2005-02-18

IMPROVÁVEL



É improvável que no Portugal de Fevereiro alguém seja visto na praia, na areia, correndo descalço pela espuma,

até porque correr sobre a areia é malandro para os ossos - diz o povo.

Considero mesmo praticamente impossível que alguém sujeite o seu corpo aquecido de Inverno à agressão gelada da água do mar.

É absolutamente certo que as pessoas se esquecem da sensação de veludo dos grãos a abraçar a nudez dos pés.

Sem Primavera, não existe nestes lados do mar que recebe o Douro uma perspectiva do horizonte litoral junto ao chão, pelo que não é sequer aceitável ver gente deitada no areal.

No Inverno o Sol é raro e frio.

No entanto, eu hoje fiz tudo isso.

Interrompi a minha corrida a meio, e, em pleno passadiço de madeira, sobranceiro às dunas do Senhor da Pedra, tirei as sapatilhas, depois as meias, e corri o resto junto ao sal imenso.

Não me iria lembrar por muitos meses da sensação da areia a ceder em veludo aos pés.

E, se é certo que, mesmo no fim da aventura, se desdobrou a nortada, pondo-se de pé, e que ela no Inverno é inclemente - como não o é aqui a chuva de sul, por mais violenta que venha - , não é menos certo que o momento de suprema irritação no Verão,

precisamente aquele que me faz evitar a praia,

que é sentar-me a abofetar as minhas pernas e pés, para que areia salte fora de novo,

neste dia perfeito de Inverno, com o sol quente e ante o vento quieto, depois da corrida do sal, e ali sentado na areia em cima do Mar,

foi sublime.

Ainda bem que é improvável.

Pedro Guilherme-Moreira

2005-02-12

HOJE O ZÉ MANEL PERDEU UM AMIGO


Há quem lide com a dor fazendo do silêncio o seu consolo.

Há quem viva sentindo-se melhor abrindo o livro onde as letras são todas a negro bold de uma "Word" que é de solidão - solidão vizinha da loucura. Arrepia pensar que não posso dizer ao meu amigo o presente que costumava usar.

Direi no futuro, com o passado, que me deixa saudades redobradas os momentos que vivemos e nos rimos esperando viver eternamente como os heróis que não morrem nunca.

Apetece-me chorar e na revolta só me vem à memória esta canção que não consigo cantar:

"Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado la risa, y me ha dado el llanto.
Así yo distingo dicha de quebranto,
Los dos materiales que forman mi canto,
Y el canto de ustedes que es el mismo canto."

José Manuel Ruas
2005-02-11

2005-02-05

Canivete...


Escrever é para mim como andar numa floresta de canivete em punho, marcando as ideias nas árvores.

Acontece que, um dia, há alguém que, superando a indiferença, escava na madeira mais um pouco. E isso é para mim grato, muito grato.

Arrebatamento

2005-02-03

A CAMPA DO MEU AVÔ

...aos cemitérios chamo "morada aparente"; são ponto de encontro, mas há dias arrebatadores; foi num desses dias que fui obrigado a escrever
A CAMPA DO MEU AVÔ

A campa do meu avô é branca.
Mesmo que chova é branca.

Mesmo que eu chegue atrasado,
Mesmo que o olhar me poise
Na esquina da laje dele

A alma do meu avô é branca.

Não tem letras,
Não tem nada
Que lhe perturbe a brancura.

E neste dia do ano
Senta-se ao lado do anjo
No seu fatinho cinzento,
Arrima em si o sorriso
Que lhe traz um beijo meu,
E, aconchegando o pulôver,
eis que o dinheiro aparece
Lá tira a nota de dez,
Não tendo outra ao morrer,
Passa-ma quase em segredo,
E fica ali definida
a alma do meu avô,
que é branca.
“Li o poema, rapaz,
Estava no bolso,
E a avó?”
“A avó está mais luminosa,
Já se ri, custou-lhe muito,
Perdeu a casa e a vida
De si, pedaço dela
Está aqui.”
A campa do meu avô é branca,
Como esta folha, afinal,
E nos dias de visita,
Que me confundem saudade,
Minh’alma é branca também.


Pedro Guilherme-Moreira
3 de Fevereiro de 2005

2005-02-01

COMER AUSCHWITZ

Como em relação a todos os temas históricos cuja invocação mediática se repete ciclicamente, ouço muitas vezes muita gente muito enfadada muito...

E tudo é muito em Auschwitz.

Aceitei para mim a obrigação de não ler, não observar, não empatizar... ...

mas sim engolir, comer, mastigar, digerir cada segundo, cada momento,
cada história que nos vem do tempo e se chama Auschwitz ou outra coisa parecida.

Assim, de cor funda, cinzenta sem meio tom.

Lembrar que a lei, assim, não é para cumprir, nem a ordem para acatar.

Projecto muitas vezes – com um profundo respeito pelo inferno propriamente dito – o que teria sido o meu inferno em Auschwitz.

Na teoria confortável que é distante da matéria como o longe no espaço,
asseguro ao meu próximo que não morreria num quarto de gás,

seria certamente seleccionado para trabalhar,

mas morreria breve com uma bala na cabeça, pois não é meu timbre vergar-me, nem quando um homem vergar-se quer dizer decência e amor ao futuro, a quem dele precisará.

Seria a forma de um corpo numa vala comum,
uma foto tremenda de rasgar lágrimas a pedras.

Depois lembro-me, e este é o exercício de quem se obriga a digerir Auschwitz a cada oportunidade, lembro-me, lembro-me.

Do meu filho,
Da minha mulher,
Dos meus.

Lembro-me de ter chegado a pensar sem decência que foram os cobardes que se salvaram, porque os livres não passariam mais que minutos dobrados.

E anseio a lição daquele herói que dobrou e dobrou e dobrou e chegou ao fim vivendo sobre
gente mutante como todos dessa sorte destruído,
mas passando o abraço aos dele.

Gente sobre vivendo.
Gente que nos lembra que é possível repetir Auschwitz.

Hoje anda aí num café qualquer o teórico de cada genocídio.
Há um momento em que o tipo passa com brilho a porta do poder.

Cheira a lavanda, é bonito.
E tu, o que comes Auschwitz,
E lembras e lembras,
Primeiro lambes as feridas do aborto,
fazes do tipo palhaço, ris-te do circo,
Percebes a língua, desmontas o logro.

Por um triz, salvaste seis milhões

E é assim, num segundo, em cada dia ou minuto ou curva da caixa torácica de um homem, Que comemos para lembrar.

Pedro Guilherme-Moreira 2005-01-27