2004-11-23

FUNDO

FUNDO

Se escolheres as marés
Que vão e vêm sem tino,
Não te esqueças que sem barco,
Bússola ou timoneiro,
A liberdade se esvai
No naufrágio mais amargo.

E ficas livre no fundo.

Se colheres um malmequer
Com folhas em número ímpar,
Vai dizendo a lengalenga,
Sem arrancar a primeira.

No dia em que fizeres isso,
Mudarás o nome à flor,
Como se fosses Deusa
Do Amor.

E nesse dia, que é tarde,
Encontras o teu sentido,
Inundas de Lua a noite,
Guardas as sombras do dia
E dás um passo
De Luz.

Talvez à espera,
Na espuma da última onda
Que veio à praia morrer,
Esteja um punhado de sal
Feito homem.

Tempera a solidão
De uma jornada à deriva
Neste barco que eu forjei
Livremente para nós.

Mas acolhe o timoneiro,
A bússola que te diz,
Sempre que os olhos se fecham,
Que, apesar de ires para Norte,
Podes escolher o Sul.

E assim és livre também
Sem naufragar.

Pedro Guilherme-Moreira
2000?

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