2004-06-14

CRÓNICA DE UM PORTUGUÊS VITORIOSO

Justiça remendada, Futebol, Abstenção, Incompetência e Modorra Mental e Psicológica.

São estes os ingredientes que, misturados nas doses tradicionais, fornecem ao portuguesinho que cada um de nós é o sabor nojento de uma derrota perene.

Eu vou mostrar-vos, e para isso nem preciso de muita criatividade (muito menos de inteligência ou cultura, até porque, a última vez que conferi, não sabia se as tinha), que eu sou, nesta Segunda-feira tumultuosa, pós-Euro, pós-Eleições, pós-Mágicos, um português vitorioso.

Condição Prévia: Exercitar a psique e a cabecinha, ou seja, sair da letárgica Modorra Mental e Psicológica

1) JUSTIÇA REMENDADA - Por muito que criemos estéreis discussões sobre este tema que tem obcecado os portugueses (à falta de outro melhor...olh'aí se neste último fim-de-semana alguém falou do Carlo-Cruz-arguido-de-um-certo-processo, e olha se o mesmo não apareceu no "Público" como articulista, a dar fé ao portuguesinho...), e as deixemos a orbitar em torno do seu astro natural, que é, obviamente, o grande Planeta dos Idiotas (resta saber em que sentido o autor usar aqui "Idiotas"), já nada me afecta.

Depois de longa e aturada reflexão sobre o tema, que, apesar da minha juventude 35, já dura há quase dez anos (começou pouco antes da licenciatura em Direito, prosseguiu no exercício da advocacia, e continua na praia...), atingi a serenidade de uma conclusão preliminar, quiçá eliminatória de todas as restantes reflexões em torno dos remendos do sistema:

Este sistema, que por sua vez dura há quase um século, já não serve nem remendado.

Por isso, as propostas de remendos só são válidas mesmo para suave bate-papo e enche-pneus (se não conhecem a anedota do enche-pneus, paciência, que também a não vou contar agora). A própria ministra da Justiça verde-rubra começou, um dia destes, a sua peça jornalística de propaganda política com um "O Sistema é bom." Dada a característica e o contexto da frase, já só pude ler o restante na diagonal, e depois botei o panfleto para reciclar (saiu no DN, salvo o erro).

O que quero dizer é que só entro em discussão sobre Justiça, se estiver implícito que é necessário desconstruir o sistema.
Se não estiver, entro para dizer isso mesmo:)


2) FUTEBOL - É legítimo que o adepto nacional dos categorizados bailarinos milionárias que nos representam, tenha apenas espaço para a raiva, para a tristeza, para a contestação ou para o alento, pelo menos para justificar a bandeirinha que andou a pendurar em toda a esquina significativa da sua vida. A mim também me bateu, a tristeza digo, mas durou-me pouco.

Mas Portugal não perdeu no Sábado. E não estou a ser irónico.
Como bem dizia o director da Grande Reportagem, neste mesmo Sábado, nenhum país vencedor de um título Europeu ou Mundial teve repercussões no seu sistema político, no Turismo ou no seu prestígio mundial.
E dá o exemplo da Argentina, que, mesmo campeã mundial em 1978 e 1986, teve que gramar a ditadura e a derrota na Guerra das Malvinas. E a excelência de Buenos Aires nãos se deve, de todo, às vitórias futebolísticas, mas à alma de um povo, alma essa que, por sinal, não tem representação no seu maior astro futebolístico, que entra e sai de clínicas de recuperação, dando cabo de quase todo o brilho que um dia emanou e imanou das lágrimas de alegria dos seus compatriotas.

Como bem dizia o mesmo jornalista, o que faz Portugal já estar a vencer é o ambiente, fantástico, que se continua a viver no país, em torno desta verdadeira realização, o Euro 2004 (não se sente qualquer coisa no ar, como na Expo 98?), realização que, apesar de algum desnecessário esbanjamento de dinheiros públicos (para quê tanto Estádio?), está a demonstrar-se exemplar.
E depois são os estádios cheios, as bandeiras na rua e nos carros (se é parolice, essa parolice tem emocionado este português...) - caso único e inédito, dizem.

Ou seja, os portugueses são capazes de fazer bem, e quando o fazem exponenciam os seus feitos.
Na Expo, nem o portuguesinho cuspia para o chão, nem o portuguesinho fazia lixo de piquenique.
Era verdadeiramente impressionante, porque impressionante eram os exemplares serviços de limpeza do recinto.
Círculo Vicioso. Quando é assim, um sofismo necessário. Fundamental mesmo.

Na Expo, como no Euro, todos vestiram e vestem a camisola da organização para a qual trabalham, assalariados ou voluntários.
A produtividade laboral nos eventos associados à Expo ou ao Euro anda seguramente quase no dobro da produtividade média deste país.
Este país que, com queixas legítimas em todas as áreas (económica, social, política), quase nunca veste a camisola daquilo que produz.
E essa atitude é fundamental - é talvez a única saída - para que deixemos de ser o rabinho vibrantemente tolo do canídeo europeu.

