2005-12-23

SUSANA E O NATAL



Sentei-me num banco por dentro de tudo
Para escrever Susana.

Tentara-o por ela muitas vezes
Em meses lentos e tristes,
Mas o medo

despejara-me as palavras em ravinas
de pretéritos.

Susana É,
Pois é.

Trouxe tudo do asfalto,
Da cama suspensa em si
no hospital da alma.

Outros não trazem, ficam.
Outros não voltam, deixam.

Susana está.

Ontem mesmo,
No café da marginal,
Susana não estava
Ausente.

Ontem mesmo,
Do café da marginal,
Sete morriam na rua
Porque o queriam sem saber,
E outros sete matavam
No perfume-perdição
De um chassis e algumas rodas,
De um tapete sem barreiras
Onde um Rei universal
Nos oferece a promoção
Do sangue de Portugal.

Dos viúvos e dos órfãos,
Dos amigos amputados
Deste país em bocados.

Mas Susana entrou perfeita,
Toda suspensa de luz.

Era do Anjo do rio
Que estava nela vestido.

Foi a prenda que pedi:
Ver Susana e o Natal,
Ao jantar, um dia destes,

No café da marginal.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-10-23

2005-11-24

O BAILADO e os miúdos e o Porto



Acontece que esta é a fotografia que se me impôs com uma beleza insuportável, e eu,
que só sei tratar essas coisas que nos violentam com poesia, pelo menos aos pedaços,
fiquei calado.

E olhei.

Não importa que tenha sido eu a carregar no botão que desencadeia o obturador, até porque a máquina era digital e demasiado automática para que eu me possa gabar do que quer que seja.

É verdade que eu esperava que o Porto, lá atrás, ficasse quieto, não tanto pela natureza das coisas, mas porque já era de noite, e de noite até as coisas esperam. E posam.

Já os miúdos do parque infantil, quase paredes meias com os rabelos, esperava que não reparassem que o Porto tinha parado, do lado de lá, porque se reparassem podiam eles parar, e lá se ia o efeito sublime do contraste entre o movimento sereno, redondo, e a quietude tumultuosa, de bela.

Ora, o espanto que esmaga acontece porque não é suposto uma fotografia bailar.

E esta dança, porque o baloiço em que gira o puto do primeiro plano, testemunha-se a rodar, a rodar, a rodar, enquanto ele atira a cabeça para trás, quase como se adivinhase o êxtase da imagem que eu estava a meter num pequeno rectângulo.

Pois meti, e não sei como é que ela foi sair de lá, mas está aqui, para todos, e eu, que a vi sair de perto das mãos, continuo a olhar e a dizer que me supera.

Me trepassa.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-11-24

O FORNO DO REI e a Rainha Albertina



Este e o texto de cima encerram um mandamento episódico nada sensato: "Não escreverás poesia hoje, nem que te apeteça à razão de um arrepio por cada verso que inibas!"

Ora, está visto:
Falar do Restaurante "Forno do Rei", em si, se visto a seco, sem gente, apenas pintalgado de mesas, cadeiras, tachos e decoração...bom, é já sensivelmente insuportável fazer isso sem despejar tudo para um poema.

Agora, se lá pusermos a sua alma, a Rainha Senhora Dona Albertina, majestade naqueles divinos parcos metros quadrados, então lá volta o tremelique da poesia, e, senhores, fica descomunal o sacrifício de não lhes dedicar um verso. Aos dois.

Tudo pequenino, e, tenho de o dizer, por mais que a palavra seja de muito uso, aconchegante.

É que aconchegante é mesmo, sem tirar nem por, só assim, e deve ser essa a principal razão dos duzentos quilómetros que se faz alegremente só para lá ir jantar. Isto, porque, confesso, já lá fui almoçar, mas a luz do dia não combina com o sentimento muito particular que levo do Forno do Rei.

No bolso, onde é costume trazer todos os meus sentimentos.

Fica em Vouzela, terra bonita, e deve lá chegar-se em dia de frio cortante, pode ter chuva, entrar gelado, pode ser molhado, e ser acolhido pela fada, perdão rainha, Senhora Dona Albertina, que enche o espaço de si, e nós da sua alma, e a sua alma de nós.

E o Forno do Rei é aquilo, aquele movimento, aquele som calado da felicidade de um momento que não se quer que passe muito depressa, aquela senhora enorme, que não haja dúvidas que o é aos olhos todos, ainda que a raça seja, claro, a da sardinha portuguesa.

Mas sardinha é coisa que lá não há, porque é terra de Lafões, da vitela que sabe sempre pela vida, e do vinho da casa que é Dão, e vem num jarrinho caseiro, e que o condutor não bebe, mas experimenta muito.

Seria crime deixar o Forno da nossa rainha sem deitar o dente ao Bacalhau com Natas, que é prato da moda urbana, mas ali é de casa, de aldeia, dos recantos, das pedras, dos arcos da linha antiga.

E olhar por momentos para aquela Senhora, que vai e vem, e entra dentro de nós, e fica-se-nos no peito, e por ela vale a pena lá ir por todos os anos, pelas estações que vão passando, pelos míscaros, e passá-lo aos filhos e aos netos.

Afinal, está ali um sítio daqueles que nunca queremos incluir nas memórias nostálgicas.

Queremos que exista, que nunca deixe de existir, e pronto!

Ah, e é segredo, porque queremos manter o nosso cativo por ali.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-11-23

2005-11-07

MERCEARIA



MERCEARIA

Fui medir o amor,

E a primeira parcela

Foi de bruços para o céu.

Era um palmo entre nuvens,

Era um palmo entre nós,


Entre os olhos e os olhos,

Entre a boca e a boca,


Mas à noite vi estrelas

Sobrepostas ou perto

De ficarem sem longe;


Ora vistas as peles

Era a mesma medida,

E pensando melhor,

De manhã, mas mais tarde,

Foi-se o palmo e ficou

A distância de um beijo

Que era nada, afinal,

Como o longe das estrelas.


Mas porém noutro ponto

Volta o palmo medido

Entre a lua e o sorriso

De qualquer elemento.


Ora bom, vendo bem,

Se pesarmos o amor,

as estrelas, as luas,

Ou até o tal céu

E as nuvens por junto,

Fica a mesma leveza,

Que outra vez vai por nada

Nas parcelas dos corpos.


Fui medir o amor,

E o senhor merceeiro

Disse “levas fiado,

Mas não voltes por cá

Sem o tempo pesado”


Eu fiquei-me na minha,

Que amor é sem tempo,

É sem espaço, sem peso,

Meça-o lá cada um


Para dentro de si.


