2004-11-26

NATÁLIA RECORDADA

Foi há muito tempo, mas parece que foi hoje, Natália.Um beijo azul.


CASTELO DE AREIA
(à Natália, a anónima, e a todos os passageiros vencidos da droga)


Se cavalguei por tempos
Com a cadência pedestre
De um peão adormecido
À sombra dos Mal me Queres,
Vi lesta tua montada,
Um potro alado em azul
De sorriso flutuante
E traços de sublimar.

Certa noite, pardos uivos,
Fugiste nua ao bosque
Que sabias sem finito;
Mas foi impulso bem negro,
Feita heroína das pedras,
Que te afundou no arvoredo
Que a lenda diz feito d´homens
Loucos de morte em segredo.

Ah, mas as coisas não se dizem
Em missivas perfuradas
Por um abismo de luz!

É uma merda pungente,
É uma raiva dormente!
Esquecido o entardecer,
Madrugada foste chuva...

E tu, Orvalho,
Já gelado à vez da noite,
Escorreste, em vendo o sol,
Pelas pétalas cinzentas
Dessa manhã tardia.

Nessa manhã, bem cedo,
E mais tarde do que nunca,

Perdeste.

Canalha amor que te fez
De areia,
Doce castelo.

Pedro Guilherme-Moreira
no dia da morte da minha amiga Natália;

2004-11-23

FUNDO

FUNDO

Se escolheres as marés
Que vão e vêm sem tino,
Não te esqueças que sem barco,
Bússola ou timoneiro,
A liberdade se esvai
No naufrágio mais amargo.

E ficas livre no fundo.

Se colheres um malmequer
Com folhas em número ímpar,
Vai dizendo a lengalenga,
Sem arrancar a primeira.

No dia em que fizeres isso,
Mudarás o nome à flor,
Como se fosses Deusa
Do Amor.

E nesse dia, que é tarde,
Encontras o teu sentido,
Inundas de Lua a noite,
Guardas as sombras do dia
E dás um passo
De Luz.

Talvez à espera,
Na espuma da última onda
Que veio à praia morrer,
Esteja um punhado de sal
Feito homem.

Tempera a solidão
De uma jornada à deriva
Neste barco que eu forjei
Livremente para nós.

Mas acolhe o timoneiro,
A bússola que te diz,
Sempre que os olhos se fecham,
Que, apesar de ires para Norte,
Podes escolher o Sul.

E assim és livre também
Sem naufragar.

Pedro Guilherme-Moreira
2000?

2004-11-19

AS CASAS E O MOMENTO (GAIATO/CASA PIA)

A Casa do Gaiato pode vir a revelar-se um escândalo de proporções idênticas ao da Casa Pia.

A imprensa decidirá se o deixa morrer ou não.

Mas a imprensa também decidiu, manipulada ou não, publicar agora, e apenas agora, porque temos o julgamento da outra (casa) à porta.

Eu costumo afirmar-me muito "Rousseau", porque acredito nas pessoas primeiro, e só desconto as maldades depois. É uma inocência assumida, de quem está de bem com a vida.

Ora, quanto a violência e abusos sexuais sobre crianças, há muito que decidi que o ser humano, por natureza, é desumano.
Ou seja, não poupa as crianças, e deixa-se comandar pelos seus impulsos.

Porque as pessoas podem ser boas, por natureza, mas também são cobardes.

E é por isso, e apenas por isso, que na sombra há sempre uma criança violada.

Porque, num qualquer grupo, num qualquer jantar ou almoço, numa qualquer festa, a maioria dos que estão à vista são cobardes. Sempre.

E abusariam de uma criança, se lhes apetecesse, se houvesse uma sombra, uma porta fechada, um momento de solidão.

Esta é a realidade.

O momento para sermos lembrados disso é que é escolhido por quem tem o poder, seja a imprensa, seja quem a usa.

A mim, não me fazem de palhaço.

Já estou alerta para isso há anos, e isto nada muda.

É por isso que sempre disse que nunca prescindiria do direito de beijar e/ou tocar uma criança em público, porque os impuros têm necessidade de tocar na pureza, de absorver a magia, e de assim ficar melhores, por um momento, ou para sempre.

E muito menos prescindiria da minha relação de carne com o meu filho.

Agora, os cínicos, esses, andam para aí, pelas esquinas, "escandalizados" com tudo isto.

Por amor de Deus.

Percam mais tempo a olhar no fundo dos olhos uns dos outros!

Pedro Guilherme-Moreira

2004-11-17

FUMEM, POR FAVOR

Recordo que hoje é o DIA DO NÃO FUMADOR, um dia em que, na imprensa, se fala de medidas radicais contra os fumadores, a aprovar brevemente.

Queria deixar-vos uma curta reflexão, ou melhor, meia-dúzia de frases sobre os meus quase oito meses sem fumo:

1) Noto que a maioria dos fumadores estão de tal forma "escaldados", que dificilmente concedem o benefício da dúvida a um não fumador, quando ele se dispõe a alinhar argumentos que convençam o fumador a deixar de fumar.

