2005-11-24

O BAILADO e os miúdos e o Porto



Acontece que esta é a fotografia que se me impôs com uma beleza insuportável, e eu,
que só sei tratar essas coisas que nos violentam com poesia, pelo menos aos pedaços,
fiquei calado.

E olhei.

Não importa que tenha sido eu a carregar no botão que desencadeia o obturador, até porque a máquina era digital e demasiado automática para que eu me possa gabar do que quer que seja.

É verdade que eu esperava que o Porto, lá atrás, ficasse quieto, não tanto pela natureza das coisas, mas porque já era de noite, e de noite até as coisas esperam. E posam.

Já os miúdos do parque infantil, quase paredes meias com os rabelos, esperava que não reparassem que o Porto tinha parado, do lado de lá, porque se reparassem podiam eles parar, e lá se ia o efeito sublime do contraste entre o movimento sereno, redondo, e a quietude tumultuosa, de bela.

Ora, o espanto que esmaga acontece porque não é suposto uma fotografia bailar.

E esta dança, porque o baloiço em que gira o puto do primeiro plano, testemunha-se a rodar, a rodar, a rodar, enquanto ele atira a cabeça para trás, quase como se adivinhase o êxtase da imagem que eu estava a meter num pequeno rectângulo.

Pois meti, e não sei como é que ela foi sair de lá, mas está aqui, para todos, e eu, que a vi sair de perto das mãos, continuo a olhar e a dizer que me supera.

Me trepassa.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-11-24

O FORNO DO REI e a Rainha Albertina



Este e o texto de cima encerram um mandamento episódico nada sensato: "Não escreverás poesia hoje, nem que te apeteça à razão de um arrepio por cada verso que inibas!"

Ora, está visto:
Falar do Restaurante "Forno do Rei", em si, se visto a seco, sem gente, apenas pintalgado de mesas, cadeiras, tachos e decoração...bom, é já sensivelmente insuportável fazer isso sem despejar tudo para um poema.

Agora, se lá pusermos a sua alma, a Rainha Senhora Dona Albertina, majestade naqueles divinos parcos metros quadrados, então lá volta o tremelique da poesia, e, senhores, fica descomunal o sacrifício de não lhes dedicar um verso. Aos dois.

Tudo pequenino, e, tenho de o dizer, por mais que a palavra seja de muito uso, aconchegante.

É que aconchegante é mesmo, sem tirar nem por, só assim, e deve ser essa a principal razão dos duzentos quilómetros que se faz alegremente só para lá ir jantar. Isto, porque, confesso, já lá fui almoçar, mas a luz do dia não combina com o sentimento muito particular que levo do Forno do Rei.

No bolso, onde é costume trazer todos os meus sentimentos.

Fica em Vouzela, terra bonita, e deve lá chegar-se em dia de frio cortante, pode ter chuva, entrar gelado, pode ser molhado, e ser acolhido pela fada, perdão rainha, Senhora Dona Albertina, que enche o espaço de si, e nós da sua alma, e a sua alma de nós.

E o Forno do Rei é aquilo, aquele movimento, aquele som calado da felicidade de um momento que não se quer que passe muito depressa, aquela senhora enorme, que não haja dúvidas que o é aos olhos todos, ainda que a raça seja, claro, a da sardinha portuguesa.

Mas sardinha é coisa que lá não há, porque é terra de Lafões, da vitela que sabe sempre pela vida, e do vinho da casa que é Dão, e vem num jarrinho caseiro, e que o condutor não bebe, mas experimenta muito.

Seria crime deixar o Forno da nossa rainha sem deitar o dente ao Bacalhau com Natas, que é prato da moda urbana, mas ali é de casa, de aldeia, dos recantos, das pedras, dos arcos da linha antiga.

E olhar por momentos para aquela Senhora, que vai e vem, e entra dentro de nós, e fica-se-nos no peito, e por ela vale a pena lá ir por todos os anos, pelas estações que vão passando, pelos míscaros, e passá-lo aos filhos e aos netos.

Afinal, está ali um sítio daqueles que nunca queremos incluir nas memórias nostálgicas.

Queremos que exista, que nunca deixe de existir, e pronto!

Ah, e é segredo, porque queremos manter o nosso cativo por ali.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-11-23

2005-11-07

MERCEARIA



MERCEARIA

Fui medir o amor,

E a primeira parcela

Foi de bruços para o céu.

Era um palmo entre nuvens,

Era um palmo entre nós,


Entre os olhos e os olhos,

Entre a boca e a boca,


Mas à noite vi estrelas

Sobrepostas ou perto

De ficarem sem longe;


Ora vistas as peles

Era a mesma medida,

E pensando melhor,

De manhã, mas mais tarde,

Foi-se o palmo e ficou

A distância de um beijo

Que era nada, afinal,

Como o longe das estrelas.


Mas porém noutro ponto

Volta o palmo medido

Entre a lua e o sorriso

De qualquer elemento.


Ora bom, vendo bem,

Se pesarmos o amor,

as estrelas, as luas,

Ou até o tal céu

E as nuvens por junto,

Fica a mesma leveza,

Que outra vez vai por nada

Nas parcelas dos corpos.


Fui medir o amor,

E o senhor merceeiro

Disse “levas fiado,

Mas não voltes por cá

Sem o tempo pesado”


Eu fiquei-me na minha,

Que amor é sem tempo,

É sem espaço, sem peso,

Meça-o lá cada um


Para dentro de si.


Pedro Guilherme-Moreira

2005-11-05