Pedro Guilherme-Moreira

2005-11-05

2005-10-29

Não Cresças Hoje


NÃO CRESÇAS HOJE


A tua ausência normal


Parte-me o corpo em dois

Despe-me o tempo em três

Rompe-me a alma em mil


Tira-me um braço

Perna

Um arco que o peito faça

A linha recta do ódio


Traça-me tantas vezes

A pele de vãos

Escadas e chãos

Entradas, Mãos

Que faltam



Deixas-me o cheiro

E a noite é agora

Está a começar

E tu não estás

E eu volto abaixo

Quedo no fundo

O chão que temo

E eu já não sou

Ninguém sem ti


Tu tens seis anos

E eu vezes seis

Foste dormir

Fora de casa

E eu não sei ler

O firmamento

Sem ti ao lado



Dá-me um momento

Não uma noite

Dá-me um bocado

Não um pedaço


Está por aí

O egoísmo, o pai

Voraz, a equação

De um ser humano


Que é xis mais um igual a outro?


Mas hoje não!


Quero que sejas mais um pouquinho

Subcutâneo



Pedro Guilherme-Moreira

2005-10-29

2005-10-25

O MEU AVÔ ZÉ MANEL



Soía no antigamente

Que avô que o era a sério

Não tinha nome de gente.

Arraso já o mistério:

O nome do avô é Avô,

Zé Manel é parentesco.

Ficou

Envernizado de fresco

Um pedaço do avô mago,

Para sempre na memória

Deste sorriso que trago.

Entorno agora essa a história:

Traçou doçura com mel

E minutos sem agenda,

O meu avô Zé Manel

Na tábua que a encomenda

Que eu lhe fiz raiar no peito

Tirou do fundo do mar,

Esse imenso amor perfeito

Onde vamos navegar.

Talvez o tenha explicado

Com utopia rasgada,

Falando e vogando em nada.

Mas, caramba, aos olhos dele,

Ficou tamanho o recado

Que se lhe estalou na pele

Um formal e cru mandado:

“Neto-rei, Juiz de Nada,

Manda da comarca alada

Que se faça o que sonhou!”

Foi assim que começou,

Na plaina do armazém

Que o meu avô lá tem,

A descompor-se a madeira,

Que olhada em pó no chão,

Era a mais bela maneira

De adivinhar o avião

Que dali voou para mim.

Se eu hoje visse o serrim,

Que por lá ficou, dourado,

Com o meu avô misturado,

Sabia escrever no espaço,

Fotografar no papel,

A forma daquele abraço

Que hoje não sei se dei,

Ao meu avô Zé Manel.

Mas mesmo na eternidade,

Aquele neto mandão

Gravará que encandeou

Seu avô com um só sorriso.

Nem sei se será preciso...

Afinal, um avião

Feito à mão,

Com um nariz de batente

Em madeira envernizada,

É o supremo presente.

Fica para lá do nada

Que se compra num Natal

No centro comercial.

Pedro Guilherme-Moreira

2005-10-17

2005-08-12

DIREITO NA ESCOLA (DE VALADARES)


Os crescidos só fardam respostas.

E despem perguntas, ou, se as vestem, são sempre as dos outros, que, com uma compulsão quase paranóide, dão como certas.
Sempre sem perguntar antes.
Confesso que, como representante de uma das profissões mais crescidas, com enormes franjas cinzentas, fui à Escola de Valadares, naquele meado de Junho, procurar a minha cura na turma de Educação Cívica da professora Elisabete, do 9º Ano.

A advocacia é, claro, uma nobre profissão, que os próprios advogados teimam muitas vezes em vulgarizar, abdicando do combate ao prévio conceito ou, pior ainda, alinhando por ele.

Pois naquela idade, que ronda os quinze anos, os preconceitos são infinitamente menos que nos matulões maduros do café do bairro, que à entrada nos desdobram a passadeira vermelha do doutor, e à saída - ou mesmo ainda lá dentro, em bicas bicadas sem açúcar - , nos puxam um tapete de gajo para baixo.

Não sei se reduza esta crónica aos temas conversados - no "Direito na Escola" a iniciativa é sempre dos alunos - , sempre a um nível altíssimo, avassalador mesmo, para quem está habituado a cair na armadilha das minudências, se vos reporte a honra imensa de estar perante aqueles rapazes e raparigas a falar e a escutar esse Direito que amamos.

Como impulsionador desta iniciativa, este ano alargada a todos os colegas, posso testemunhar que, nestas visitas, a emoção mínima é sempre suprema.

Só tenho pena de não ter podido oferecer a cada um destes jovens amigos este meu testemunho.

Havia que respeitar a campainha -que para eles é uma urgência, e para nós uma essência -, e deixá-los esvair para um 10º ano que virá a ser a primeira especialização de cada um deles.

Espero apenas que os que daqueles já se constroem advogados, levem no peito e na toga uma partícula daquela hora.

E que os que não vão em Direitos, levem na argamassa do seu edifício um calor no olhar, para que possam ver para além do tipo social, ou da imposição "luminosa" do quinto poder.

Saí encantado.

Voltarei curado.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-08-11

2005-08-05

O FOGO CHEGOU À PRAIA


Está aqui o meu testemunho vivo da nuvem que ontem, às 14:30h, impregnava as praias de Gaia de uma estranhíssima cor tijolo (foi correndo desde o Rio Douro, de manhãzinha, sempre para Sul), que nem num fim de tarde se vê. O tempo estava um autêntico caldo. Mal a nuvem passou, deixou espaço para a frescura do ontem abençoado vento norte. Ali ao longe vê-se Espinho, sob um manto apocalíptico. Eu estava na praia da Aguda.

2005-07-12

Manuela Azevedo humana


No dia 4 de Julho de 2005, no Porto, o céu do Coliseu estava negro, de vez em quando cravado de palmas que subiam do chão, e no palco havia esta luz, de brilho superlativo, quase invisível, que se cheirava e sentia, explodindo dentro de nós. Chama-se Manuela Azevedo. Portugal também, e apesar de tudo. E deixa-nos felizes. A sério que deixa.Sou teu fã quase desde sempre, Manela, mesmo quando era teu colega de faculdade e não sabia disso. Tu disseste-me nesta noite. É-se sempre fã da excelência. Um dia falaremos desse teu brilho, mas antes tenho de crescer, mesmo que não apareça. PG-M

A CURVA DO CAMINHO


Dos já milhares de quilómetros percorridos a correr neste percurso entre Francelos e Miramar, esta sempre foi a minha imagem favorita. A minha curva do caminho no passadiço soberbo de quinze quilómetros que por lá deixaram um destes dias. Não se diz onde fica, descobre-se. Daqui se vê meio infinito até Matosinhos. No Verão, tem gente por perto, mas no Inverno é despojada, quase minimalista, sempre luminosa, mesmo durante aquelas magníficas tempestades de sul. PG-M

2005-06-29

São Pedro da Póvoa 2


Ainda o São Pedro molhado de ontem, na Póvoa de Varzim. As fotografias em maior formato deste blogue são todas da autoria do ignorante-mor PG-M:)

São Pedro da Póvoa 1


O São Pedro é hoje, mas a festança é de véspera, como sempre.