Terminando com o tema do Europeu como jogo propriamente dito, e ainda sem qualquer ironia, não vi ninguém falar do interesse acrescido que o "escândalo" da derrota de Portugal no jogo inaugural trouxe a todo o mundo.
O ineditismo do acontecimento fez notícia até na CNN, coisa que dificilmente teria acontecido, caso Portugal tivesse ganho.

Não deve ser surpresa nenhuma que meio-mundo tenha vibrado com a vitória da Grécia. Se Portugal já é dado como favorito, tem de aguentar essa vibração menos positiva: favorito tem de perder.

Associado a essa aparente derrota, vimos um ambiente ímpar num estádio lindíssimo, ambiente que quase se repetiu, com outras cores, ontem na Luz, no dramático Inglaterra-França. E eu confesso-vos que, mesmo tendo uma costela avoenga francesa (que me faz torcer pela França, nos grandes eventos, só não a preferindo, obviamente, a Portugal), a minha alegria perante o jogo de ontem não me veio do fervor de torcedor, mas da alma de
português: um final dramático daqueles vai ser recordado por muitos anos, e é isto que faz um grande campeonato.

E já os ingleses andam a chamar "exemplares" à nossa polícia e aos nossos tribunais, por assim terem tratado dos arruaceiros que vêm causando alguns tumultos.

Afinal, somos exemplares. Não era essa mentira que queríamos que passasse lá para fora?
Voilá. Passou. Qual derrota, qual quê?

Assim é que Portugal ganhará, mesmo não erguendo a taça, como parece provável, até porque a "geração de ouro" já lá não devia estar desde 2002.


3) ABSTENÇÃO E INCOMPETÊNCIA - É imperdível a entrevista ao cientista político Manuel Meirinho, saída ontem (2004-Dia de Santo António) na "Pública".

Eu explico porquê.

Durante um bom bocado da minha vida, provavelmente sem saber bem porquê, acreditei no, e defendi o, voto em branco, e, como quase toda a gente, destratei e desprezei os abstencionistas.

Fazendo o cacique do voto-dever, posso bem dizer que, chato como sou, passei a "arrastar" uma vintena de pessoas para o acto eleitoral, não lhes dando descanso antes de me certificar que cumpriram o tal "dever".

Depois apareceu o Saramago com a mesma ideia, e eu desconfiei que alguém invadira a minha coutada, eu que tenho o irritante vício dos desalinhados.

Ontem, pela boca de um reputado especialista na matéria, consegui, uma vez mais, desconstruir-me.

Afinal, a actual abstenção portuguesa não tem nada de mau, e pode mesmo ser encarada como um fenómeno positivo, sintoma de um sistema político saudável.

Em resumo, o que se quer dizer é que um baixo nível de abstenção até pode significar uma perigosa cumplicidade do povo com o sistema político vigente (quando não significa mesmo uma ditadura ou uma oligarquia consentida).

Ao que parece, os indicadores de participação democrática portuguesa têm melhorado, e a subida dos níveis de abstenção só pode querer dizer que o actual sistema político e de partidos está a ser questionado pelo povo português, que no fundo protesta massivamente.

Ou seja, o cidadão que não vai votar, nos últimos tempos, em Portugal, toma maioritariamente uma decisão consciente, uma opção política, e não o faz por comodismo ou desinteresse.

Confesso que a leitura das palavras deste reputado cientista foi, para mim, um bálsamo, até porque não as dei como adquiridas, logo ali, à primeira leitura.
O que reparei é que, no final do dia, e após tantos e tantos ocos debates e "Especiais Eleições Europeias 2004", já me nauseavam as posturas "clássicas" sobre a abstenção, e só os novos conceitos que tinha apreendido de manhã faziam para mim sentido.

Diferente, ao que parece, deste nova visão de Abstenção, é, e para encerrar esta crónica de um português vitorioso, a INCOMPETÊNCIA E A DEMISSÃO, que, as mais das vezes, andam de braço dado.

E esses dois aeroplanos, que são quistos malignos deste povo que é o nosso, vejo-os eu a sobrevoar a consciência ou inconsciência de demasiados compatriotas, e sinto, pois, que não posso descansar um dia que seja.

E por isso me mantenho alerta, às vezes tão alerta que até me canso e abdico, por minutos.

Muitos se demitem e, naturalmente, são incompetentes (até se gabam disso).

E muitos outros são incompetentes e, por isso mesmo, se demitem ou (raramente), são demitidos.

Esses cancros são visíveis dia a dia, a cada passo percorrido nesta vida que, apesar de tudo, é belíssima.

Não tenho dúvidas de que a outra vida deste país está na guerrilha unida da lucidez, está no esforço do permanente idealismo que transportamos e transportaremos -quem quiser fazê-lo- , até ao fim dos nossos dias.

