2004-01-29

MARIA REMENDA VALDÁGUA DE PANO

Filtro na cinza cadente
a estrela fumada em silêncio

Cai devagar no cinzeiro
a tela dos dias, e o fumo
atravessa a figura
de pano, que a carne
do tempo nos traz
numa curva dos lábios

Perdoem-me a ofensa os poetas!

Eu queria dizer, afinal,
que Maria fumava um cigarro
sorrindo.

E pintava,
e esse quadro suspenso
me parecia a pureza infinita
daquela boneca de pano
que a mãe remendava,
e punha depois
na cadeira,

e a boneca, apesar
dos remendos
dos dias,

era sempre aos meus olhos bonita
era sempre aos meus olhos perfeita

Pedro Guilherme-Moreira
19 de Janeiro de 2004

A uma amiga que não merecia tão pouco...

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