A noite de ontem, na Póvoa, foi molhada, mas o fim da tarde, pleno de ameaça, deu-nos esta beleza que agora partilho convosco, sem nunca esquecer que é ele, o santo que tem as chaves, o responsável por estes traços. PG-M

2005-06-27


Porto Laser, da Ponte do Infante, nem Gaia nem Porto, 23, 23h

General Torres, Gaia, 23, 23:30h - O povo e o Porto

A SUBLIMAÇÃO DO MARTELO (e do São João!)



Digo-vos eu que o do Porto é do mundo todo.

São seis e meia da tarde quando acontece o primeiro contacto.

O carrancudo dono da loja, aos Poveiros, está ostensivamente à porta da mesma a atirar a sua carranca aos que passam.

Noutro dia qualquer, pouco haveria a fazer.

Coleccionar caras destas o dia inteiro faz-nos suplicar pelo momento de paz do cimbalino, em que nos rimos com quem estiver à mão, seja no Majestic (que é a finesse do “carago”), seja no Piolho, no Aviz, no Estrela, eu sei lá!

Mas é noite de São João e estamos no Porto.

Alço o martelo de plástico e zás! Em cheio no cabeludo do couro – que podia não ser mulher, mas garanto-vos que era couro.

Costumo dizer que é preciso alguma coragem para começar a bater antes do jantar.

A essa hora, o povo ainda não está psicologicamente preparado para levar.

No entanto, é sem dúvida o momento mais gratificante para agredir, porque as reacções, além de plurais (o que é menos verdade noite dentro), são autênticas e muitas vezes perturbantes.

A essa hora, raro é o riso líquido, quase natural, que a madrugada de São João nos trará. Uma promessa de libertação, uma entrega ao outro, uma comunicação que se agradece, mesmo quando levamos com a parte dura ou mal cheirosa.

Antes das oito da noite, o povo ainda sofre, o povo ainda congela o coração, o povo ainda se sente agredido pelo filho da puta lá do trabalho.

Uma boa martelada a essa hora é, pois, um desafio filosófico tremendo.

Os que se lembram, no momento, que é dia de apanhar, ou ficam impávidos sobressaltados, ou rabujam entre dentes. Os que não se lembram, esboçam um milissegundo de indignação, para depois abrirem o primeiro grande sorriso da noite – e esse já só sai ao raiar do sol de 24. Se sair. Também se leva com um ou dois insultos tripeiros, principalmente de nativos típicos, o que só fortalece a pele.

Só tenho uma crítica ao tempo – hoje a janela de oportunidade do martelanço vem com a Lua de 23 e vai-se com o Sol de 24, e eu lembro-me bem, há coisa de vinte anos, de martelar até à Lua seguinte!

E não me agrada nada a sublimação precoce do martelo, que de nada serve no seu estado gasoso de ausência.

Costumo dizer, à laia de conselho (mas que na prática é uma vontade, quase um desespero, de que toda a gente –principalmente a gente urbana- possa partilhar connosco esta incrível noite), que liquidificar-se no São João do Porto pode ser um momento de zénite na vida de qualquer ser humano.

Quebram-se barreiras impensáveis, e a sequência desse sublime estilhaçar é intraduzível em palavras.

Decididamente, faz-se amor platónico toda a noite, abraça-se o próximo e o distante.

É obrigatório experimentar.

Imagine que um desconhecido o/a martelava na rua, e que isso era legítimo.

Imagine o que isso não fazia à sua armadura brilhante e à sua nudez opaca.

Agora imagine mil desconhecidos a fazer o mesmo.

Agora mais ainda.

É o São João do Porto:)!

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Este recanto, a que se chamou Ignorância, nasceu numa noite de São João, em 2003, pelo que, com este post, celebra serenamente os dois aninhos. Siga, então, a rusga:)

2005-06-20

verso branco explicando A ALMA GRANÍTICA E PARDACENTA DE UM TRIPEIRO


A nossa luz é branca, também, podia até dizer luminosa, mas não em oceano aberto, como essa de Lisboa que eu também e tão bem conheço. É luz que percorre vielas e é capaz de repousar numa sombra muito escura, e ficar por lá, negra mas plena de brilho.

A luz de Lisboa, mesmo a que vai à rua estreita, é explosiva, e a sombra nunca é quieta, mas cheia de fugas e sorrisos.

O tripeiro fica-se, invisível, em torno da alma.

A sua alma é granítica porque é fresca como a pedra que lhe dá nome, também porque é forte e nua como ela, e porque o tripeiro gosta de se encostar à matéria de que a sua cidade é feita, e que acaba por fazê-lo a ele. Assim será o alfacinha, mas calcário, claro, mais doce, talvez fugaz, esboroando-se alegremente pela vida, permanecendo menos um pouco, mas permanecendo.

Uma alma que é obviamente pardacenta, mas por puro prazer. O Porto gosta de começar os dias em neblina, fresco, discreto, sabendo que tem Verões como os outros, mas que chegam mais tarde, lá pelo fim da manhã. E no Inverno, se na impressão das gentes do sul rima muito com chuva, a verdade é que é mais preparação espiritual que chuva real. E, se chove mesmo, faz parte. São sorrisos mais pesados, mais húmidos, mais escondidos, mas são sorrisos.

E o tripeiro, o verdadeiro tripeiro, não se afirma por contraponto.

Exalta-se, é verdade, como exalta a sua cidade, mas nunca deseja menos para os outros.

O verdadeiro tripeiro, quando desce à capital, leva a sua luz, a sua alma granítica e pardacenta, e funde-se no oceano luminoso, no calcário, na leveza, fala devagar, saboreia as palavras, mesmo que sejam dos outros. Um pulo alonga-se num pincho. E Portugal fica maior.

Porque o tripeiro que leva as pontes de Eiffel nas mãos, o Douro no olhar, o granito na alma, e desacelera, na fala e no tempo, e fica na sombra, e mostra o seu fresco de cores e cinzas, não se afirma contra ninguém, mas pode, porque às vezes também é preciso, lembrar que Portugal afinal é maior do que se pensa, é por aí acima, é por aí abaixo.

As pontes são para passar.

2005-05-23

Queridos Benfiquistas (de um portista:)



Dizia eu para o Forlegis, a lista de discussão jurídica acarinhada pela Ordem dos Advogados, um minuto após o apito final do Boavista-Benfica, que o SLB e os benfiquistas estavam todos de parabéns, mas o servidor da OA, reconhecidamente Sportinguista, não deixou passar o desportivismo:)))!

Dizia também, conforme foto junta, que aqui em casa se tinha vivido uma tarde de grande desportivismo (uma mensagem essencial para o mais jovem membro, que, tendo tomado uma opção consciente pelo FCP, passou a tarde com mimos à mãe benfiquista), com a senhora da casa a levar a melhor e a fazer a festa, e os Guilhermes, o pequenito e o grande, conformados na varanda sobre a Rotunda de Santo Ovídio, a ver a enorme festa vermelha.

