2005-01-17

O INFIM (A Miguell Torga)

O INFIM

Foi num dia azul, cinzento e vermelho,
que o Belo topou, descendo em desdém,
às curvas já cem de um caminho velho,
um homem que leu pensando ninguém;

Lançou-lhe uma luz sobre o casario,
e o homem parou, por sobre um sorriso,
cheirando a visão, dos lados do rio;
“Poemas remando os barcos do siso,

O guarda desguarda a ausência do posto,
o monte está nu do andar do pastor,
e até o tal Sol tem sombras no rosto;”

E o sino falou calado o clamor:
“Que um cipreste seu de seiva nos crive.”
Nem Torga morreu, nem a morte o vive.
Pedro Guilherme-Moreira
17 de Janeiro de 1995