2004-09-20

A hora dos portistas

Se eu tenho centenas de eléctrodos permanentemente ligados à geografia total do meu corpo, com vista a apurar o meu verdadeiro sentido de justiça, não posso deixar de reportar à comunidade alguns dados relevantes colhidos nas – raras – horas em que essa realidade patológica chamada “Futebol” me entra pelos olhos.

Ora, ao contrário do que a maioria dos observadores externos poderão pensar, é precisamente nestes momentos (que o Gabrielário costuma apelidar de “série negra”) que me sinto melhor como portista.

Porque, sem dúvida, também é nestes momentos que se revelam os verdadeiros desportistas.

Aqueles que são adeptos do maior clube português, o “Anti-Qualquercoisa”, ficam subitamente muito faladores, bem-dispostos, cáusticos.

Os que são Pró (essencialmente pró-pessoas), são discretos, amigos, e abordam o assunto com a naturalidade e insignificância que ele merece – seja nas vitórias, seja nas derrotas, ou...nos empates.

É óbvio que a inteligência e a amizade também se fizeram para aferroar o verdadeiro amigo – quando as mordidelas têm tudo de carinhoso, e não de cínico.

Mas “vocês sabem do que estou a falar”.

E a vergonha da TV?
Quando o meu FCP ganha – e tem ganho tanto - , admito que não me é assim tão fácil detectar o exagero, que não esconde, em nada, o país que somos.

Mas o mais saboroso de tudo é a serenidade de quem é realmente portista (ou benfiquista, ou sportinguista, ou boavisteiro, ou academista;), nos maus momentos.

Porque o que esse pessoal tacanho não consegue ver é que “os verdadeiros” não trazem o clube junto ao coração por uma questão de vitórias ou derrotas.

Trazem-no por ser de si uma identidade.

Que o é, e será sempre, na primeira, na segunda ou nos distritais.

É esse “amor” que dá as vitórias: e talvez o segredo do FCP tenha sido (quase) sempre manter a coerência com esse sentimento de tantos e tantos portistas(tripeiros ou não).

Para uma pessoa que viu a sua equipa, nos últimos dois anos, ganhar tudo o que tinha para ganhar, excepto a Super-taça europeia, é risível a berraria externa e o murmúrio de descontentamento interno.

Muito barulho por nada.

Porque eu digo o que sempre disse:

Por favor percam, se isso quiser dizer ser “Porto”.

Dispenso as vitórias de uma máquina qualquer,

sem cor, sem sotaque, sem alma.

Pedro Guilherme-Moreira, 2004-09-20

2004-09-07

E SE A MORTE

É um lamento
Embrulhado no corpo

Sentimento
Que te invade de fora

Uma dor
Que disseste ser de outro,
E afinal
Tens o peito fervente,

Fogo nu ao caminho
Onde anda o menino,
Artilhando o sorriso

Que amarrou na mochila.

Cada pai traz consigo uma morte
Um terror
Um lamento
Embrulhado no corpo,

E se a morte
E se a morte
E se a morte chegar

E o sorriso escorrer

Pela lama dos dias
Roubados?

Cada vez que o menino de todos caminha
Pelo trilho que é dele
E se afasta de nós
E faz dele a mochila

Todo o pai todo o medo do mundo
Rabisca
Num esgar suspirado
Sombrio.

Mas sorri, o menino sorri;

Nós beijamos-lhe a pele,
nosso mapa dos dias,

E, fingindo, plangemos
nos gritos silentes
“Não vás. Nunca vás! Nunca vás!”

E se a morte?

Põe-se as mãos sobre a cara
Insuporta-se o tempo,
Fica-se negro

e morre-se
Também.


Pedro Guilherme-Moreira

2004-09-07

(Dedicado a todos os pais, de todas as épocas, que sentem essa dor perene pela hipótese terrível da morte de um filho, e, obviamente, aos que os perderam mesmo, três dias depois do massacre de cerca de 300 crianças, 600 pessoas, por terroristas, em Beslan, Rússia