2005-03-23

RURALIDADES

RURALIDADES

A tarde espreguiça-se longa e calmamente, como se fora eu pela manhã.

Já se vem para a rua. Vestem-se os bancos de escuro e olhares distantes.

Paira no ar um cheiro de memória: esteva cozida ao sol do alentejo. Uma aragem breve traz o aroma do pão acabado de cozer, no forno que é todos e de ninguém. Fica ali entre caminhos com as casas em redor. Não pára todo o dia e toda a noite. Nunca percebi que relógio dizia as horas a estas almas para fazer o pão.

"Pão quente: muito na mão, pouco no ventre". Com isto amainavam-me a vontade de o devorar logo ali, entre bufadelas e malabarismos. Mestria era fazer o pão para a semana e bater certo com a vez de voltar a ir ao forno. Nunca às mesmas horas.

Era um momento mágico o reacender do forno. A esteva amontoada ao lado pedia meças, imponente, àquele monumento comunitário.

- Vó, faz costas!

- Está bem, guloso! Eu faço.

Uma "costa" era como um papo-seco, mas doce, mais comprido e mais baixinho. Levava azeite e canela. As extremidades eram maminhas por onde começava e terminava o prazer dos dias do pão diferente.

O luar de Agosto poupa o petróleo dos candeeiros da minha aldeia. Abrem-se agora as portas. Espera-se, em vão, que o calor saia e entre nas casas o fresco que não existe.

Dormita-se nos bancos. Por todo o lado há ralos, cigarras e grilos ao despique. Mas ninguém ouve.

- Vó-ó, posso dormir lá fora?

- Não. Vem aí o bicho!

- Ah! Qué vê o bicho!

- !

Zé Manel Ruas

2005-03-22

A AUDIÇÃO


"Guilherme Moreira. Cinco Anos. Toca ao piano "March of Gnomes", de Thompson."

Foi hoje a primeira noite em que o palco o deixou sozinho, cru.

Até ali, desde o anjo que personificara aos três anos (nessa primeira vez, chorei copiosamente no escuro da sala, por trás do fotómetro da Reflex, não sei se pela beleza encantada do meu anjo, se pelo insuportável apelo do sangue, da forma da minha forma), havia sempre alguém por perto.

Residente habitual da lua, o Guilherme supera-se sempre em palco, onde aparece concentrado e virtuoso.

Tem ares de estrela.

Nesta noite da sua primeira audição individual de piano, haveria de falhar uma só nota, retomada logo a seguir com competência, e sem que ninguém notasse.

Ninguém, excepto o pai, que lhe recebeu o sorriso sem mesura, nesse curto segundo em que lhe pressentiu a primeira solidão, a derivar para a rosca do mesmo ninho de que se afasta a cada dia.

Tinha entrado determinado pelo centro da plateia, tocando o meu ombro e acendendo sorrisos que ainda não estavam sozinhos nem infinitos.

Ao vê-lo no palco, sentado no extremo de um negro e belíssimo piano de cauda, isolei-o no centro do mundo, um pequeno círculo iluminado, de margens apagadas.

A peça era a quatro mãos.
O acompanhamento era da professora Anabela, o solo do Guilherme.

Dó Ré Dó Si Dóóó. Dóóó.
Dó Ré Dó Si Dóóó. Dóóó.

Foram dois minutos que me parceram rasgos lentos da eternidade.

Quando terminou, não pude, nunca posso, banhar o meu orgulho nos aplausos, porque estava,estou sempre, em final de colapso.

Recebi-o com a mãe num longo abraço, sem saber onde espalhar o orgulho.

O Guilherme foi o primeiro da noite, o mais novo de verdadeiros anjos que iam até aos vinte e picos anos.

Neste registo mnemónico, quero deixar riscados os nomes de outras elevadas emoções, que o futuro pode um dia confirmar, e que o meu presente agradece.

Não chegava a dez anos a Eduarda Machado, que interpretou de forma absolutamete arrasadora a Valsa op.70 numero 2, de Chopin.

Já levava vinte e tal o caso sério da noite, a Carla Quelhas, pianista inteira, que navegou, esvoaçou, eu sei lá, "Um Suspiro", de Liszt, peça tecnicamente impossível de tocar sem um pedaço de coração, e isto diz quem não sabe.

Ouvir tocar assim piano emociona. Lágrimas de dentro. E foi bom lembrar como não há como ouvi-lo ao vivo.

Pelo meio, alguns mecânicos de músicas, que desempenham uma rotina em que nada se toca, ficando-me a felicidade de um Guilherme que, mesmo que nunca seja um pianista, trata o piano com cristais de açúcar, doçura que é dele, de uma ponta à outra.

Para quem não é de Gaia, a terrinha onde tudo isto aconteceu deve soar a encanto: Vilar do Paraíso.

Pior ainda: Academia de Vilar do Paraíso. Que eu promoveria com a frase "Formamos Anjos!"

Formam mesmo.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-03-17

CORRENDO PARA SUL QUANDO CHOVE


Quando ontem saí à rua para correr, sorri ao vê-la caindo de sul.

As pessoas costumam apenas tentar medir o meu grau de loucura por sair debaixo de temporais.

Não as costumo ouvir verbalizar a pergunta que lhes leio nos olhos: “E se...?”

E a questão é mesmo essa. Pode bem dizer-se que não se gosta ou não se quer, mas não se sabe se se gosta ou se se quer sem elemento de comparação.

