2004-12-29

AS VARREDEIRAS DE AREIA

(...ao tempo de as invejar...)


Vi-as no sol, de vagar

em punho, e vassoura

em siso,

um sorriso, ou mais,

as varredeiras de areia

do passadiço em madeira

das praias todas de Gaia..



Mas ontem passei correndo,

estava chovendo,

fazia vento,

era um negrume tremendo

sobre o mar, e sob o riso,

que elas não traziam posto,

parecia o tempo um desgosto,

do frio das suas feridas

vinham mirradas, varridas,

varrer a areia molhada,

as varredeiras



que passadiças choravam.



Disse varrendo esse drama

que agradecia o labor,

como se fosse de amor

cada migalha soprada,

cada corrida deixada.



Endireitaram o tronco,

Varreram o sal dos olhos,

Sorriram-me num segundo,

e possuíram o mundo



depois

varreram o chão de areia.



Pedro Guilherme-Moreira

2004-12-28

2004-12-18

POSTAL DE NATAL

Este ano lembrei-me de escrever este

POSTAL DE NATAL

É diferente o rasgão
No envelope da alma,
É diferente o borrão
Carimbado na palma

Da mão.
E um postal de Natal
Levantado nos dedos,
Tem a marca do sal
Do olhar, dos segredos,
Tem o cheiro dos medos,
E é tecido imperfeito.

Tudo o resto é igual.

E desculpa é o que peço,
De sair só do peito
Este que ora vos teço:

Nem rasgão nem Borrão,
Só ao longe um teclado,
E uma pena sem mão,
E um ecrã menos turvo,
E um texto mais curvo,
Copiado e Colado.

Será isto pecado?

Que ao menos se sinta,
Que apesar de pairar
Para cá do papel,

Esta carta sem tinta
É o meu tempo em pedaços,
Devorado a cinzel
De um bloco de abraços...

E o meu tempo não mente,
Quando digo, afinal,
O que diz toda a gente:

Bom Natal
E Feliz Ano Novo;
Renovo,
E só quero um rasgão
Feito à mão.

Pedro Guilherme-Moreira
2004-12-18

2004-11-26

NATÁLIA RECORDADA

Foi há muito tempo, mas parece que foi hoje, Natália.Um beijo azul.


CASTELO DE AREIA
(à Natália, a anónima, e a todos os passageiros vencidos da droga)


Se cavalguei por tempos
Com a cadência pedestre
De um peão adormecido
À sombra dos Mal me Queres,
Vi lesta tua montada,
Um potro alado em azul
De sorriso flutuante
E traços de sublimar.

Certa noite, pardos uivos,
Fugiste nua ao bosque
Que sabias sem finito;
Mas foi impulso bem negro,
Feita heroína das pedras,
Que te afundou no arvoredo
Que a lenda diz feito d´homens
Loucos de morte em segredo.

Ah, mas as coisas não se dizem
Em missivas perfuradas
Por um abismo de luz!

É uma merda pungente,
É uma raiva dormente!
Esquecido o entardecer,
Madrugada foste chuva...

E tu, Orvalho,
Já gelado à vez da noite,
Escorreste, em vendo o sol,
Pelas pétalas cinzentas
Dessa manhã tardia.

Nessa manhã, bem cedo,
E mais tarde do que nunca,

Perdeste.

Canalha amor que te fez
De areia,
Doce castelo.

Pedro Guilherme-Moreira
no dia da morte da minha amiga Natália;

2004-11-23

FUNDO

FUNDO

Se escolheres as marés
Que vão e vêm sem tino,
Não te esqueças que sem barco,
Bússola ou timoneiro,
A liberdade se esvai
No naufrágio mais amargo.

E ficas livre no fundo.

Se colheres um malmequer
Com folhas em número ímpar,
Vai dizendo a lengalenga,
Sem arrancar a primeira.

No dia em que fizeres isso,
Mudarás o nome à flor,
Como se fosses Deusa
Do Amor.

E nesse dia, que é tarde,
Encontras o teu sentido,
Inundas de Lua a noite,
Guardas as sombras do dia
E dás um passo
De Luz.

Talvez à espera,
Na espuma da última onda
Que veio à praia morrer,
Esteja um punhado de sal
Feito homem.

Tempera a solidão
De uma jornada à deriva
Neste barco que eu forjei
Livremente para nós.