Só ontem me apercebi que, nestes onze anos, o FCP havia ganho oito vezes, o que realmente devia enjoar e entristecer os benfiquistas, e não deixa de ser desesperante que este ano tenham lutado, mesmo com o pobre ano que tiveram, até ao minuto 90 do jogo do Dragão. Mas assim sabe melhor, não é meus queridos lampiões? Também no desporto a alternância se saúda, e é isto que um portista conformado, acima de tudo desportista, leva de bom da noite “desesperadamente vermelha” de ontem.


Claro que não é possível ou sequer saudável que, mesmo aqueles que, como eu, gostam de tratar este fenómeno da forma que ele merece, tenham a altivez de desprezar a manifestação de força e beleza da nação e do mundo benfiquista, que é também um mundo português.

Ontem viu-se que ainda são, realmente, os seis milhões que apregoam, e devo realçar, acima de tudo, a festa positiva, que nunca foi contra ninguém.

Ao contrário da triste cena dos aliados, que se encheram de arruaceiros prontos a manchar, conscientemente, o nome do clube e da cidade, ao ocupar uma das suas principais salas de visita.

Obviamente que as poucas centenas que ontem vimos não se podem confundir com aqueles que são verdadeiros adeptos azuis e brancos, e muito menos com os tripeiros (como aquele célebre cachecol “anti-tripeiros” costuma fazer). Sabemos que estes tarados existem em qualquer clube, e também sabemos que as direcções dos clubes acabam por consentir estes palhaços, potenciais criminosos, quando era fácil tê-los bem elencados e registados, expulsando-os liminarmente de sócios quando constassem de qualquer relatório policial, que seria cruzado regularmente com as bases de dados dos clubes.

Mas isto era se eles quisessem. E não querem.

Também ao contrário do que muitos benfiquistas podem pensar, a grande festa que o Benfica viveu na cidade do Porto foi para mim, como nado e criado na Invicta, uma verdadeira honra, confirmando aquilo que muitas vezes digo, e poucas vezes posso demonstrar: que o Benfica é pelo menos o segundo clube do Porto, em número de adeptos - e, se para mim fará mais sentido cultivar, de forma positiva, os símbolos das nossas terras, percebo que toda esta grande massa de adeptos nasceu, aqui no Norte, quando Benfica rimava com Portugal.

Claro que esse monolitismo, essa veneração a uma só nota, um pouco como a do Porto nas últimas duas décadas, não é muito boa, mas a verdade é que aconteceu, e é uma realidade que tem de se aceitar.

E se ontem me custou bastante não poder festejar, nunca me custa ver a festa dos outros.

E hoje, passada a desilusão, estou feliz pelos muitos amigos que tenho no Benfica, e que há onze anos não se podiam “alienar” desta forma.

Hoje é para vós um dia encantado. Gozai-o bem!

Amanhã, regressa este Portugal acidentado, mas disso não vamos falar hoje?!

Viva então o Benfica!

Abraços azuis e brancos do

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Uma palavra de apreço também para os sportinguistas, para quem a hora é de extrema dureza; E ânimo para os meus comparsas - neste ano terrível no Dragão, discutir o título até ao último minuto, e ainda levar um título nacional e outro internacional, apesar dos grandes erros que se cometeram e das lições que se devem aprender, é sem dúvida de um grande clube com boa gente - e falo dos adeptos, mais ninguém.

2005-05-18

UM TRAUMA PORTUGUÊS



É assim.
Com ou sem endeusamento do futebol, dói a qualquer português.

Fica então esse novo trauma, bem português, de perder jogos decisivos em casa.
E vão ficar as metáforas e as piadinhas de algibeira durante muitos meses, talvez anos.
Sabemos que a final de hoje, perdida em Lisboa, pelo Sporting, no seu próprio estádio, para o “clube desportivo do exército russo” –CSKA (no meu modesto entender, uma excelente equipa), e a de 4 de Julho do ano passado, perdida por Portugal, também em Lisboa, para a nobre nação helénica, sem esquecer o jogo de abertura desse grande Euro 2004, igualmente perdida por Portugal para a Grécia, mas no Porto, que foi feito inédito em eventos deste género, serão transformadas em paradigmas negros do Portugal que murcha por dentro, do país real que é esbofeteado por si próprio.

Mas, já agora, cola-se-me mais à pele toda a festa, coragem e superação nacional que se viveu entre as duas derrotas com a Grécia.

E é assim que eu quero ver os portugueses, mesmo com uma arma apontada à cabeça, entre portas.

Acreditando.

Porque vamos lá.
Ai vamos, vamos!

Era o que faltava se não fôssemos.

Viva Portugal!

Pedro Guilherme-Moreira
2005-05-18, dia do Sporting-1, CSKA-3, na final da Taça UEFA, jogada em Alvalade;

2005-05-07

SPORTING EM PLANTA




Ontem vi muitos homens crescidos chorar.

A moda manda dizer que eles também o fazem, mas a verdade é que olhar para um tipo granítico como o Dias Ferreira, e vê-lo ali despedaçado de felicidade, esmagou-me contra o sofá, eu que tinha passado largos minutos na ponta dele, em sofrimento, como muitos portugueses, e que, como todos, também gritei aquele golo, que veio muito mais que depois da hora. Veio depois de tudo.

Esta é uma crónica sobre a arquitectura de uma lágrima sportinguista, e tem de ser escrita já, sob pena de ser ensombrada pela glória pura que se espera.

Ora, quem esteve atento deve ter reparado que a maioria dos sportinguistas, depois do jogo com os holandeses AZ Alkmaar, estava com os olhos líquidos.

Era enorme o pé direito da sua alma, bem diferente das caves fundas que habitam o futebol. Eu, que sou um chorão, mas gosto de atirar esta mania esférica para o seu devido lugar, só me lembro de ter chorado em 1987, quando do meu Porto saiu de Viena em glória, pulverizando ali a província do Douro litoral, e fazendo da nação nortenha um Portugal inteiro. Nesse momento, os do Porto, adeptos ou não, sentiram finalmente que a sua cidade também era sinónimo de mundo. E foi dia em que não precisaram de se por em bicos de pés para dizer aos seus irmãos da macrocéfala capital, que Portugal também ficava ali. Desde esse dia, muito mudou na geografia interior de cada português, mas não é disso que ora curo.

Ontem, não foi, obviamente, isso que se passou.

As minhas lágrimas de 1987 foram também, por direito próprio, privativas.

Ontem, apesar da intensa emoção e da partilha do sofrimento e da alegria com os sportinguistas, por ser evidente e óbvio o grande momento nacional que vai ser a final de Alvalade (e está aí parte das lágrimas - esse desejo fortíssimo, quase um dever, que abalou os sportinguistas, e os trazia em cuidados, de jogar a final em casa;), não chorei, nem estive perto disso.

