2005-11-24

O FORNO DO REI e a Rainha Albertina



Este e o texto de cima encerram um mandamento episódico nada sensato: "Não escreverás poesia hoje, nem que te apeteça à razão de um arrepio por cada verso que inibas!"

Ora, está visto:
Falar do Restaurante "Forno do Rei", em si, se visto a seco, sem gente, apenas pintalgado de mesas, cadeiras, tachos e decoração...bom, é já sensivelmente insuportável fazer isso sem despejar tudo para um poema.

Agora, se lá pusermos a sua alma, a Rainha Senhora Dona Albertina, majestade naqueles divinos parcos metros quadrados, então lá volta o tremelique da poesia, e, senhores, fica descomunal o sacrifício de não lhes dedicar um verso. Aos dois.

Tudo pequenino, e, tenho de o dizer, por mais que a palavra seja de muito uso, aconchegante.

É que aconchegante é mesmo, sem tirar nem por, só assim, e deve ser essa a principal razão dos duzentos quilómetros que se faz alegremente só para lá ir jantar. Isto, porque, confesso, já lá fui almoçar, mas a luz do dia não combina com o sentimento muito particular que levo do Forno do Rei.

No bolso, onde é costume trazer todos os meus sentimentos.

Fica em Vouzela, terra bonita, e deve lá chegar-se em dia de frio cortante, pode ter chuva, entrar gelado, pode ser molhado, e ser acolhido pela fada, perdão rainha, Senhora Dona Albertina, que enche o espaço de si, e nós da sua alma, e a sua alma de nós.

E o Forno do Rei é aquilo, aquele movimento, aquele som calado da felicidade de um momento que não se quer que passe muito depressa, aquela senhora enorme, que não haja dúvidas que o é aos olhos todos, ainda que a raça seja, claro, a da sardinha portuguesa.

Mas sardinha é coisa que lá não há, porque é terra de Lafões, da vitela que sabe sempre pela vida, e do vinho da casa que é Dão, e vem num jarrinho caseiro, e que o condutor não bebe, mas experimenta muito.

Seria crime deixar o Forno da nossa rainha sem deitar o dente ao Bacalhau com Natas, que é prato da moda urbana, mas ali é de casa, de aldeia, dos recantos, das pedras, dos arcos da linha antiga.

E olhar por momentos para aquela Senhora, que vai e vem, e entra dentro de nós, e fica-se-nos no peito, e por ela vale a pena lá ir por todos os anos, pelas estações que vão passando, pelos míscaros, e passá-lo aos filhos e aos netos.

Afinal, está ali um sítio daqueles que nunca queremos incluir nas memórias nostálgicas.

Queremos que exista, que nunca deixe de existir, e pronto!

Ah, e é segredo, porque queremos manter o nosso cativo por ali.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-11-23

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