2005-04-19

OPERADO ALIENEI-ME


O corpo tem de ser deixado deserto, sem dono.

Quando escavei em mim próprio, na primeira noite branca do pós-operatório - e alvas foram muitas - , a razão de ter insistido com os meus que não queria que ninguém interferisse na minha vontade de dar entrada no hospital sozinho, de autocarro, e com a mala às costas, ainda não sabia que a resposta era essa mesma: por causa do meu corpo.

Nos últimos momentos antes da minha primeira experiência cirúrgica passiva, estacionei o carro na garagem do prédio onde moro, no topo da Avenida da República, em Gaia, e apanhei o 84 para a Boavista - uma viagem de cerca de meia-hora.
Eram sete e meia da manhã do passado dia treze.

Hoje sei que o meu desejo era não ter bengalas, não ter apoios de cotovelos, não ter por perto ninguém que me impedisse de sentir o meu corpo na plenitude.

E esse é o elemento mais marcante de todos, numa operação - a alienação do corpo.
Quem o não faz deve sofrer consideravelmente, porque nunca conseguirá simultaneamente gerir a dor física e o domínio da própria pele, que, naturalmente, deixa de ter.

Mas quem, desde o momento em que é chamado ao bloco, e lhe é dada pela enfermeira, com maior ou menor carinho, a bata sem costas que de nada protege (a subtileza do rasgo nas costas é um pormenor indigno trespassante), se abandona radicalmente, consciente de que o corpo lhe vai ser devolvido (se o for) lenta e gradualmente ao longo dos próximos dias, tem tudo para escravizar o sofrimento e hiperbolizar o sorriso impossível.

A vaidade deve agora repousar no olhar, apenas no olhar, por mais beleza que o nosso aparente tivesse até à remessa às urtigas.

O segundo dado da experiência é a alienação da consciência.
Somos legalmente drogados - foi a primeira vez que consenti que alguém me pusesse inconsciente. Esse momento, sendo o que muitos temem na teoria prévia (foi o que me aconteceu), acabou por ser para mim uma oportunidade de comédia e domínio pessoal.

Apostei com a anestesista que me ia conseguir despedir, algo muito arriscado para quem de experiente tinha nada. Ter mais de cem quilos ajudou, mas a verdade é que, àquela última e insistente pergunta da doutora, eu lá consegui o pleno ao dizer: “"Não lhe vou poder responder. Então até já!”" Vitória total.

E foi mesmo. Até dali a mais de 3 horas.
Acordei, já no Recobro, com naúseas tão intensas que, juntamente com o enterro do cateter nas costas da mão, ficaram como o troféu dos momentos mais desagradáveis desta notável experiência.

No recobro, posso bem dizer que aproveitei os meus últimos momentos de humor - algo que a droga me podia proporcionar.
Ainda sem corpo, que estava por baixo do meu pescoço algo parecido com aquele que ainda não queria reassumir, deliciei a minha esposa, intensamente preocupada, com a oscilação consciente do batimento cardíaco, ora abrandando ora acelerando a máquina - perfeitamente irresponsável, mas marca e cunho pessoal, e essencial para que a minha mulher, vítima de roubo do equilíbrio pessoal, sentisse o marido de volta.

Mesmo a mais simples operação é de uma violência dificilmente mensurável para a nossa intimidade.

Parte da vivência laboral de um hospital passa por canibalizar a fragilidade permanente que testemunham - nem todos sabem que o respeito pelo corpo abandonado de cada doente deve ser reverencial, quase sagrado.
E há mesmo alguns que, sabendo-o, fazem o culto de um qualquer sonho de comunismo empírico que eles vivem ali, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto.

Alguns clichés ficam confirmados como grandes verdades: a droga é a bengala primeira, e vai-nos sendo retirada gradualmente, o que faz com que nem sempre os primeiros dias sejam os piores. Eu diria até que os últimos antes da reconquista do corpo podem ser os mais temíveis. Primeiro acaba-se o soro, e os medicamentos via cateter. Depois acabam-se os medicamentos hospitalares, e começa uma gestão terrível da dor, que é muito pessoal, muito solitária.

Para quem quer ver o corpo regressar, eu só posso aconselhar paciência e sofrimento para que a cedência às drogas disponíveis não seja total.
Por outro lado, também posso confirmar que é algo estúpido sofrer, quando os limites dos paliativos não foram totalmente explorados.

A solidão do sofrimento é também, no meu entender, perfeitamente fundamental para o equilíbrio de cada um de nós - é na solidão que encontramos as nossas fronteiras, e só nela podemos saber o que pedir aos nossos, sem sermos nós a canibalizá-los.

E nunca devemos pedir tudo.
Aliás, devemos exigir tempo e espaço, e pedir muito pouco além disso.

E termino com a cereja em cima do bolo.

O Amor, ombro a ombro com o sofrimento, fica em carne viva, é palpável, é elemento físico percebido ali com evidência pelos cinco sentidos.

E é por isso que a única conclusão que posso tirar desta notável experiência é a de que a solidão só é útil enquanto pisamos o chão.

No espaço, a vogar, enquanto o corpo não volta (e há tantos para os quais não volta nunca), o cheiro, a mão, o olhar dos teus enclausura o sofrimento.

E é tão bom declarar o sofrimento irrelevante.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-04-19, mais ou menos de volta ao corpo

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