2004-08-24

O SACRIFÍCIO DA FELICIDADE

Hoje apetece-me apenas sangrar a alma por décimas de segundo.

Para dizer que o que ela me diz é que está errada a novíssima ideia feita de que é impossível ser-se feliz, já depois de há séculos ter caído a convicção de que a felicidade era perfeita.

Para dizer que ser totalmente feliz não envolve a permanência perene do estado de candura e plenitude.
Para dizer que é essencial lutar pela felicidade, e que não é incoerente com ela essa necessidade de sacrifício.

Para dizer que a felicidade é uma realização, uma vitória, e não uma graça.

Para dizer que a tristeza é essencial ao feliz. Ao ser feliz. Ao estar feliz.

E se, afinal, a felicidade já não é cantada pelos poetas, não é apenas porque ela deixou de ser um conceito redondo.

É também porque, no início do século XXI, há alguns doidos que dizem que para se ser feliz, basta não estar triste de vez em quando, basta ser modesto na aceitação da vida.

Foi sempre mais fácil cantar a falsa dor hiperbolizada, do que o amor seco, feio, banal e real, que é o mais perto do divino que podemos ter.

E esse amor simples, seco, feio, banal é ela mesmo: a felicidade.

Pedro Guilherme-Moreira, 2004-08-24

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