2005-10-25

O MEU AVÔ ZÉ MANEL



Soía no antigamente

Que avô que o era a sério

Não tinha nome de gente.

Arraso já o mistério:

O nome do avô é Avô,

Zé Manel é parentesco.

Ficou

Envernizado de fresco

Um pedaço do avô mago,

Para sempre na memória

Deste sorriso que trago.

Entorno agora essa a história:

Traçou doçura com mel

E minutos sem agenda,

O meu avô Zé Manel

Na tábua que a encomenda

Que eu lhe fiz raiar no peito

Tirou do fundo do mar,

Esse imenso amor perfeito

Onde vamos navegar.

Talvez o tenha explicado

Com utopia rasgada,

Falando e vogando em nada.

Mas, caramba, aos olhos dele,

Ficou tamanho o recado

Que se lhe estalou na pele

Um formal e cru mandado:

“Neto-rei, Juiz de Nada,

Manda da comarca alada

Que se faça o que sonhou!”

Foi assim que começou,

Na plaina do armazém

Que o meu avô lá tem,

A descompor-se a madeira,

Que olhada em pó no chão,

Era a mais bela maneira

De adivinhar o avião

Que dali voou para mim.

Se eu hoje visse o serrim,

Que por lá ficou, dourado,

Com o meu avô misturado,

Sabia escrever no espaço,

Fotografar no papel,

A forma daquele abraço

Que hoje não sei se dei,

Ao meu avô Zé Manel.

Mas mesmo na eternidade,

Aquele neto mandão

Gravará que encandeou

Seu avô com um só sorriso.

Nem sei se será preciso...

Afinal, um avião

Feito à mão,

Com um nariz de batente

Em madeira envernizada,

É o supremo presente.

Fica para lá do nada

Que se compra num Natal

No centro comercial.

Pedro Guilherme-Moreira

2005-10-17

2 comentários:

perdigota disse...

Um meio de transporte sem escala para o coração..

Certainly, travel is more than the seeing of sights; it is a change that goes on, deep and permanent, in the ideas of living.

Miriam Beard

Menina_marota disse...

"...O nome do avô é Avô,"

Lindo...

;)