E escrevo essencialmente para dizer, e faço-o ainda em planta, que este é um momento de intenso prazer que deve ser deixado aos próprios adeptos do clube - ou seja, partilhar da sua alegria, vivê-la, sofrê-la, como português, não tem nada de bonito ou extraordinário! É, antes de mais, o único sentimento possível a qualquer português normal, e com isto quero dizer claramente, e com todas as letras, que os que ontem desejaram a derrota do Sporting, como os que têm desejos idênticos em circunstâncias idênticas, não são portugueses normais.

Mas o edifício íntimo dessas lágrimas é só dos sportinguistas.

Também é feio querer usurpar essa intimidade. Dou o abraço, estou feliz, mas fico a admirar-vos de fora.

Se ainda não perceberam, o que eu quero realmente dizer é que as lágrimas de ontem não eram esféricas, leves, vulgares.

Eram sim o desenho interior de muitos momentos de cada homem que as chorou, salgando ali enormes pedaços mal temperados da vida, que agora são invocados e regenerados com sumo prazer.

E isso é uma coisa importante.

E porque os átomos das lágrimas não são feitos de futebol, mas de gente, deixo-os aqui lembrados, num abraço de dragão.

Esta é a verdadeira razão do tal fenómeno que trespassa o país, não olhando a classes:

Quando a bola desaparece, e ficam os homens.

A chorar gotículas desde os ferros armados em betão
E enterrados na terra do prédio que eles são.

Pedro Guilherme-Moreira, 2005-05-06

2005-04-19

OPERADO ALIENEI-ME


O corpo tem de ser deixado deserto, sem dono.

Quando escavei em mim próprio, na primeira noite branca do pós-operatório - e alvas foram muitas - , a razão de ter insistido com os meus que não queria que ninguém interferisse na minha vontade de dar entrada no hospital sozinho, de autocarro, e com a mala às costas, ainda não sabia que a resposta era essa mesma: por causa do meu corpo.

Nos últimos momentos antes da minha primeira experiência cirúrgica passiva, estacionei o carro na garagem do prédio onde moro, no topo da Avenida da República, em Gaia, e apanhei o 84 para a Boavista - uma viagem de cerca de meia-hora.
Eram sete e meia da manhã do passado dia treze.

Hoje sei que o meu desejo era não ter bengalas, não ter apoios de cotovelos, não ter por perto ninguém que me impedisse de sentir o meu corpo na plenitude.

E esse é o elemento mais marcante de todos, numa operação - a alienação do corpo.
Quem o não faz deve sofrer consideravelmente, porque nunca conseguirá simultaneamente gerir a dor física e o domínio da própria pele, que, naturalmente, deixa de ter.

Mas quem, desde o momento em que é chamado ao bloco, e lhe é dada pela enfermeira, com maior ou menor carinho, a bata sem costas que de nada protege (a subtileza do rasgo nas costas é um pormenor indigno trespassante), se abandona radicalmente, consciente de que o corpo lhe vai ser devolvido (se o for) lenta e gradualmente ao longo dos próximos dias, tem tudo para escravizar o sofrimento e hiperbolizar o sorriso impossível.

A vaidade deve agora repousar no olhar, apenas no olhar, por mais beleza que o nosso aparente tivesse até à remessa às urtigas.

O segundo dado da experiência é a alienação da consciência.
Somos legalmente drogados - foi a primeira vez que consenti que alguém me pusesse inconsciente. Esse momento, sendo o que muitos temem na teoria prévia (foi o que me aconteceu), acabou por ser para mim uma oportunidade de comédia e domínio pessoal.

Apostei com a anestesista que me ia conseguir despedir, algo muito arriscado para quem de experiente tinha nada. Ter mais de cem quilos ajudou, mas a verdade é que, àquela última e insistente pergunta da doutora, eu lá consegui o pleno ao dizer: “"Não lhe vou poder responder. Então até já!”" Vitória total.

E foi mesmo. Até dali a mais de 3 horas.
Acordei, já no Recobro, com naúseas tão intensas que, juntamente com o enterro do cateter nas costas da mão, ficaram como o troféu dos momentos mais desagradáveis desta notável experiência.

No recobro, posso bem dizer que aproveitei os meus últimos momentos de humor - algo que a droga me podia proporcionar.
Ainda sem corpo, que estava por baixo do meu pescoço algo parecido com aquele que ainda não queria reassumir, deliciei a minha esposa, intensamente preocupada, com a oscilação consciente do batimento cardíaco, ora abrandando ora acelerando a máquina - perfeitamente irresponsável, mas marca e cunho pessoal, e essencial para que a minha mulher, vítima de roubo do equilíbrio pessoal, sentisse o marido de volta.

Mesmo a mais simples operação é de uma violência dificilmente mensurável para a nossa intimidade.

Parte da vivência laboral de um hospital passa por canibalizar a fragilidade permanente que testemunham - nem todos sabem que o respeito pelo corpo abandonado de cada doente deve ser reverencial, quase sagrado.
E há mesmo alguns que, sabendo-o, fazem o culto de um qualquer sonho de comunismo empírico que eles vivem ali, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto.

Alguns clichés ficam confirmados como grandes verdades: a droga é a bengala primeira, e vai-nos sendo retirada gradualmente, o que faz com que nem sempre os primeiros dias sejam os piores. Eu diria até que os últimos antes da reconquista do corpo podem ser os mais temíveis. Primeiro acaba-se o soro, e os medicamentos via cateter. Depois acabam-se os medicamentos hospitalares, e começa uma gestão terrível da dor, que é muito pessoal, muito solitária.

Para quem quer ver o corpo regressar, eu só posso aconselhar paciência e sofrimento para que a cedência às drogas disponíveis não seja total.
Por outro lado, também posso confirmar que é algo estúpido sofrer, quando os limites dos paliativos não foram totalmente explorados.

A solidão do sofrimento é também, no meu entender, perfeitamente fundamental para o equilíbrio de cada um de nós - é na solidão que encontramos as nossas fronteiras, e só nela podemos saber o que pedir aos nossos, sem sermos nós a canibalizá-los.

E nunca devemos pedir tudo.
Aliás, devemos exigir tempo e espaço, e pedir muito pouco além disso.

E termino com a cereja em cima do bolo.

O Amor, ombro a ombro com o sofrimento, fica em carne viva, é palpável, é elemento físico percebido ali com evidência pelos cinco sentidos.

E é por isso que a única conclusão que posso tirar desta notável experiência é a de que a solidão só é útil enquanto pisamos o chão.

No espaço, a vogar, enquanto o corpo não volta (e há tantos para os quais não volta nunca), o cheiro, a mão, o olhar dos teus enclausura o sofrimento.

