2005-05-07

SPORTING EM PLANTA




Ontem vi muitos homens crescidos chorar.

A moda manda dizer que eles também o fazem, mas a verdade é que olhar para um tipo granítico como o Dias Ferreira, e vê-lo ali despedaçado de felicidade, esmagou-me contra o sofá, eu que tinha passado largos minutos na ponta dele, em sofrimento, como muitos portugueses, e que, como todos, também gritei aquele golo, que veio muito mais que depois da hora. Veio depois de tudo.

Esta é uma crónica sobre a arquitectura de uma lágrima sportinguista, e tem de ser escrita já, sob pena de ser ensombrada pela glória pura que se espera.

Ora, quem esteve atento deve ter reparado que a maioria dos sportinguistas, depois do jogo com os holandeses AZ Alkmaar, estava com os olhos líquidos.

Era enorme o pé direito da sua alma, bem diferente das caves fundas que habitam o futebol. Eu, que sou um chorão, mas gosto de atirar esta mania esférica para o seu devido lugar, só me lembro de ter chorado em 1987, quando do meu Porto saiu de Viena em glória, pulverizando ali a província do Douro litoral, e fazendo da nação nortenha um Portugal inteiro. Nesse momento, os do Porto, adeptos ou não, sentiram finalmente que a sua cidade também era sinónimo de mundo. E foi dia em que não precisaram de se por em bicos de pés para dizer aos seus irmãos da macrocéfala capital, que Portugal também ficava ali. Desde esse dia, muito mudou na geografia interior de cada português, mas não é disso que ora curo.

Ontem, não foi, obviamente, isso que se passou.

As minhas lágrimas de 1987 foram também, por direito próprio, privativas.

Ontem, apesar da intensa emoção e da partilha do sofrimento e da alegria com os sportinguistas, por ser evidente e óbvio o grande momento nacional que vai ser a final de Alvalade (e está aí parte das lágrimas - esse desejo fortíssimo, quase um dever, que abalou os sportinguistas, e os trazia em cuidados, de jogar a final em casa;), não chorei, nem estive perto disso.

E escrevo essencialmente para dizer, e faço-o ainda em planta, que este é um momento de intenso prazer que deve ser deixado aos próprios adeptos do clube - ou seja, partilhar da sua alegria, vivê-la, sofrê-la, como português, não tem nada de bonito ou extraordinário! É, antes de mais, o único sentimento possível a qualquer português normal, e com isto quero dizer claramente, e com todas as letras, que os que ontem desejaram a derrota do Sporting, como os que têm desejos idênticos em circunstâncias idênticas, não são portugueses normais.

Mas o edifício íntimo dessas lágrimas é só dos sportinguistas.

Também é feio querer usurpar essa intimidade. Dou o abraço, estou feliz, mas fico a admirar-vos de fora.

Se ainda não perceberam, o que eu quero realmente dizer é que as lágrimas de ontem não eram esféricas, leves, vulgares.

Eram sim o desenho interior de muitos momentos de cada homem que as chorou, salgando ali enormes pedaços mal temperados da vida, que agora são invocados e regenerados com sumo prazer.

E isso é uma coisa importante.

E porque os átomos das lágrimas não são feitos de futebol, mas de gente, deixo-os aqui lembrados, num abraço de dragão.

Esta é a verdadeira razão do tal fenómeno que trespassa o país, não olhando a classes:

Quando a bola desaparece, e ficam os homens.

A chorar gotículas desde os ferros armados em betão
E enterrados na terra do prédio que eles são.

Pedro Guilherme-Moreira, 2005-05-06

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