2005-06-27

A SUBLIMAÇÃO DO MARTELO (e do São João!)



Digo-vos eu que o do Porto é do mundo todo.

São seis e meia da tarde quando acontece o primeiro contacto.

O carrancudo dono da loja, aos Poveiros, está ostensivamente à porta da mesma a atirar a sua carranca aos que passam.

Noutro dia qualquer, pouco haveria a fazer.

Coleccionar caras destas o dia inteiro faz-nos suplicar pelo momento de paz do cimbalino, em que nos rimos com quem estiver à mão, seja no Majestic (que é a finesse do “carago”), seja no Piolho, no Aviz, no Estrela, eu sei lá!

Mas é noite de São João e estamos no Porto.

Alço o martelo de plástico e zás! Em cheio no cabeludo do couro – que podia não ser mulher, mas garanto-vos que era couro.

Costumo dizer que é preciso alguma coragem para começar a bater antes do jantar.

A essa hora, o povo ainda não está psicologicamente preparado para levar.

No entanto, é sem dúvida o momento mais gratificante para agredir, porque as reacções, além de plurais (o que é menos verdade noite dentro), são autênticas e muitas vezes perturbantes.

A essa hora, raro é o riso líquido, quase natural, que a madrugada de São João nos trará. Uma promessa de libertação, uma entrega ao outro, uma comunicação que se agradece, mesmo quando levamos com a parte dura ou mal cheirosa.

Antes das oito da noite, o povo ainda sofre, o povo ainda congela o coração, o povo ainda se sente agredido pelo filho da puta lá do trabalho.

Uma boa martelada a essa hora é, pois, um desafio filosófico tremendo.

Os que se lembram, no momento, que é dia de apanhar, ou ficam impávidos sobressaltados, ou rabujam entre dentes. Os que não se lembram, esboçam um milissegundo de indignação, para depois abrirem o primeiro grande sorriso da noite – e esse já só sai ao raiar do sol de 24. Se sair. Também se leva com um ou dois insultos tripeiros, principalmente de nativos típicos, o que só fortalece a pele.

Só tenho uma crítica ao tempo – hoje a janela de oportunidade do martelanço vem com a Lua de 23 e vai-se com o Sol de 24, e eu lembro-me bem, há coisa de vinte anos, de martelar até à Lua seguinte!

E não me agrada nada a sublimação precoce do martelo, que de nada serve no seu estado gasoso de ausência.

Costumo dizer, à laia de conselho (mas que na prática é uma vontade, quase um desespero, de que toda a gente –principalmente a gente urbana- possa partilhar connosco esta incrível noite), que liquidificar-se no São João do Porto pode ser um momento de zénite na vida de qualquer ser humano.

Quebram-se barreiras impensáveis, e a sequência desse sublime estilhaçar é intraduzível em palavras.

Decididamente, faz-se amor platónico toda a noite, abraça-se o próximo e o distante.

É obrigatório experimentar.

Imagine que um desconhecido o/a martelava na rua, e que isso era legítimo.

Imagine o que isso não fazia à sua armadura brilhante e à sua nudez opaca.

Agora imagine mil desconhecidos a fazer o mesmo.

Agora mais ainda.

É o São João do Porto:)!

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Este recanto, a que se chamou Ignorância, nasceu numa noite de São João, em 2003, pelo que, com este post, celebra serenamente os dois aninhos. Siga, então, a rusga:)

2 comentários:

Susana disse...

É, está bem escrito teu texto. Penso que mostra um pouco como é o São João.
Já agora, diverte-te!

Manuel Marinho disse...

Já agora... se quiserem saber um pouco mais da história do martelinho de S. João... http://martelodesjoao.blogspot.com/
Abraço!