2005-12-23

SUSANA E O NATAL



Sentei-me num banco por dentro de tudo
Para escrever Susana.

Tentara-o por ela muitas vezes
Em meses lentos e tristes,
Mas o medo

despejara-me as palavras em ravinas
de pretéritos.

Susana É,
Pois é.

Trouxe tudo do asfalto,
Da cama suspensa em si
no hospital da alma.

Outros não trazem, ficam.
Outros não voltam, deixam.

Susana está.

Ontem mesmo,
No café da marginal,
Susana não estava
Ausente.

Ontem mesmo,
Do café da marginal,
Sete morriam na rua
Porque o queriam sem saber,
E outros sete matavam
No perfume-perdição
De um chassis e algumas rodas,
De um tapete sem barreiras
Onde um Rei universal
Nos oferece a promoção
Do sangue de Portugal.

Dos viúvos e dos órfãos,
Dos amigos amputados
Deste país em bocados.

Mas Susana entrou perfeita,
Toda suspensa de luz.

Era do Anjo do rio
Que estava nela vestido.

Foi a prenda que pedi:
Ver Susana e o Natal,
Ao jantar, um dia destes,

No café da marginal.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-10-23

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