2005-03-22

A AUDIÇÃO


"Guilherme Moreira. Cinco Anos. Toca ao piano "March of Gnomes", de Thompson."

Foi hoje a primeira noite em que o palco o deixou sozinho, cru.

Até ali, desde o anjo que personificara aos três anos (nessa primeira vez, chorei copiosamente no escuro da sala, por trás do fotómetro da Reflex, não sei se pela beleza encantada do meu anjo, se pelo insuportável apelo do sangue, da forma da minha forma), havia sempre alguém por perto.

Residente habitual da lua, o Guilherme supera-se sempre em palco, onde aparece concentrado e virtuoso.

Tem ares de estrela.

Nesta noite da sua primeira audição individual de piano, haveria de falhar uma só nota, retomada logo a seguir com competência, e sem que ninguém notasse.

Ninguém, excepto o pai, que lhe recebeu o sorriso sem mesura, nesse curto segundo em que lhe pressentiu a primeira solidão, a derivar para a rosca do mesmo ninho de que se afasta a cada dia.

Tinha entrado determinado pelo centro da plateia, tocando o meu ombro e acendendo sorrisos que ainda não estavam sozinhos nem infinitos.

Ao vê-lo no palco, sentado no extremo de um negro e belíssimo piano de cauda, isolei-o no centro do mundo, um pequeno círculo iluminado, de margens apagadas.

A peça era a quatro mãos.
O acompanhamento era da professora Anabela, o solo do Guilherme.

Dó Ré Dó Si Dóóó. Dóóó.
Dó Ré Dó Si Dóóó. Dóóó.

Foram dois minutos que me parceram rasgos lentos da eternidade.

Quando terminou, não pude, nunca posso, banhar o meu orgulho nos aplausos, porque estava,estou sempre, em final de colapso.

Recebi-o com a mãe num longo abraço, sem saber onde espalhar o orgulho.

O Guilherme foi o primeiro da noite, o mais novo de verdadeiros anjos que iam até aos vinte e picos anos.

Neste registo mnemónico, quero deixar riscados os nomes de outras elevadas emoções, que o futuro pode um dia confirmar, e que o meu presente agradece.

Não chegava a dez anos a Eduarda Machado, que interpretou de forma absolutamete arrasadora a Valsa op.70 numero 2, de Chopin.

Já levava vinte e tal o caso sério da noite, a Carla Quelhas, pianista inteira, que navegou, esvoaçou, eu sei lá, "Um Suspiro", de Liszt, peça tecnicamente impossível de tocar sem um pedaço de coração, e isto diz quem não sabe.

Ouvir tocar assim piano emociona. Lágrimas de dentro. E foi bom lembrar como não há como ouvi-lo ao vivo.

Pelo meio, alguns mecânicos de músicas, que desempenham uma rotina em que nada se toca, ficando-me a felicidade de um Guilherme que, mesmo que nunca seja um pianista, trata o piano com cristais de açúcar, doçura que é dele, de uma ponta à outra.

Para quem não é de Gaia, a terrinha onde tudo isto aconteceu deve soar a encanto: Vilar do Paraíso.

Pior ainda: Academia de Vilar do Paraíso. Que eu promoveria com a frase "Formamos Anjos!"

Formam mesmo.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-03-17

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