e meia morte,
Já me perdi neste passo;
Se não fui, também não vim;

Parei, surrealizei e vi,
Nesse segundo sem ti,
Que noites sem teu trovão
São cem planaltos sem chão,

Sem me empurrares,
Sem me espantares.

Não pode ser, Natália,
Que vais fazer tu aí?
Que vamos nós ser aqui?

Não te perdoo, assim.
Perdoa-me tu,
Por mim.


Pedro Guilherme-Moreira
16 de Março de 1993

2006-03-04

Somos TERRA FRIA (North Country)


Sou-vos sincero:

como advogado, como lutador chato e perfurante pela liberdade, nesta dormência perigosa que tem sido a nossa democracia, fiquei terrivelmente inspirado por este filme, que, ao contrário de “Monstro”, não é apenas palco para a grande grande grande grande Charlize Theron (mulher de armas, que nunca se deixou inebriar pela sua beleza...inebriante) brilhar, mas é também uma excelente fita!


A história é verídica, e faz-nos migrar pela sala em tensão, mas também em plenitude, durante duas horas.


A tensão advém, creio, da familiaridade com aquilo que se passa ainda hoje, à nossa volta, todos os dias, em cada momento, em cada pormenor.


É que a história pode ser catalogada de forma simplista como sendo sobre “a primeira vitória judicial de uma mulher vítima de assédio sexual”, mas nós sabemos que é sobre a liberdade como um todo.


É, acima de tudo, sobre as curvas suaves do despotismo das sombras, esse pequeno monstro moderno que nos vai corroendo de bocadinho em bocadinho, até ao desespero total.


A plenitude advém do extraordinário testemunho de coragem de uma só pessoa, que, em determinado momento, até da família fica isolada.


A plenitude instala-se porque nos convencemos de que também seríamos capazes.


Seríamos?


A resposta tem de ser positiva, pela saúde dos nossos filhos.


Mas é fácil, muito fácil, cair na linha dois, e seguir o outro rumo, o rumo das massas, que é cómodo, cinzento, confortável.


Absolutamente imperdível.


Até porque Charlize.


Pedro Guilherme-Moreira


2006-03-03

ALJUBA ROTA


Confesso que havia anos que planeava deter-me nesta aldeia que nos enforma a essência de ser português.

E foi desta vez que, num regresso de Lisboa, depois do prazer que é rasgar o regresso ao Norte pelos lados de Sintra, num dia perfeito, sempre em busca do mar, até à Ericeira - e ver, grato, que é possível, às portas de Lisboa, a visão bucólica de uma Cheleiros, sozinha, num vale quase de brincar, e pouco depois a surpresa de um Convento de Mafra a renascer (pelo menos por fora); foi desta vez, dizia, que descobri melhor, ainda que pela rama, é certo, Aljubarrota.

Alcobaça não me queria oferecer almoço, e fazia-se tarde. Perguntei na rua, em entrando em Aljubarrota, a metros do Nun'Álvares de pedra, por sítio onde se comesse bem, como faço sempre. Disseram-me que era na Sofia, e foi mesmo. O carro ficou no único sítio possível, junto a um muro de pedra de onde se espreitava erva e ovelhas. E na Sofia comeu-se mesmo bem um Arroz de Bacalhau.

Aljubarrota é um local, apesar de tudo, atípico nesta zona. Tem um estranho perfume alentejano, não sei explicar porquê. Mas sente-se. É bonita, antiga, pequena, acolhedora, luminosa. E as pessoas são envolventes, querem explicar, querem sedimentar-se em nós.

Mas foi também em Aljubarrota que me disseram que não há nada para ver do passado de um povo. Seria possível? Era. Mandaram-me dez quilómetros para a frente, a uma terrinha sobranceira à EN1, São Jorge, onde fica o campo da batalha, o tal que se procurava, e que vai retratado aí em cima.

Nem um único letreiro. Nada. O Museu militar onde se guardam alguns elementos desse momento histórico está em obras, e no local nada nos diz o que ali se passou.