E é tão bom declarar o sofrimento irrelevante.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-04-19, mais ou menos de volta ao corpo

2005-04-04

E AS TUAS ASAS, ILDA?

E AS TUAS ASAS, ILDA?

Diz-me se viste, Ilda,

A luz que é branca a correr
do céu da nave
da igreja

Posta em rio vertical
Sobre o altar,

Envolvendo o teu caixão,
Como foz dos nossos medos
E do sofrimento líquido
Que parou Sábado em ti.

Tens que anos, trinta e três?
Perdoa-me a vil fraqueza
Que o punhal de mil porquês
Convoca nesta sageza
Tão vazia que é o tempo,

O indecente,
Que em cada ontem nos tira,
Que em cada agora nos mente,

E de amanhã nos mira
Sempre indiferente.

Deu-te um Outono e um Inverno,
Qual imprudente metáfora,
E tu,
transcendendo a andorinha,
partiste na Primavera.

E as tuas asas, Ilda?

Não são minutos ou metros
Lugares relógios ou passos
Odores sabores ou regaços,

Mas talvez um só composto
Que ninguém produz por cá,

E que é parte o lado puro
E outra parte a inocência
Da bondade.

Não importa, pois, a idade,

Mas apenas essa essência
Que as tuas asas são,
E onde vão.

Voando, então,
Diz-me Ilda

Para onde vais morar?

Escolhe o vento, escolhe o mar,
O olhar do teu amor,

Escolhe as tangentes à dor
Infinita dos teus pais,

Escolhe o porto, escolhe o cais,
Para atracares o navio
De cada lágrima ardente,

Escolhe a ilha, o continente,
Que vais inundar de ti,
Tu já sabes como é,
Fizeste-o divino aqui
No sorriso da bebé,

Escolhe momentos sem tempo
Se puderes, lugares sem espaço,

Para seres tu, e só tu,
Para além e aquém de um Deus.

E as tuas asas, Ilda,

Esvoaça-as

Aqui para perto de nós,
Que nós tão perto de ti.


Pedro Guilherme-Moreira
2005-04-04,
dia do funeral da nossa Ilda,
uma menina-anjo que faleceu
no dia 2 de Abril último, no IPO-Porto;

2005-03-23

RURALIDADES

RURALIDADES

A tarde espreguiça-se longa e calmamente, como se fora eu pela manhã.

Já se vem para a rua. Vestem-se os bancos de escuro e olhares distantes.

Paira no ar um cheiro de memória: esteva cozida ao sol do alentejo. Uma aragem breve traz o aroma do pão acabado de cozer, no forno que é todos e de ninguém. Fica ali entre caminhos com as casas em redor. Não pára todo o dia e toda a noite. Nunca percebi que relógio dizia as horas a estas almas para fazer o pão.

"Pão quente: muito na mão, pouco no ventre". Com isto amainavam-me a vontade de o devorar logo ali, entre bufadelas e malabarismos. Mestria era fazer o pão para a semana e bater certo com a vez de voltar a ir ao forno. Nunca às mesmas horas.

Era um momento mágico o reacender do forno. A esteva amontoada ao lado pedia meças, imponente, àquele monumento comunitário.

- Vó, faz costas!

- Está bem, guloso! Eu faço.

Uma "costa" era como um papo-seco, mas doce, mais comprido e mais baixinho. Levava azeite e canela. As extremidades eram maminhas por onde começava e terminava o prazer dos dias do pão diferente.

O luar de Agosto poupa o petróleo dos candeeiros da minha aldeia. Abrem-se agora as portas. Espera-se, em vão, que o calor saia e entre nas casas o fresco que não existe.

Dormita-se nos bancos. Por todo o lado há ralos, cigarras e grilos ao despique. Mas ninguém ouve.

- Vó-ó, posso dormir lá fora?

- Não. Vem aí o bicho!

- Ah! Qué vê o bicho!

- !

Zé Manel Ruas

2005-03-22

A AUDIÇÃO


"Guilherme Moreira. Cinco Anos. Toca ao piano "March of Gnomes", de Thompson."

Foi hoje a primeira noite em que o palco o deixou sozinho, cru.

Até ali, desde o anjo que personificara aos três anos (nessa primeira vez, chorei copiosamente no escuro da sala, por trás do fotómetro da Reflex, não sei se pela beleza encantada do meu anjo, se pelo insuportável apelo do sangue, da forma da minha forma), havia sempre alguém por perto.

Residente habitual da lua, o Guilherme supera-se sempre em palco, onde aparece concentrado e virtuoso.

Tem ares de estrela.

Nesta noite da sua primeira audição individual de piano, haveria de falhar uma só nota, retomada logo a seguir com competência, e sem que ninguém notasse.

Ninguém, excepto o pai, que lhe recebeu o sorriso sem mesura, nesse curto segundo em que lhe pressentiu a primeira solidão, a derivar para a rosca do mesmo ninho de que se afasta a cada dia.

Tinha entrado determinado pelo centro da plateia, tocando o meu ombro e acendendo sorrisos que ainda não estavam sozinhos nem infinitos.

Ao vê-lo no palco, sentado no extremo de um negro e belíssimo piano de cauda, isolei-o no centro do mundo, um pequeno círculo iluminado, de margens apagadas.

A peça era a quatro mãos.
O acompanhamento era da professora Anabela, o solo do Guilherme.

Dó Ré Dó Si Dóóó. Dóóó.
Dó Ré Dó Si Dóóó. Dóóó.

Foram dois minutos que me parceram rasgos lentos da eternidade.

Quando terminou, não pude, nunca posso, banhar o meu orgulho nos aplausos, porque estava,estou sempre, em final de colapso.

Recebi-o com a mãe num longo abraço, sem saber onde espalhar o orgulho.

O Guilherme foi o primeiro da noite, o mais novo de verdadeiros anjos que iam até aos vinte e picos anos.

Neste registo mnemónico, quero deixar riscados os nomes de outras elevadas emoções, que o futuro pode um dia confirmar, e que o meu presente agradece.

Não chegava a dez anos a Eduarda Machado, que interpretou de forma absolutamete arrasadora a Valsa op.70 numero 2, de Chopin.

Já levava vinte e tal o caso sério da noite, a Carla Quelhas, pianista inteira, que navegou, esvoaçou, eu sei lá, "Um Suspiro", de Liszt, peça tecnicamente impossível de tocar sem um pedaço de coração, e isto diz quem não sabe.

Ouvir tocar assim piano emociona. Lágrimas de dentro. E foi bom lembrar como não há como ouvi-lo ao vivo.

Pelo meio, alguns mecânicos de músicas, que desempenham uma rotina em que nada se toca, ficando-me a felicidade de um Guilherme que, mesmo que nunca seja um pianista, trata o piano com cristais de açúcar, doçura que é dele, de uma ponta à outra.

