2005-03-22

CORRENDO PARA SUL QUANDO CHOVE


Quando ontem saí à rua para correr, sorri ao vê-la caindo de sul.

As pessoas costumam apenas tentar medir o meu grau de loucura por sair debaixo de temporais.

Não as costumo ouvir verbalizar a pergunta que lhes leio nos olhos: “E se...?”

E a questão é mesmo essa. Pode bem dizer-se que não se gosta ou não se quer, mas não se sabe se se gosta ou se se quer sem elemento de comparação.

Não gosto de correr, e apenas o faço porque 1) Consigo; 2) é barato; 3) é prático; 4) Não tenho outra forma de perder, em exercício, apenas meia-hora no meio de um dia de trabalho;

Mas, confesso, adoro correr para Sul quando chove.

Correr para Sul em Agosto, quando se instalou o terrível tempo que estragou as férias à maioria dos portugueses, teve outro sabor. O sabor da surpresa, de ver famílias inteiras abrigadas nas paredes norte dos bares de praia, do ar quente contra a chuva violenta, e até do risco dos detritos esvoaçantes perante ventos quase ciclónicos.

Lembro-me ainda do grato espectáculo da mini-tempestade de areia, uma espécie de manto suspenso à altura dos joelhos, que, apesar de magoar, me deu uma sensação onírica. Agradeci o privilégio de um espectáculo nunca visto. E os curiosos despojos da corrida – as pernas forradas a areia.

Ter corrido para Sul e a chover em Março, em plena seca, impôs-me Outono.
Enquanto percorria, com a cadência habitual, o passadiço de madeira, junto ao Senhor da Pedra, invadiram-me odores impróprios da estação que ora entra.

A terra molhou-se depois de meses sem água, tal como no Verão, e o cheiro a terra molhada é o mesmo dos primeiros dias de escola.
Fui acompanhado, nos últimos quilómetros, de múltiplas e empolgantes memórias de primeiros dias de escola.

Os odores são lembranças vivas e violentas.

(Lembro os primeiros odores do Verão, que o vento leste traz, e a forma como me gritam, dez anos depois, os exames de Coimbra - uma sensação desagradável que me agrada pelo contraste com a realidade, que contudo forçam com teimosia;)

De resto, em Março não há grandes surpresas, porque, à semana, mesmo com o tempo perfeito, as pessoas concentram-se nas esplanadas (quase o único ramo comercial que tem tido um ano excepcional), e deixam a praia em paz.

Essa, a praia de Inverno, é a minha praia.

Ontem, quando corri para sul, e era Março, e chovia, fi-lo numa solidão arrebatadora

e com um mar furibundo, que temos de respeitar a cada segundo, ou a espuma traiçoeira tratará da nossa ausência.

Pedro Guilherme-Moreira
2003-03-21

1 comentário:

Anónimo disse...

Tem que parar de correr para o Sul...Olhe que fica benfiquista ou sportinguista....
Tem a certeza que não poderia ter sido escritor, ao invés de Advogado?
É que escreve lindamente!...
Volte ao Forlegis depressa que aquilo tá a pegar fogo e ainda não estamos em época de incêndios...
Cumprimentos,
Dulce Reis