2005-06-20

verso branco explicando A ALMA GRANÍTICA E PARDACENTA DE UM TRIPEIRO


A nossa luz é branca, também, podia até dizer luminosa, mas não em oceano aberto, como essa de Lisboa que eu também e tão bem conheço. É luz que percorre vielas e é capaz de repousar numa sombra muito escura, e ficar por lá, negra mas plena de brilho.

A luz de Lisboa, mesmo a que vai à rua estreita, é explosiva, e a sombra nunca é quieta, mas cheia de fugas e sorrisos.

O tripeiro fica-se, invisível, em torno da alma.

A sua alma é granítica porque é fresca como a pedra que lhe dá nome, também porque é forte e nua como ela, e porque o tripeiro gosta de se encostar à matéria de que a sua cidade é feita, e que acaba por fazê-lo a ele. Assim será o alfacinha, mas calcário, claro, mais doce, talvez fugaz, esboroando-se alegremente pela vida, permanecendo menos um pouco, mas permanecendo.

Uma alma que é obviamente pardacenta, mas por puro prazer. O Porto gosta de começar os dias em neblina, fresco, discreto, sabendo que tem Verões como os outros, mas que chegam mais tarde, lá pelo fim da manhã. E no Inverno, se na impressão das gentes do sul rima muito com chuva, a verdade é que é mais preparação espiritual que chuva real. E, se chove mesmo, faz parte. São sorrisos mais pesados, mais húmidos, mais escondidos, mas são sorrisos.

E o tripeiro, o verdadeiro tripeiro, não se afirma por contraponto.

Exalta-se, é verdade, como exalta a sua cidade, mas nunca deseja menos para os outros.

O verdadeiro tripeiro, quando desce à capital, leva a sua luz, a sua alma granítica e pardacenta, e funde-se no oceano luminoso, no calcário, na leveza, fala devagar, saboreia as palavras, mesmo que sejam dos outros. Um pulo alonga-se num pincho. E Portugal fica maior.

Porque o tripeiro que leva as pontes de Eiffel nas mãos, o Douro no olhar, o granito na alma, e desacelera, na fala e no tempo, e fica na sombra, e mostra o seu fresco de cores e cinzas, não se afirma contra ninguém, mas pode, porque às vezes também é preciso, lembrar que Portugal afinal é maior do que se pensa, é por aí acima, é por aí abaixo.

As pontes são para passar.

2 comentários:

Anónimo disse...

Oi Pedro Guilherme, como você, também me considero uma ignorante-mor... face ao mundo de coisas que desconheço. E algumas pessoas, quando digo isso,pensam que estou me depreciando, o que não é verdade! Estou apenas assumindo as minhas impossibilidades humanas.
Muito lindo o seu 'verso branco'explicando a alma do tripeiro que, iamgino, seja você.
Um abraço tropical,
Lais - Recife-PE, Brasil

dueto disse...

outra alma tripeira, cujo fado arrastou para coordenadas lisboetas.
subscrevo muita coisa do texto.