Pena que muitos dos que valem a pena digam que...já não vale a pena.

Ou se demitam também.

Porque vale a pena. Sempre.


Pedro Guilherme-Moreira
2004-06-14


PS: Sabem da última pequena luta conta a mediocridade, modéstia à parte?
Esta foi na veste de advogado (veste que, aliás, não despe).
Quem e quando tiver tempo, leia por favor esta pequena história, que pode ir um dia para a "Galeria dos Diamantes" da Justiça(se o magistrado cumprir a promessa).

Há 15 anos que, nos Juízos Criminais do Bolhão, no Porto, se notifica toda a gente (e serão às 20 audiências/secção/dia) para a mesma hora: 9:30h.
Ora, um destes dias, podendo ter ficado caladinho (já não fazia uma oficiosa há uns 3 anos), ao justificar a falta à primeira marcação, requeri ao meritíssimo que me fosse indicada, sendo possível, a hora provável do início da audiência, informando que, em dez anos, e em mais de uma centena de diligências a que comparecera naquele Tribunal, nunca começara a trabalhar antes das 11 da manhã.

A resposta do nosso caríssimo colega magistrado foi uma resposta de demissão (não ainda de incompetência, como vão ver): "A chamada é feita às 9:30h."
Só isto.

Pensei apresentar-me às 11h, avisando, claro (e curiosamente seria este o primeiro conselho do magistrado, quando o abordei pessoalmente, depois da diligência), mas considerei que isso também seria demitir-me do meu dever, em prol de uma liçãozinha pessoal e mesquinha que eu quereria dar ao magistrado e ao tribunal - era presunção a mais.

Assim, apresentei-me às 9:30h. A essa hora, informei de imediato o funcionário de que havia desistência de queixa na parte criminal, e transação no pedido cível. Queria ditar para a acta de imediato, que o senhor juiz homologaria, se assim entendesse.
- Mas... - hesita o funcionário.
- Costuma ser o juiz a ditar... adivinhei eu.
- Sim...
- Ok, não há problema; É a única transação que tem prevista hoje?
- É sim. - diz o funcionário.
- Então faça-me o favor...tente que, com a maior rapidez, subamos ao gabinete do Sr.Juiz para acabar já com isto, e as pessoas irem à vida delas.
- Pois, essa era a ideia, mas...
- O Senhor juiz ainda não chegou...? - adivinhei eu de novo (ao ouvir isto, para que vejam a imagem que isto deixa, a arguida e o ofendido começaram a rir-se, de escárnio).
- Não.
- Ok. São 9:45h, eu tenho uma diligência às 10:15h nos juízos cíveis, e não há razão nenhuma para não darmos o processo por encerrado. Veja lá o que pode fazer.

Enquanto esperava que o magistrado chegasse, prometia a mim próprio que, pela primeira vez na minha vida, havia de sair daquele tribunal antes das 11 da manhã.

O magistrado chega, apressado, às 10:10h. 40 minutos de atraso (eventualmente os mesmo que eu queria ganhar com o requerimento inicial, vejam bem).

A minha persuasão resulta. Subimos às 10:12h.

Tudo ditado, tudo combinado, as partes, excluindo o MP (que curiosamente -piada antiga- tem os seus gabinetes no próprio Tribunal), estão despachadas às 10:20h.

Eu peço alguns minutos ao colega magistrado, que acede.
Dou-lhe conta de ter sido o autor do requerimento, ele quer mostrar-me a agenda, e eu digo que já conhecia as agendas, por já ter tido alguns amigos magistrados a trabalhar naqueles mesmos juízos criminais.
Mas também disse que sabia que as coisas haviam melhorado muito com a descriminalização dos cheques pré ou pós-datados.

Pedi para que ele me permitisse dar uma sugestão séria.
Ele permitiu, simpático e bom ouvinte.
Sugeri que começasse pelos advogados, os únicos profissionais envolvidos que vinham de fora, que não trabalhavam no Tribunal, e que, nas notificações, informasse que os "Srs Advogados, não podendo responder à chamada, deviam apresentar-se na secretaria até às 10:15h, excepto se previssem que os autos podiam terminar por desistência ou transacção, caso em que deviam estar presentes, pelo menos, à segunda chamada, efectuada pelas 9:45h".

- Não é má ideia. Até posso notificar para as 10:30h...nunca comecei aqui anda antes dessa hora. - diz o juiz.

Apertando-lhe a mão, digo-lhe ainda que "caía muito bem a todos os advogados, se um dia recebessem uma notificação deste tribunal nesses termos".

- Vou fazer tudo o que posso, colega! - disse-me o senhor juiz.

A minha alma saiu de lá mais quente.

Por uma coisinha de nada, perdi uns largos minutos da minha vida pessoal e profissional.

Ou seja, não me demiti.

Abraço a todos.

PG-M

Sem comentários: