2004-12-29

AS VARREDEIRAS DE AREIA

(...ao tempo de as invejar...)


Vi-as no sol, de vagar

em punho, e vassoura

em siso,

um sorriso, ou mais,

as varredeiras de areia

do passadiço em madeira

das praias todas de Gaia..



Mas ontem passei correndo,

estava chovendo,

fazia vento,

era um negrume tremendo

sobre o mar, e sob o riso,

que elas não traziam posto,

parecia o tempo um desgosto,

do frio das suas feridas

vinham mirradas, varridas,

varrer a areia molhada,

as varredeiras



que passadiças choravam.



Disse varrendo esse drama

que agradecia o labor,

como se fosse de amor

cada migalha soprada,

cada corrida deixada.



Endireitaram o tronco,

Varreram o sal dos olhos,

Sorriram-me num segundo,

e possuíram o mundo



depois

varreram o chão de areia.



Pedro Guilherme-Moreira

2004-12-28

2 comentários:

Anónimo disse...

Quantas vezes, como as varredeiras, não temos o sal toldando-nos os olhos em vez do brilho característico do olhar dos que cantam a vida... Quantas vezes um estagiário chega ao escritório, perdido na imensidão do Direito, e lamenta a sua ignorância, o seu receio de pedir ajuda... mas quantas vezes saboreia o sussurro do conselho de um advogado mais velho, a palmadinha nas costas dada pelo patrono transmitindo, não o saber, mas a certeza de que não vagueamos sozinhos na busca por esse saber: é esse o incalculável valor do sorriso do transeunte que passa pelas varredeiras. Um sorriso que nos lava o sal dos olhos e devolve o brilho ao olhar que contempla a imensidão da praia a percorrer.

Ass: uma mui inexperiente alma jurista

Geist disse...

Gosto muito do seu blog.

parabens