2004-02-13

O ÚLTIMO DIA DE PORTO

Está tudo em caixas.
Menos a alma.
Hoje, pela manhã, agasalhado no sol frio de Fevereiro, a viagem quase dois mil entre Valadares e o Porto não foi bem uma viagem, foi antes o rumo do meu útlimo pequeno-almoço de trabalhador da invicta, com a lentidão necessária de uma despedida, mastigando cada esquina e pormenor. Nove anos depois.
A descida de General Torres e a beleza da Ribeira a inundar os olhos.
O ferro da ponte.
A arcada do túnel.
O cinzento luminoso do infante. O palácio da Bolsa a brilhar, sob o sorriso vermelho do Ferreira Borges.
As mercearias sobreviventes da Mouzinho.
O vislumbre das Flores e os Lóios, onde me recolhi ainda estudante.
A rua proibida, as traseiras do Banco de Portugal, a Fábrica e o acesso ao Estrela e ao Aviz, onde também me licenciei.

A descida à praça, os Aliados, a fuga para Sá da Bandeira, que bonita está a minha rua.
A chegada ao escritório e a vontade incoerente de não estacionar, e de hoje andar em círculos entre o meu quarteirão, a Guedes de Azevedo, os semáforos do Silo-Auto e o quiosque do senhor que não tem quiosque e que agora trocou o velho 127 por um Smart, a descida da Rua do Bolhão e os juízos criminais ao fundo, onde ia todos os dias nos primeiros três anos. O troço largo da Firmeza, as lojas de acessórios de automóveis, e de novo Sá da Bandeira, os lanches na Deu-la-Deu, os almoços na Cunha, o escritório do 651 do Eneda, e depois este do 594, prédio altivo, porta de ferro, elevador de pérola, caixinhas do correio de rebuçado.

O meu recanto de 9,5 m2, os quadros das minhas fotos de Veneza,a Rua Guilherme Moreira, o diploma do Lopes Cardoso, o canudo ainda no chão, por pendurar, há anos, os processos amontoados com paixão e carinho, o sofá bordeaux dos acompanhantes, a cadeira dos clientes, o pó de um arrendamento acabado.

Mudo de escritório pela terceira vez, mas é a primeira vez que parto do Porto. Aqui nasci, aqui vivi, aqui estudei para não me licenciar aqui, mas em Coimbra, aqui cresci advogando nove anos.

Hoje não tenho corpo, só emoção.
Convosco, que sois um grande talhão do meu mundo e da minha vida de hoje, a partilho.

Agora, com vossa licença e um grande sorriso pelo amanhã, vou voltar às caixas e caixotes.

Certo de que virei à minha cidade mais alguns milhares de vezes, não será ao meu recanto, onde sempre repousei nas noites de S.João. Agora, bem feita, fico apeado, como o povo todo.

Quis apenas fotografar este momento, o útlimo momento em que este pequeno rectângulo ainda é um escritório.

Pronto. Agora já não é. Olá Valadares.

Pedro Guilherme-Moreira, 2004-02-13
certo da melhor sorte, nesta Sexta-Feira 13:)))

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