2004-09-07

E SE A MORTE

É um lamento
Embrulhado no corpo

Sentimento
Que te invade de fora

Uma dor
Que disseste ser de outro,
E afinal
Tens o peito fervente,

Fogo nu ao caminho
Onde anda o menino,
Artilhando o sorriso

Que amarrou na mochila.

Cada pai traz consigo uma morte
Um terror
Um lamento
Embrulhado no corpo,

E se a morte
E se a morte
E se a morte chegar

E o sorriso escorrer

Pela lama dos dias
Roubados?

Cada vez que o menino de todos caminha
Pelo trilho que é dele
E se afasta de nós
E faz dele a mochila

Todo o pai todo o medo do mundo
Rabisca
Num esgar suspirado
Sombrio.

Mas sorri, o menino sorri;

Nós beijamos-lhe a pele,
nosso mapa dos dias,

E, fingindo, plangemos
nos gritos silentes
“Não vás. Nunca vás! Nunca vás!”

E se a morte?

Põe-se as mãos sobre a cara
Insuporta-se o tempo,
Fica-se negro

e morre-se
Também.


Pedro Guilherme-Moreira

2004-09-07

(Dedicado a todos os pais, de todas as épocas, que sentem essa dor perene pela hipótese terrível da morte de um filho, e, obviamente, aos que os perderam mesmo, três dias depois do massacre de cerca de 300 crianças, 600 pessoas, por terroristas, em Beslan, Rússia

2 comentários:

Anónimo disse...

Pelo q percebi, nós pensamos da mesma maneira..., eu tava pesquisando sobre o Domingo Sangrento e acabei vindo para aqui. Me manda um e-mail pra gente poder trocar umas idéias: aerosmith_4e@yahoo.com.br. Meu nome é Nelly

Anónimo disse...

E se a morte...
Que pavor senti ao olhar o sofrimento de cada pai, cada mãe...
Olhei meu filho e senti a dor que é deles que os perderam...
E se a morte...
Bloqueei meu pensamento, porque só de pensar a dor já se torna insuportável!
Ninguém estará nunca preparado para lhe ver fugir o sorriso do filho...

Susana Fernandes