Para quem não é de Gaia, a terrinha onde tudo isto aconteceu deve soar a encanto: Vilar do Paraíso.

Pior ainda: Academia de Vilar do Paraíso. Que eu promoveria com a frase "Formamos Anjos!"

Formam mesmo.

Pedro Guilherme-Moreira
2005-03-17

CORRENDO PARA SUL QUANDO CHOVE


Quando ontem saí à rua para correr, sorri ao vê-la caindo de sul.

As pessoas costumam apenas tentar medir o meu grau de loucura por sair debaixo de temporais.

Não as costumo ouvir verbalizar a pergunta que lhes leio nos olhos: “E se...?”

E a questão é mesmo essa. Pode bem dizer-se que não se gosta ou não se quer, mas não se sabe se se gosta ou se se quer sem elemento de comparação.

Não gosto de correr, e apenas o faço porque 1) Consigo; 2) é barato; 3) é prático; 4) Não tenho outra forma de perder, em exercício, apenas meia-hora no meio de um dia de trabalho;

Mas, confesso, adoro correr para Sul quando chove.

Correr para Sul em Agosto, quando se instalou o terrível tempo que estragou as férias à maioria dos portugueses, teve outro sabor. O sabor da surpresa, de ver famílias inteiras abrigadas nas paredes norte dos bares de praia, do ar quente contra a chuva violenta, e até do risco dos detritos esvoaçantes perante ventos quase ciclónicos.

Lembro-me ainda do grato espectáculo da mini-tempestade de areia, uma espécie de manto suspenso à altura dos joelhos, que, apesar de magoar, me deu uma sensação onírica. Agradeci o privilégio de um espectáculo nunca visto. E os curiosos despojos da corrida – as pernas forradas a areia.

Ter corrido para Sul e a chover em Março, em plena seca, impôs-me Outono.
Enquanto percorria, com a cadência habitual, o passadiço de madeira, junto ao Senhor da Pedra, invadiram-me odores impróprios da estação que ora entra.

A terra molhou-se depois de meses sem água, tal como no Verão, e o cheiro a terra molhada é o mesmo dos primeiros dias de escola.
Fui acompanhado, nos últimos quilómetros, de múltiplas e empolgantes memórias de primeiros dias de escola.

Os odores são lembranças vivas e violentas.

(Lembro os primeiros odores do Verão, que o vento leste traz, e a forma como me gritam, dez anos depois, os exames de Coimbra - uma sensação desagradável que me agrada pelo contraste com a realidade, que contudo forçam com teimosia;)

De resto, em Março não há grandes surpresas, porque, à semana, mesmo com o tempo perfeito, as pessoas concentram-se nas esplanadas (quase o único ramo comercial que tem tido um ano excepcional), e deixam a praia em paz.

Essa, a praia de Inverno, é a minha praia.

Ontem, quando corri para sul, e era Março, e chovia, fi-lo numa solidão arrebatadora

e com um mar furibundo, que temos de respeitar a cada segundo, ou a espuma traiçoeira tratará da nossa ausência.

Pedro Guilherme-Moreira
2003-03-21

Perspectivas

Já hão-de ter reparado que eu só cá venho falar de futebol quando o FC Porto está na mó de baixo, se exceptuarmos a celebração do caneco da Liga dos campeões.

E faço-o por uma questão de perspectiva, já que o FC Porto, os portistas, e, numa injusta confusão, os portuenses, são sempre maltratados por causa das insignificantes derrotas de uma equipa de futebol.

Hoje, excepcionalmente, apetece-me ser prosaico e irónico.

Dei hoje comigo a cometer a asneira de ouvir comentários futebolísticos, e todos são unânimes em dizer que o FCP vai perder tudo este ano.

Ora, "tudo" é a Liga dos Campeões (que todos os outros clubes portugueses perderam sempre, neste formato dos ricos), a Taça de Portugal, a Supertaça Europeia (que todos os outros clubes portugueses perderam sempre), e, garantem já, o Campeonato Nacional, que querem já entregue com 24 pontos em disputa.

OK. Uma desgraça.

Este ano é um deserto de sucessos, pois realmente ser CAMPEãO MUNDIAL e vencedor da Supertaça Nacional é nada...

Não ganhar nada é isto.

Esperemos que à desgraça do futebol português (vice-campeão europeu e com o melhor treinador do mundo) se some a vitória do Sporting, em casa, na Taça UEFA, algo que eu considero o actual maior desígnio futebolístico nacional - e aqui não há ironia.

Resta concluir dizendo que a maior vitória do ano seria mais uma manutenção da Académica.

Para quem, reitero e repito, é portista e desportista, isto é realmente dramático.

Ah, e já agora, tambem sem ironia, parabéns ao Sporting, pela sua natural e justa vitória sobre o meu FCP, que, jogando fraco, me honrou pela entrega e abnegação de uma disputa psicologicamente muito dura - e eu, sinceramente, importo-me com esse tipo de comportamentos, e perco tempo com estas derrotas, não tirando prazer nem tempo nenhum de e para vitórias arrogantes e sobranceiras.

A tal equipa já enterrada, que, mesmo assim, lá juntou este ano, até ver, .mais dois míseros troféus à vitrine do Dragão, esse estádio malandro e embruxado:)))., onde o Gil Vicente vai já para a semana ganhar por seis a um, para gáudio de todos os que eregem a sua alegria sobre a menor graça dos outros.

Ora toma..

Perspectivas...

...o respeitinho é muito bonito...

Pedro Guilherme-Moreira
Nascido na Freguesia da Sé, PORTO, com um orgulho desmedido que nunca esmorecerá, outrora habitante nas Antas, Porto, e atleta da secção de voleibol do mesmo clube ora enterrado, onde nunca ganhou nada a nível pessoal, a não ser uma descida para a segunda divisão, no ano em que a saudosa secção de voleibol do FCP terminou;

2005-03-02


REJUDICETRATO


“Senhor Doutor Zé Miguel:

Quando eu quis esculpir-lhe o olhar

Desta palavra-cinzel,

Pediu-me para deixar


Os tiques da eternidade

Num papel amarrotado,

Que leva mais da verdade

Do que um poema calado.


Disse está bem, mas peguei

Naquela foto tremenda

Que o tem na sombra, bem sei,


E fiz-lhe aí uma emenda.

Deixo ao tempo a luz e a cor

De uma Bastonário Maior.”



Pedro Guilherme-Moreira

2005-02-26


2005-02-18

IMPROVÁVEL



É improvável que no Portugal de Fevereiro alguém seja visto na praia, na areia, correndo descalço pela espuma,

até porque correr sobre a areia é malandro para os ossos - diz o povo.

Considero mesmo praticamente impossível que alguém sujeite o seu corpo aquecido de Inverno à agressão gelada da água do mar.

É absolutamente certo que as pessoas se esquecem da sensação de veludo dos grãos a abraçar a nudez dos pés.