Fica a emoção de ter pisado o campo onde Nun'Álvares comandou um exército minoritário, e venceu os castelhanos com a brilhante táctica militar do quadrado.

Fica a emoção de ter cheirado a lenda de uma certa padeira nos olhos do povo que dela desce.

Mas fica acima de tudo a revolta pelo que não se faz hoje neste país por este país.

E destaco "hoje", porque é logo a seguir a São Jorge que a visão do Mosteiro da Batalha nos diz que nem sempre foi assim.

Segui para Norte sentindo-me roubado, usurpado, e, como sinto tantas vezes (eu e tantos outros), como se de uma comichão eterna se tratasse, Portugal adiado.

Pedro Guilherme-Moreira

2006-02-03

POESIA EXPLICADA?

Desculpem lá, mas hoje escrevi um bocadinho mais denso, não por sofisticação, mas por mero egoísmo. Queria dizer isto mesmo, e desta forma. E aproveitei este momento menos claro para fazer o que há muito prometia a mim próprio: EXPLICAR O POEMA (perde a "piada"? é criminoso? paciência...para mim é a oportunidade de expor a poesia como uma espécie de jogo, de puzzle, de escultura, de composição musical) sem qualquer tipo de pretensão académica ou científica, explicação essa que se segue ao mesmo, que, já agora, é a



DECLARAÇÃO DE UM AMOR NORMAL


Um só fio de água em sublimação,

Um traço de sol caído nas pálpebras,

Um riso de dentro comido entre nós,


Ausências presentes em tardes de chuva,

Lençóis consumidos por meros olhares,

O Sexo esperando que o amor o consinta.


Não quero que a minha verdade lhe minta

Ao querer declarar-lhe a forma de ser

Do amor que aqui trago, sem superlativos;

Mas se na lonjura do céu, fui sabendo


Que o éter é feito da minha mulher,

Escrevi-lhe de lá o soneto invertido

De versos, de espaço, de sempre, e temendo

Um sol distraído, um riso perdido.


Pedro Guilherme-Moreira

2006-02-03


POESIA EXPLICADA:

Não o levem, por favor, à conta de vaidade. Garanto-vos, e porque estou numa de explicar, que é, apenas e só, envolvimento.

Ora, comecemos pela forma atípica: é um soneto invertido porque a concepção de amor do autor também está invertida: começa na actual, acaba na dúvida inicial. O poema pode também ser lido rigorosamente ao contrário, do último para o primeiro verso, sem que o sentido lhe seja totalmente destruído. A ideia era essa, embora, sinceramente, me tenha eximido de prejudicar o alinhamento normal para que o resultado de trás para a frente fosse totalmente coerente.

O poema, construído a onze sílabas métricas por verso (tem uma com dez...toca descobrir qual, e há uma explicação: a palavra que o termina tem a sílaba métrica na antepenúltima sílaba, e o ritmo sobrepôs-se ao rigor) aposta essencialmente na musicalidade e no ritmo, como sempre


Agora vejamos verso a verso, foto e título incluído:


Foto: o sol da tarde cadente, na Praça da Batalha, no Porto, frente ao Teatro Nacional São João, onde se representava a peça "Castro" (amor normal/amor arrebatado/traço de sol...:)

DECLARAÇÃO DE UM AMOR NORMAL

(o amor está nas coisas simples - é um tema recorrente, no meu caso, mas a que volto de quando em vez, porque me parece importante relembrá-lo; repare-se que o poema regride para momentos de arrebatamento, seguindo a lógica exposta inicialmente...veja-se o verso "que o éter é feito da minha mulher");

Um só fio de água em sublimação,

(pretende-se jogar como conceito de sublimação e de sublime; ao mesmo tempo, rasga-se tal conceito com o do sujeito, que é líquido - o fio de água -; ou seja, o amor passa por todos os estádios, mas é essencialmente uma sublimação, a transformação directa de sólido em gasoso, de duas entidades numa só; nova, claro, sem que se eclipem as primitivas)

Um traço de sol caído nas pálpebras,

(uma mera descrição do prazer daqueles momentos em que um sol suave nos inunda os olhos, pretendendo significar a serenidade no amor)


