2005-02-01

COMER AUSCHWITZ

Como em relação a todos os temas históricos cuja invocação mediática se repete ciclicamente, ouço muitas vezes muita gente muito enfadada muito...

E tudo é muito em Auschwitz.

Aceitei para mim a obrigação de não ler, não observar, não empatizar... ...

mas sim engolir, comer, mastigar, digerir cada segundo, cada momento,
cada história que nos vem do tempo e se chama Auschwitz ou outra coisa parecida.

Assim, de cor funda, cinzenta sem meio tom.

Lembrar que a lei, assim, não é para cumprir, nem a ordem para acatar.

Projecto muitas vezes – com um profundo respeito pelo inferno propriamente dito – o que teria sido o meu inferno em Auschwitz.

Na teoria confortável que é distante da matéria como o longe no espaço,
asseguro ao meu próximo que não morreria num quarto de gás,

seria certamente seleccionado para trabalhar,

mas morreria breve com uma bala na cabeça, pois não é meu timbre vergar-me, nem quando um homem vergar-se quer dizer decência e amor ao futuro, a quem dele precisará.

Seria a forma de um corpo numa vala comum,
uma foto tremenda de rasgar lágrimas a pedras.

Depois lembro-me, e este é o exercício de quem se obriga a digerir Auschwitz a cada oportunidade, lembro-me, lembro-me.

Do meu filho,
Da minha mulher,
Dos meus.

Lembro-me de ter chegado a pensar sem decência que foram os cobardes que se salvaram, porque os livres não passariam mais que minutos dobrados.

E anseio a lição daquele herói que dobrou e dobrou e dobrou e chegou ao fim vivendo sobre
gente mutante como todos dessa sorte destruído,
mas passando o abraço aos dele.

Gente sobre vivendo.
Gente que nos lembra que é possível repetir Auschwitz.

Hoje anda aí num café qualquer o teórico de cada genocídio.
Há um momento em que o tipo passa com brilho a porta do poder.

Cheira a lavanda, é bonito.
E tu, o que comes Auschwitz,
E lembras e lembras,
Primeiro lambes as feridas do aborto,
fazes do tipo palhaço, ris-te do circo,
Percebes a língua, desmontas o logro.

Por um triz, salvaste seis milhões

E é assim, num segundo, em cada dia ou minuto ou curva da caixa torácica de um homem, Que comemos para lembrar.

Pedro Guilherme-Moreira 2005-01-27

4 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns pelo texto. Está espetacular!!

Mas será que foram só os cobardes, os que se salvaram??
Terá sido mesmo assim?... tenho pena...
e depois também penso...
na minha família,
na famíla dos outros,
em todas as famílias...

É preciso muito para pensar em tudo o que significou Auschwitz.

Cumprimentos,
Adília M.

PG-M,o ignorante-mor disse...

Obrigado.

Se ler bem a parte em que falo dos “cobardes”, acabo por admitir a minha ignorância e fraqueza ao ter deixado essa ideia sequer aproximar-se do meu espírito.

Na prática, nunca deixei. Isto tem apenas uma intenção literária de apelo à reflexão.

É óbvio que são todos heróis.

Abraço,Pedro Guilherme-Moreira

PG-M,o ignorante-mor disse...

Obrigado.

Se ler bem a parte em que falo dos “cobardes”, acabo por admitir a minha ignorância e fraqueza ao ter deixado essa ideia sequer aproximar-se do meu espírito.

Na prática, nunca deixei. Isto tem apenas uma intenção literária de apelo à reflexão.

É óbvio que são todos heróis.



Abraço, Pedro Guilherme-Moreira

Anónimo disse...

Não poderia eu pensar outra coisa.

Cumprimentos,

Adília M.