Mas acolhe o timoneiro,
A bússola que te diz,
Sempre que os olhos se fecham,
Que, apesar de ires para Norte,
Podes escolher o Sul.

E assim és livre também
Sem naufragar.

Pedro Guilherme-Moreira
2000?

2004-11-19

AS CASAS E O MOMENTO (GAIATO/CASA PIA)

A Casa do Gaiato pode vir a revelar-se um escândalo de proporções idênticas ao da Casa Pia.

A imprensa decidirá se o deixa morrer ou não.

Mas a imprensa também decidiu, manipulada ou não, publicar agora, e apenas agora, porque temos o julgamento da outra (casa) à porta.

Eu costumo afirmar-me muito "Rousseau", porque acredito nas pessoas primeiro, e só desconto as maldades depois. É uma inocência assumida, de quem está de bem com a vida.

Ora, quanto a violência e abusos sexuais sobre crianças, há muito que decidi que o ser humano, por natureza, é desumano.
Ou seja, não poupa as crianças, e deixa-se comandar pelos seus impulsos.

Porque as pessoas podem ser boas, por natureza, mas também são cobardes.

E é por isso, e apenas por isso, que na sombra há sempre uma criança violada.

Porque, num qualquer grupo, num qualquer jantar ou almoço, numa qualquer festa, a maioria dos que estão à vista são cobardes. Sempre.

E abusariam de uma criança, se lhes apetecesse, se houvesse uma sombra, uma porta fechada, um momento de solidão.

Esta é a realidade.

O momento para sermos lembrados disso é que é escolhido por quem tem o poder, seja a imprensa, seja quem a usa.

A mim, não me fazem de palhaço.

Já estou alerta para isso há anos, e isto nada muda.

É por isso que sempre disse que nunca prescindiria do direito de beijar e/ou tocar uma criança em público, porque os impuros têm necessidade de tocar na pureza, de absorver a magia, e de assim ficar melhores, por um momento, ou para sempre.

E muito menos prescindiria da minha relação de carne com o meu filho.

Agora, os cínicos, esses, andam para aí, pelas esquinas, "escandalizados" com tudo isto.

Por amor de Deus.

Percam mais tempo a olhar no fundo dos olhos uns dos outros!

Pedro Guilherme-Moreira

2004-11-17

FUMEM, POR FAVOR

Recordo que hoje é o DIA DO NÃO FUMADOR, um dia em que, na imprensa, se fala de medidas radicais contra os fumadores, a aprovar brevemente.

Queria deixar-vos uma curta reflexão, ou melhor, meia-dúzia de frases sobre os meus quase oito meses sem fumo:

1) Noto que a maioria dos fumadores estão de tal forma "escaldados", que dificilmente concedem o benefício da dúvida a um não fumador, quando ele se dispõe a alinhar argumentos que convençam o fumador a deixar de fumar.

Tive um grande cuidado em não me aparentar com uma qualquer classe de doidos "talibans" contra o fumo (como exemplo, podem consultar, por obséquio, o que escrevi um mês e pouco depois de ter deixado de fumar -aviso que o artigo contém a palavra m... no plural:)- em http://ignorancia.blogspot.com/2004/04/o-grande-ex-fumador.html ), tendo inclusive dito a todos os amigos fumadores que o fumo não me incomodava, bem pelo contrário (o que hoje já é menos verdadeiro - não me incomoda o fumo de um cigarro, mas incomoda-me o fumo acumulado num espaço fechado;).

Ora, a questão é que nem um "ai" um ex-fumador pode dizer, pois, por regra, é liminarmente calado por esgares, quando não violentas palavras, dos fumadores.
Ou seja, o barco dos tolerantes é agora maior nos ex-fumadores do que nos fumadores.

Que, em consciência, continuam a lamentar o seu vício, mas instintivamente rejeitam qualquer palavra desfavorável ao fumo, talvez por sentirem que o cerco se fecha;

2) As medidas e os argumentos contra o fumo estão estafados, e as alternativas que se dá aos fumadores também. Parece-me que é preciso imaginação para ajudar os fumadores que querem deixar de fumar a fazê-lo.

Há quem diga que não quer deixar de fumar. Eu dizia isso.