Um riso de dentro comido entre nós,

(a cumplicidade)


Ausências presentes em tardes de chuva,

(a ideia de que o importante é estar por perto, não necessariamente interagindo em permanência; as tardes de chuva foram escolhidas porque dão a ideia de recolhimento em casa;)

Lençóis consumidos por meros olhares,

("lençóis consumidos" é hoje uma expressão vulgar numa descrição de um acto sexual; aqui pretende-se realçar a beleza do contraste na partilha de um leito por amor, calor, olhar, afecto, mesmo que sem sexo;)


O Sexo esperando que o amor o consinta.

(a minha frase favorita do poema:), e peço desde já perdão pela presunção; diz quase tudo. O Sexo não tem agenda, mínimos ou máximos impostos, mas evolui serenamente ao sabor do amor, não importando se foi ontem, se será agora ou daqui a um mês; essa é a realidade de quem se ama; sexo não é nem nunca foi denominador;)


Não quero que a minha verdade lhe minta

Ao querer declarar-lhe a forma de ser

Do amor que aqui trago, sem superlativos;

(estes três versos devem ser lidos de um trago. Tradução: "não quero que ao dizer à minha mulher a forma como a amo, a tal forma normal, ela daí depreenda vulgaridade ou menos sentimento, bem pelo contrário";)


Mas se na lonjura do céu, fui sabendo

Que o éter é feito da minha mulher,

(aqui está o movimento final, tal como numa composição musical; primeiro a antítese: a lonjura do céu e a proximidade da mulher; o éter que se faz de mulher, e de onde é escrito o soneto invertido; agora o poema, porque em soneto invertido, vai esvair-se numa dúvida, como se vai ver; estes dois versos são os versos do amor arrebatado . Afinal estão cá com uma dupla função: a função temporal, de colocar este conceito de amor no passado, e a função de desmascarar o próprio poeta, que canta um conceito e acaba por se render a outro:). Também queria realçar a presença da mulher, pouco comum na poesia, que tenta ocultar as mulheres dos maridos, e os maridos das mulheres, ficando com as musas, as paixões, as amantes, as indefinições;)

Escrevi-lhe de lá o soneto invertido

De versos, de espaço, de sempre, e temendo

Um sol distraído, um riso perdido.

(o soneto está invertido de tudo, como explicado, de versos, de espaço, de sempre - ou seja, de tempo - , e termina com a dúvida inicial de qualquer amor, quando não nos deixamos iluminar pelo traço de sol, quando deixámos cair o riso dela na rua, por excesso de hesitação; claro que este final em suspenso também tem dupla função; a que está aqui em cima, e a de conferir uma saudável incerteza a tudo o que se diz e sabe do amor que se tem; a preocupação permanente, para que tudo não caia numa rotina sem sentido, a construção e desconstrução diária):

E pronto, fiz, está feito.
Poesia explicada.

Boa ou má, já está.

Pedro Guilherme-Moreira

2006-02-03

2006-01-03

INSUPORTÁVEL



É sempre assim.

Como ele é parte de mim
E à carne regressou
No último dia de aulas,

E ficou perto demais,
E o seu cheiro também
E foram vezes maiores
Que ficámos abraçados
Calados,

Dia ante dia,

As cabeças encostadas,
Eu a cheirar-lhe o cabelo
Sem dizer nada, e ele,
Às vezes quieto,
Às vezes liberto,
Porque lhe cansa
O afecto,

A perguntar Papá,
Porquê o quê?
Quando e como?
És infinito?
Vou ser maior
Do que tu?

E eu afasto-me
E vejo-lhe os olhos doces
Por trás dos óculos,
Deixo-o no portão da escola,
Aos pés da ausência,
Fora de mim

E o corpo pequenino
Na Lonjura

E choro sempre
Lágrimas grossas
Mas surdas
Sem soluços
Ou lamentos,

E digo alto que o amor
É

Insuportável.


Pedro Guilherme-Moreira
2006-01-02