Não gosto de correr, e apenas o faço porque 1) Consigo; 2) é barato; 3) é prático; 4) Não tenho outra forma de perder, em exercício, apenas meia-hora no meio de um dia de trabalho;

Mas, confesso, adoro correr para Sul quando chove.

Correr para Sul em Agosto, quando se instalou o terrível tempo que estragou as férias à maioria dos portugueses, teve outro sabor. O sabor da surpresa, de ver famílias inteiras abrigadas nas paredes norte dos bares de praia, do ar quente contra a chuva violenta, e até do risco dos detritos esvoaçantes perante ventos quase ciclónicos.

Lembro-me ainda do grato espectáculo da mini-tempestade de areia, uma espécie de manto suspenso à altura dos joelhos, que, apesar de magoar, me deu uma sensação onírica. Agradeci o privilégio de um espectáculo nunca visto. E os curiosos despojos da corrida – as pernas forradas a areia.

Ter corrido para Sul e a chover em Março, em plena seca, impôs-me Outono.
Enquanto percorria, com a cadência habitual, o passadiço de madeira, junto ao Senhor da Pedra, invadiram-me odores impróprios da estação que ora entra.

A terra molhou-se depois de meses sem água, tal como no Verão, e o cheiro a terra molhada é o mesmo dos primeiros dias de escola.
Fui acompanhado, nos últimos quilómetros, de múltiplas e empolgantes memórias de primeiros dias de escola.

Os odores são lembranças vivas e violentas.

(Lembro os primeiros odores do Verão, que o vento leste traz, e a forma como me gritam, dez anos depois, os exames de Coimbra - uma sensação desagradável que me agrada pelo contraste com a realidade, que contudo forçam com teimosia;)

De resto, em Março não há grandes surpresas, porque, à semana, mesmo com o tempo perfeito, as pessoas concentram-se nas esplanadas (quase o único ramo comercial que tem tido um ano excepcional), e deixam a praia em paz.

Essa, a praia de Inverno, é a minha praia.

Ontem, quando corri para sul, e era Março, e chovia, fi-lo numa solidão arrebatadora

e com um mar furibundo, que temos de respeitar a cada segundo, ou a espuma traiçoeira tratará da nossa ausência.

Pedro Guilherme-Moreira
2003-03-21

Perspectivas

Já hão-de ter reparado que eu só cá venho falar de futebol quando o FC Porto está na mó de baixo, se exceptuarmos a celebração do caneco da Liga dos campeões.

E faço-o por uma questão de perspectiva, já que o FC Porto, os portistas, e, numa injusta confusão, os portuenses, são sempre maltratados por causa das insignificantes derrotas de uma equipa de futebol.

Hoje, excepcionalmente, apetece-me ser prosaico e irónico.

Dei hoje comigo a cometer a asneira de ouvir comentários futebolísticos, e todos são unânimes em dizer que o FCP vai perder tudo este ano.

Ora, "tudo" é a Liga dos Campeões (que todos os outros clubes portugueses perderam sempre, neste formato dos ricos), a Taça de Portugal, a Supertaça Europeia (que todos os outros clubes portugueses perderam sempre), e, garantem já, o Campeonato Nacional, que querem já entregue com 24 pontos em disputa.

OK. Uma desgraça.

Este ano é um deserto de sucessos, pois realmente ser CAMPEãO MUNDIAL e vencedor da Supertaça Nacional é nada...

Não ganhar nada é isto.

Esperemos que à desgraça do futebol português (vice-campeão europeu e com o melhor treinador do mundo) se some a vitória do Sporting, em casa, na Taça UEFA, algo que eu considero o actual maior desígnio futebolístico nacional - e aqui não há ironia.

Resta concluir dizendo que a maior vitória do ano seria mais uma manutenção da Académica.

Para quem, reitero e repito, é portista e desportista, isto é realmente dramático.

Ah, e já agora, tambem sem ironia, parabéns ao Sporting, pela sua natural e justa vitória sobre o meu FCP, que, jogando fraco, me honrou pela entrega e abnegação de uma disputa psicologicamente muito dura - e eu, sinceramente, importo-me com esse tipo de comportamentos, e perco tempo com estas derrotas, não tirando prazer nem tempo nenhum de e para vitórias arrogantes e sobranceiras.

A tal equipa já enterrada, que, mesmo assim, lá juntou este ano, até ver, .mais dois míseros troféus à vitrine do Dragão, esse estádio malandro e embruxado:)))., onde o Gil Vicente vai já para a semana ganhar por seis a um, para gáudio de todos os que eregem a sua alegria sobre a menor graça dos outros.

Ora toma..

Perspectivas...

...o respeitinho é muito bonito...

Pedro Guilherme-Moreira
Nascido na Freguesia da Sé, PORTO, com um orgulho desmedido que nunca esmorecerá, outrora habitante nas Antas, Porto, e atleta da secção de voleibol do mesmo clube ora enterrado, onde nunca ganhou nada a nível pessoal, a não ser uma descida para a segunda divisão, no ano em que a saudosa secção de voleibol do FCP terminou;

2005-03-02


REJUDICETRATO


“Senhor Doutor Zé Miguel:

Quando eu quis esculpir-lhe o olhar

Desta palavra-cinzel,

Pediu-me para deixar


Os tiques da eternidade

Num papel amarrotado,

Que leva mais da verdade

Do que um poema calado.


Disse está bem, mas peguei

Naquela foto tremenda

Que o tem na sombra, bem sei,


E fiz-lhe aí uma emenda.

Deixo ao tempo a luz e a cor

De uma Bastonário Maior.”



Pedro Guilherme-Moreira

2005-02-26