Tive um grande cuidado em não me aparentar com uma qualquer classe de doidos "talibans" contra o fumo (como exemplo, podem consultar, por obséquio, o que escrevi um mês e pouco depois de ter deixado de fumar -aviso que o artigo contém a palavra m... no plural:)- em http://ignorancia.blogspot.com/2004/04/o-grande-ex-fumador.html ), tendo inclusive dito a todos os amigos fumadores que o fumo não me incomodava, bem pelo contrário (o que hoje já é menos verdadeiro - não me incomoda o fumo de um cigarro, mas incomoda-me o fumo acumulado num espaço fechado;).

Ora, a questão é que nem um "ai" um ex-fumador pode dizer, pois, por regra, é liminarmente calado por esgares, quando não violentas palavras, dos fumadores.
Ou seja, o barco dos tolerantes é agora maior nos ex-fumadores do que nos fumadores.

Que, em consciência, continuam a lamentar o seu vício, mas instintivamente rejeitam qualquer palavra desfavorável ao fumo, talvez por sentirem que o cerco se fecha;

2) As medidas e os argumentos contra o fumo estão estafados, e as alternativas que se dá aos fumadores também. Parece-me que é preciso imaginação para ajudar os fumadores que querem deixar de fumar a fazê-lo.

Há quem diga que não quer deixar de fumar. Eu dizia isso.

Com sinceridade, dizia que me dava a mim próprio o prazer desse vício até aos 40 anos.
Por sorte, desceu sobre mim uma luz qualquer, que me fez ver ao espelho a figura que fazia, e considerar a dependência do que quer que fosse perfeitamente ridícula.

Nesse dia, ao aperceber-me de que a minha própria liberdade estava a ser condicionada por um mísero tubo com ervas que eu me divertia a queimar, deixei de fumar, e deixei 12 cigarros num maço de Lucky Strikes.

Mas, naquela altura, nenhum argumento me convencia de que eu devia deixar de fumar antes dos 40.

Senti sempre que, como pai, quanto mais tarde deixasse de fumar, mais provável era ter um filho fumador. Não fumava dentro de casa, mas sou culpado pela naturalidade com que o meu filho via o cigarro.

Conhecia os benefícios do acto de deixar de fumar, mas não me sentia atraído por eles.
Hoje, sentindo-os, gostava de ter espaço para comunicar aos ex-fumadores, com a paixão que sempre ponho nas coisas, o quanto vale a pena deixar o tubinho.

O estúpido é que qualquer um de nós, caso receba uma notícia má relacionada com a saúde e o tabaco, deixa de fumar na hora.

Concluo então que a maioria dos fumadores metem a cabeça debaixo da areia, fingindo que não é nada com eles. E por isso assumem alguns comportamentos quase patológicos (tal, aliás, como alguns ex-fumadores que conheço...).

Para mim, não bastou ver uma autópsia de um fumador que falecera com cancro no pulmão (e assustar-me com o estado do dito), nem ter um membro da família que morreu tragicamente de cancro na laringe (o saudoso Monteiro da Costa, craque do FCP nos anos cinquenta e sessenta), para deixar de fumar.

Foi apenas a consciência da limitação da minha liberdade por esse vício, que me fez deixá-lo na hora.

Hoje, a experiência dos dias passados sem a muleta do fumo, diz-me, com uma certeza absoluta, que o responsável pelo stress acumulado não era o trabalho em si, mas a própria convicção de precisar de fumar um cigarro para descontrair.

Tive profundas surpresas nos primeiros dias de correria, em que não senti falta do cigarro para nada, e, pelo contrário, agradeci não ter de parar para o fumar.

Faltam, pois, argumentos para ajudar os outros.
Ser do contra, ironicamente do contra, pode ser um deles.
Daí o título: Fumem, por favor.

3) Last, but not the least.

Fala-se em proibir radicalmente o fumo nos locais públicos fechados.
Obviamente, os fumadores sentem-se acossados.
Sentem os seus direitos desrespeitados.
Mas pouco se tem falado do inverso.

Um destes dias, em pleno Porto, num fim de tarde, quis, como sempre quero, fazer o balanço de uma diligência tomando café com os clientes.
Entre 3 não-fumadores, teríamos alguma alternativa?
Não, a alternativa era não tomar o café.
Mas como eu adoro os cafés do Porto, lá escolhi um.
Podia ter escolhido outro que o resultado era o mesmo.
Como se fuma em todo o lado, em todos os cafés do Porto, num fim de tarde, depois da hora do lanche, é certo e sabido que vamos a qualquer café engolir fumo em segunda mão de dezenas de cigarros.
E saímos com a garganta em frangalhos, como eu saí.

Não há alternativas.

Sempre considerara o "second hand smoking" uma mariquice, quando era eu o fumador.
Hoje, não consegui atingir ainda um patamar maduro de reflexão para expor aos fumadores como vejo a mera possibilidade de alguém que não quer fumar, ser obrigado a fazê-lo.
Vou continuar a reflectir, para que um dia o que eu diga possa ser útil ao abandono do vício pelos outros.

Seria uma imensa alegria para mim, até porque sei que, sem excepção, o ex-fumador se sente sempre compensado pela coragem da atitude que tomou: no seu corpo, e perante os outros.

Porque deixar de fumar é uma acto de grande coragem.

Abandona-se o único prazer social a que, em princípio, não se pode voltar esporadicamente.
E essa, confesso, é a minha pena: não poder violar as regras de quando em vez.
O que também é uma limitação na minha liberdade, mas virada do avesso.

Até lá, fumem, por favor.

Pedro Guilherme-Moreira