2005-06-29

São Pedro da Póvoa 2


Ainda o São Pedro molhado de ontem, na Póvoa de Varzim. As fotografias em maior formato deste blogue são todas da autoria do ignorante-mor PG-M:)

São Pedro da Póvoa 1


O São Pedro é hoje, mas a festança é de véspera, como sempre.

A noite de ontem, na Póvoa, foi molhada, mas o fim da tarde, pleno de ameaça, deu-nos esta beleza que agora partilho convosco, sem nunca esquecer que é ele, o santo que tem as chaves, o responsável por estes traços. PG-M

2005-06-27


Porto Laser, da Ponte do Infante, nem Gaia nem Porto, 23, 23h

General Torres, Gaia, 23, 23:30h - O povo e o Porto

A SUBLIMAÇÃO DO MARTELO (e do São João!)



Digo-vos eu que o do Porto é do mundo todo.

São seis e meia da tarde quando acontece o primeiro contacto.

O carrancudo dono da loja, aos Poveiros, está ostensivamente à porta da mesma a atirar a sua carranca aos que passam.

Noutro dia qualquer, pouco haveria a fazer.

Coleccionar caras destas o dia inteiro faz-nos suplicar pelo momento de paz do cimbalino, em que nos rimos com quem estiver à mão, seja no Majestic (que é a finesse do “carago”), seja no Piolho, no Aviz, no Estrela, eu sei lá!

Mas é noite de São João e estamos no Porto.

Alço o martelo de plástico e zás! Em cheio no cabeludo do couro – que podia não ser mulher, mas garanto-vos que era couro.

Costumo dizer que é preciso alguma coragem para começar a bater antes do jantar.

A essa hora, o povo ainda não está psicologicamente preparado para levar.

No entanto, é sem dúvida o momento mais gratificante para agredir, porque as reacções, além de plurais (o que é menos verdade noite dentro), são autênticas e muitas vezes perturbantes.

A essa hora, raro é o riso líquido, quase natural, que a madrugada de São João nos trará. Uma promessa de libertação, uma entrega ao outro, uma comunicação que se agradece, mesmo quando levamos com a parte dura ou mal cheirosa.

Antes das oito da noite, o povo ainda sofre, o povo ainda congela o coração, o povo ainda se sente agredido pelo filho da puta lá do trabalho.

Uma boa martelada a essa hora é, pois, um desafio filosófico tremendo.

Os que se lembram, no momento, que é dia de apanhar, ou ficam impávidos sobressaltados, ou rabujam entre dentes. Os que não se lembram, esboçam um milissegundo de indignação, para depois abrirem o primeiro grande sorriso da noite – e esse já só sai ao raiar do sol de 24. Se sair. Também se leva com um ou dois insultos tripeiros, principalmente de nativos típicos, o que só fortalece a pele.

Só tenho uma crítica ao tempo – hoje a janela de oportunidade do martelanço vem com a Lua de 23 e vai-se com o Sol de 24, e eu lembro-me bem, há coisa de vinte anos, de martelar até à Lua seguinte!

E não me agrada nada a sublimação precoce do martelo, que de nada serve no seu estado gasoso de ausência.

Costumo dizer, à laia de conselho (mas que na prática é uma vontade, quase um desespero, de que toda a gente –principalmente a gente urbana- possa partilhar connosco esta incrível noite), que liquidificar-se no São João do Porto pode ser um momento de zénite na vida de qualquer ser humano.

Quebram-se barreiras impensáveis, e a sequência desse sublime estilhaçar é intraduzível em palavras.

Decididamente, faz-se amor platónico toda a noite, abraça-se o próximo e o distante.

É obrigatório experimentar.

Imagine que um desconhecido o/a martelava na rua, e que isso era legítimo.

Imagine o que isso não fazia à sua armadura brilhante e à sua nudez opaca.

Agora imagine mil desconhecidos a fazer o mesmo.

Agora mais ainda.

É o São João do Porto:)!

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Este recanto, a que se chamou Ignorância, nasceu numa noite de São João, em 2003, pelo que, com este post, celebra serenamente os dois aninhos. Siga, então, a rusga:)

2005-06-20

verso branco explicando A ALMA GRANÍTICA E PARDACENTA DE UM TRIPEIRO


A nossa luz é branca, também, podia até dizer luminosa, mas não em oceano aberto, como essa de Lisboa que eu também e tão bem conheço. É luz que percorre vielas e é capaz de repousar numa sombra muito escura, e ficar por lá, negra mas plena de brilho.

A luz de Lisboa, mesmo a que vai à rua estreita, é explosiva, e a sombra nunca é quieta, mas cheia de fugas e sorrisos.

O tripeiro fica-se, invisível, em torno da alma.

A sua alma é granítica porque é fresca como a pedra que lhe dá nome, também porque é forte e nua como ela, e porque o tripeiro gosta de se encostar à matéria de que a sua cidade é feita, e que acaba por fazê-lo a ele. Assim será o alfacinha, mas calcário, claro, mais doce, talvez fugaz, esboroando-se alegremente pela vida, permanecendo menos um pouco, mas permanecendo.

Uma alma que é obviamente pardacenta, mas por puro prazer. O Porto gosta de começar os dias em neblina, fresco, discreto, sabendo que tem Verões como os outros, mas que chegam mais tarde, lá pelo fim da manhã. E no Inverno, se na impressão das gentes do sul rima muito com chuva, a verdade é que é mais preparação espiritual que chuva real. E, se chove mesmo, faz parte. São sorrisos mais pesados, mais húmidos, mais escondidos, mas são sorrisos.

E o tripeiro, o verdadeiro tripeiro, não se afirma por contraponto.

Exalta-se, é verdade, como exalta a sua cidade, mas nunca deseja menos para os outros.

O verdadeiro tripeiro, quando desce à capital, leva a sua luz, a sua alma granítica e pardacenta, e funde-se no oceano luminoso, no calcário, na leveza, fala devagar, saboreia as palavras, mesmo que sejam dos outros. Um pulo alonga-se num pincho. E Portugal fica maior.

Porque o tripeiro que leva as pontes de Eiffel nas mãos, o Douro no olhar, o granito na alma, e desacelera, na fala e no tempo, e fica na sombra, e mostra o seu fresco de cores e cinzas, não se afirma contra ninguém, mas pode, porque às vezes também é preciso, lembrar que Portugal afinal é maior do que se pensa, é por aí acima, é por aí abaixo.

As pontes são para passar.