2005-11-24

O BAILADO e os miúdos e o Porto



Acontece que esta é a fotografia que se me impôs com uma beleza insuportável, e eu,
que só sei tratar essas coisas que nos violentam com poesia, pelo menos aos pedaços,
fiquei calado.

E olhei.

Não importa que tenha sido eu a carregar no botão que desencadeia o obturador, até porque a máquina era digital e demasiado automática para que eu me possa gabar do que quer que seja.

É verdade que eu esperava que o Porto, lá atrás, ficasse quieto, não tanto pela natureza das coisas, mas porque já era de noite, e de noite até as coisas esperam. E posam.

Já os miúdos do parque infantil, quase paredes meias com os rabelos, esperava que não reparassem que o Porto tinha parado, do lado de lá, porque se reparassem podiam eles parar, e lá se ia o efeito sublime do contraste entre o movimento sereno, redondo, e a quietude tumultuosa, de bela.

Ora, o espanto que esmaga acontece porque não é suposto uma fotografia bailar.

E esta dança, porque o baloiço em que gira o puto do primeiro plano, testemunha-se a rodar, a rodar, a rodar, enquanto ele atira a cabeça para trás, quase como se adivinhase o êxtase da imagem que eu estava a meter num pequeno rectângulo.

Pois meti, e não sei como é que ela foi sair de lá, mas está aqui, para todos, e eu, que a vi sair de perto das mãos, continuo a olhar e a dizer que me supera.

Me trepassa.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-11-24

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