Sem Primavera, não existe nestes lados do mar que recebe o Douro uma perspectiva do horizonte litoral junto ao chão, pelo que não é sequer aceitável ver gente deitada no areal.

No Inverno o Sol é raro e frio.

No entanto, eu hoje fiz tudo isso.

Interrompi a minha corrida a meio, e, em pleno passadiço de madeira, sobranceiro às dunas do Senhor da Pedra, tirei as sapatilhas, depois as meias, e corri o resto junto ao sal imenso.

Não me iria lembrar por muitos meses da sensação da areia a ceder em veludo aos pés.

E, se é certo que, mesmo no fim da aventura, se desdobrou a nortada, pondo-se de pé, e que ela no Inverno é inclemente - como não o é aqui a chuva de sul, por mais violenta que venha - , não é menos certo que o momento de suprema irritação no Verão,

precisamente aquele que me faz evitar a praia,

que é sentar-me a abofetar as minhas pernas e pés, para que areia salte fora de novo,

neste dia perfeito de Inverno, com o sol quente e ante o vento quieto, depois da corrida do sal, e ali sentado na areia em cima do Mar,

foi sublime.

Ainda bem que é improvável.

Pedro Guilherme-Moreira

2005-02-12

HOJE O ZÉ MANEL PERDEU UM AMIGO


Há quem lide com a dor fazendo do silêncio o seu consolo.

Há quem viva sentindo-se melhor abrindo o livro onde as letras são todas a negro bold de uma "Word" que é de solidão - solidão vizinha da loucura. Arrepia pensar que não posso dizer ao meu amigo o presente que costumava usar.

Direi no futuro, com o passado, que me deixa saudades redobradas os momentos que vivemos e nos rimos esperando viver eternamente como os heróis que não morrem nunca.

Apetece-me chorar e na revolta só me vem à memória esta canção que não consigo cantar:

"Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado la risa, y me ha dado el llanto.
Así yo distingo dicha de quebranto,
Los dos materiales que forman mi canto,
Y el canto de ustedes que es el mismo canto."

José Manuel Ruas
2005-02-11

2005-02-05

Canivete...


Escrever é para mim como andar numa floresta de canivete em punho, marcando as ideias nas árvores.

Acontece que, um dia, há alguém que, superando a indiferença, escava na madeira mais um pouco. E isso é para mim grato, muito grato.

Arrebatamento

2005-02-03

A CAMPA DO MEU AVÔ

...aos cemitérios chamo "morada aparente"; são ponto de encontro, mas há dias arrebatadores; foi num desses dias que fui obrigado a escrever
A CAMPA DO MEU AVÔ

A campa do meu avô é branca.
Mesmo que chova é branca.

Mesmo que eu chegue atrasado,
Mesmo que o olhar me poise
Na esquina da laje dele

A alma do meu avô é branca.

Não tem letras,
Não tem nada
Que lhe perturbe a brancura.

E neste dia do ano
Senta-se ao lado do anjo
No seu fatinho cinzento,
Arrima em si o sorriso
Que lhe traz um beijo meu,
E, aconchegando o pulôver,
eis que o dinheiro aparece
Lá tira a nota de dez,
Não tendo outra ao morrer,
Passa-ma quase em segredo,
E fica ali definida
a alma do meu avô,
que é branca.
“Li o poema, rapaz,
Estava no bolso,
E a avó?”
“A avó está mais luminosa,
Já se ri, custou-lhe muito,
Perdeu a casa e a vida
De si, pedaço dela
Está aqui.”
A campa do meu avô é branca,
Como esta folha, afinal,
E nos dias de visita,
Que me confundem saudade,
Minh’alma é branca também.


Pedro Guilherme-Moreira
3 de Fevereiro de 2005

2005-02-01

COMER AUSCHWITZ

Como em relação a todos os temas históricos cuja invocação mediática se repete ciclicamente, ouço muitas vezes muita gente muito enfadada muito...

E tudo é muito em Auschwitz.

Aceitei para mim a obrigação de não ler, não observar, não empatizar... ...

mas sim engolir, comer, mastigar, digerir cada segundo, cada momento,
cada história que nos vem do tempo e se chama Auschwitz ou outra coisa parecida.

Assim, de cor funda, cinzenta sem meio tom.

Lembrar que a lei, assim, não é para cumprir, nem a ordem para acatar.

Projecto muitas vezes – com um profundo respeito pelo inferno propriamente dito – o que teria sido o meu inferno em Auschwitz.

Na teoria confortável que é distante da matéria como o longe no espaço,
asseguro ao meu próximo que não morreria num quarto de gás,

seria certamente seleccionado para trabalhar,

mas morreria breve com uma bala na cabeça, pois não é meu timbre vergar-me, nem quando um homem vergar-se quer dizer decência e amor ao futuro, a quem dele precisará.

Seria a forma de um corpo numa vala comum,
uma foto tremenda de rasgar lágrimas a pedras.

Depois lembro-me, e este é o exercício de quem se obriga a digerir Auschwitz a cada oportunidade, lembro-me, lembro-me.

Do meu filho,
Da minha mulher,
Dos meus.

Lembro-me de ter chegado a pensar sem decência que foram os cobardes que se salvaram, porque os livres não passariam mais que minutos dobrados.

E anseio a lição daquele herói que dobrou e dobrou e dobrou e chegou ao fim vivendo sobre
gente mutante como todos dessa sorte destruído,
mas passando o abraço aos dele.

Gente sobre vivendo.
Gente que nos lembra que é possível repetir Auschwitz.

Hoje anda aí num café qualquer o teórico de cada genocídio.
Há um momento em que o tipo passa com brilho a porta do poder.

Cheira a lavanda, é bonito.
E tu, o que comes Auschwitz,
E lembras e lembras,
Primeiro lambes as feridas do aborto,
fazes do tipo palhaço, ris-te do circo,
Percebes a língua, desmontas o logro.

Por um triz, salvaste seis milhões

E é assim, num segundo, em cada dia ou minuto ou curva da caixa torácica de um homem, Que comemos para lembrar.

Pedro Guilherme-Moreira 2005-01-27

2005-01-17

O INFIM (A Miguell Torga)

O INFIM

Foi num dia azul, cinzento e vermelho,
que o Belo topou, descendo em desdém,
às curvas já cem de um caminho velho,
um homem que leu pensando ninguém;

Lançou-lhe uma luz sobre o casario,
e o homem parou, por sobre um sorriso,
cheirando a visão, dos lados do rio;
“Poemas remando os barcos do siso,

O guarda desguarda a ausência do posto,
o monte está nu do andar do pastor,
e até o tal Sol tem sombras no rosto;”

E o sino falou calado o clamor:
“Que um cipreste seu de seiva nos crive.”
Nem Torga morreu, nem a morte o vive.
Pedro Guilherme-Moreira
17 de Janeiro de 1995