2005-02-03

A CAMPA DO MEU AVÔ

...aos cemitérios chamo "morada aparente"; são ponto de encontro, mas há dias arrebatadores; foi num desses dias que fui obrigado a escrever
A CAMPA DO MEU AVÔ

A campa do meu avô é branca.
Mesmo que chova é branca.

Mesmo que eu chegue atrasado,
Mesmo que o olhar me poise
Na esquina da laje dele

A alma do meu avô é branca.

Não tem letras,
Não tem nada
Que lhe perturbe a brancura.

E neste dia do ano
Senta-se ao lado do anjo
No seu fatinho cinzento,
Arrima em si o sorriso
Que lhe traz um beijo meu,
E, aconchegando o pulôver,
eis que o dinheiro aparece
Lá tira a nota de dez,
Não tendo outra ao morrer,
Passa-ma quase em segredo,
E fica ali definida
a alma do meu avô,
que é branca.
“Li o poema, rapaz,
Estava no bolso,
E a avó?”
“A avó está mais luminosa,
Já se ri, custou-lhe muito,
Perdeu a casa e a vida
De si, pedaço dela
Está aqui.”
A campa do meu avô é branca,
Como esta folha, afinal,
E nos dias de visita,
Que me confundem saudade,
Minh’alma é branca também.


Pedro Guilherme-Moreira
3 de Fevereiro de 2005

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