2004-01-17

A CULPA DOS INOCENTES

Senhor psicólogo:

Desde a primeira hora que entrei no seu consultório, o senhor viu bem que eu não queria falar daquele assunto que o senhor percebeu logo qual era porque eu me mexia muito na cadeira , baixava a cabeça sempre que a conversa derivava para aí e era, como disse, dado a poucas falas.Mas o senhor lá conseguiu que eu contasse o que tinha acontecido a mim e depois outros meninos também contaram e ficamos todos mais aliviados. Eu passei a dormir melhor e até parece que já não tinha culpa do que me tinha sucedido e estava a perder o medo . O senhor , os da polícia e os do tribunal garantiram-me que eu era uma testemunha sob protecção e que eles já não me podiam fazer mais mal que aquele que me tinham feito. O que o senhor não percebia – e a maior parte das pessoas não percebe – é porque demorou tanto tempo a saber-se , mas eu acho que está bom de ver que muitas pessoas sabiam e não quiseram saber por sermos crianças do Estado e por estar metida gente no assunto com muita influência e muito dinheiro.

Senhor psicólogo: Lembra-se daquele dia , na véspera de sermos ouvidos para o futuro? Estávamos nervosos porque nos iam apertar no tribunal : diz o dia, diz a hora , o ano, o nome da rua, o número da porta e coisas parecidas para nos baralhar.. Ficamos à espera aquele tempo todo escondidos como se fossemos nós os bandidos e depois não fomos ouvidos porque disseram que o juiz era parcial – ou imparcial, já não sei nem percebo nada .

Olhe, senhor psicólogo, eu até chorei quando começaram a dizer que nós somos prostitutos no Parque e que isso nos tira a razão toda.E também tira o crime que nos fizeram ? Olhe, eu até já não quero saber da televisão que só falam do caso e todos os dias há uma coisa nova para deitar abaixo o processo.E os debates que se fazem é só para lançar mais confusão e pôr as pessoas a desconfiar se não é tudo mentira .Olhe, aqueles que nos defenderam também são atacados e sei que há pessoas que sabem de outros casos mas que já não vão meter-se nisto. Na televisão só se fala nos arguidos, nos direitos deles e até parece que nós não temos nenhuns. Há uma senhora que é procuradora que nos defende, mas acho que não gostam muito da conversa dela .Nós não temos advogado para aparecer na televisão e esclarecer as pessoas. Percebe agora, senhor psicólogo ,porque me calei? Soube daquele caso do menino dos Açores que se enforcou? O outro menino não ficou meio marado da cabeça? Mas esse ainda tem sorte que tem mãe do lado dele.

Eu queria que isto acabasse depressa para tirar o pensamento do assunto.Não sai.
Só faltava mesmo aquela senhora da América vir cá dizer que é perita de testemunhos falsos e que fomos nós que inventamos tudo para termos auto estima e sermos célebres. E que nos fizeram um implante no cérebro de coisas que nunca existiram. Sabe, senhor psicólogo, o que eu queria mesmo era um implante que mas tirasse da cabeça.
Venho comunicar que estou farto disto tudo. Vou fugir. Não sei para onde . Estou farto de sofrer multiplicado.

Luísa Novo Vaz
Viana do Castelo, 10 de Janeiro de 2004

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