2004-12-29

AS VARREDEIRAS DE AREIA

(...ao tempo de as invejar...)


Vi-as no sol, de vagar

em punho, e vassoura

em siso,

um sorriso, ou mais,

as varredeiras de areia

do passadiço em madeira

das praias todas de Gaia..



Mas ontem passei correndo,

estava chovendo,

fazia vento,

era um negrume tremendo

sobre o mar, e sob o riso,

que elas não traziam posto,

parecia o tempo um desgosto,

do frio das suas feridas

vinham mirradas, varridas,

varrer a areia molhada,

as varredeiras



que passadiças choravam.



Disse varrendo esse drama

que agradecia o labor,

como se fosse de amor

cada migalha soprada,

cada corrida deixada.



Endireitaram o tronco,

Varreram o sal dos olhos,

Sorriram-me num segundo,

e possuíram o mundo



depois

varreram o chão de areia.



Pedro Guilherme-Moreira

2004-12-28

2004-12-18

POSTAL DE NATAL

Este ano lembrei-me de escrever este

POSTAL DE NATAL

É diferente o rasgão
No envelope da alma,
É diferente o borrão
Carimbado na palma

Da mão.
E um postal de Natal
Levantado nos dedos,
Tem a marca do sal
Do olhar, dos segredos,
Tem o cheiro dos medos,
E é tecido imperfeito.

Tudo o resto é igual.

E desculpa é o que peço,
De sair só do peito
Este que ora vos teço:

Nem rasgão nem Borrão,
Só ao longe um teclado,
E uma pena sem mão,
E um ecrã menos turvo,
E um texto mais curvo,
Copiado e Colado.

Será isto pecado?

Que ao menos se sinta,
Que apesar de pairar
Para cá do papel,

Esta carta sem tinta
É o meu tempo em pedaços,
Devorado a cinzel
De um bloco de abraços...

E o meu tempo não mente,
Quando digo, afinal,
O que diz toda a gente:

Bom Natal
E Feliz Ano Novo;
Renovo,
E só quero um rasgão
Feito à mão.

Pedro Guilherme-Moreira
2004-12-18