Com sinceridade, dizia que me dava a mim próprio o prazer desse vício até aos 40 anos.
Por sorte, desceu sobre mim uma luz qualquer, que me fez ver ao espelho a figura que fazia, e considerar a dependência do que quer que fosse perfeitamente ridícula.

Nesse dia, ao aperceber-me de que a minha própria liberdade estava a ser condicionada por um mísero tubo com ervas que eu me divertia a queimar, deixei de fumar, e deixei 12 cigarros num maço de Lucky Strikes.

Mas, naquela altura, nenhum argumento me convencia de que eu devia deixar de fumar antes dos 40.

Senti sempre que, como pai, quanto mais tarde deixasse de fumar, mais provável era ter um filho fumador. Não fumava dentro de casa, mas sou culpado pela naturalidade com que o meu filho via o cigarro.

Conhecia os benefícios do acto de deixar de fumar, mas não me sentia atraído por eles.
Hoje, sentindo-os, gostava de ter espaço para comunicar aos ex-fumadores, com a paixão que sempre ponho nas coisas, o quanto vale a pena deixar o tubinho.

O estúpido é que qualquer um de nós, caso receba uma notícia má relacionada com a saúde e o tabaco, deixa de fumar na hora.

Concluo então que a maioria dos fumadores metem a cabeça debaixo da areia, fingindo que não é nada com eles. E por isso assumem alguns comportamentos quase patológicos (tal, aliás, como alguns ex-fumadores que conheço...).

Para mim, não bastou ver uma autópsia de um fumador que falecera com cancro no pulmão (e assustar-me com o estado do dito), nem ter um membro da família que morreu tragicamente de cancro na laringe (o saudoso Monteiro da Costa, craque do FCP nos anos cinquenta e sessenta), para deixar de fumar.

Foi apenas a consciência da limitação da minha liberdade por esse vício, que me fez deixá-lo na hora.

Hoje, a experiência dos dias passados sem a muleta do fumo, diz-me, com uma certeza absoluta, que o responsável pelo stress acumulado não era o trabalho em si, mas a própria convicção de precisar de fumar um cigarro para descontrair.

Tive profundas surpresas nos primeiros dias de correria, em que não senti falta do cigarro para nada, e, pelo contrário, agradeci não ter de parar para o fumar.

Faltam, pois, argumentos para ajudar os outros.
Ser do contra, ironicamente do contra, pode ser um deles.
Daí o título: Fumem, por favor.

3) Last, but not the least.

Fala-se em proibir radicalmente o fumo nos locais públicos fechados.
Obviamente, os fumadores sentem-se acossados.
Sentem os seus direitos desrespeitados.
Mas pouco se tem falado do inverso.

Um destes dias, em pleno Porto, num fim de tarde, quis, como sempre quero, fazer o balanço de uma diligência tomando café com os clientes.
Entre 3 não-fumadores, teríamos alguma alternativa?
Não, a alternativa era não tomar o café.
Mas como eu adoro os cafés do Porto, lá escolhi um.
Podia ter escolhido outro que o resultado era o mesmo.
Como se fuma em todo o lado, em todos os cafés do Porto, num fim de tarde, depois da hora do lanche, é certo e sabido que vamos a qualquer café engolir fumo em segunda mão de dezenas de cigarros.
E saímos com a garganta em frangalhos, como eu saí.

Não há alternativas.

Sempre considerara o "second hand smoking" uma mariquice, quando era eu o fumador.
Hoje, não consegui atingir ainda um patamar maduro de reflexão para expor aos fumadores como vejo a mera possibilidade de alguém que não quer fumar, ser obrigado a fazê-lo.
Vou continuar a reflectir, para que um dia o que eu diga possa ser útil ao abandono do vício pelos outros.

Seria uma imensa alegria para mim, até porque sei que, sem excepção, o ex-fumador se sente sempre compensado pela coragem da atitude que tomou: no seu corpo, e perante os outros.

Porque deixar de fumar é uma acto de grande coragem.

Abandona-se o único prazer social a que, em princípio, não se pode voltar esporadicamente.
E essa, confesso, é a minha pena: não poder violar as regras de quando em vez.
O que também é uma limitação na minha liberdade, mas virada do avesso.

Até lá, fumem, por favor.

Pedro Guilherme-Moreira

2004-10-19

IDANHA


toda a Idanha está

calada na terra
no rochedo sagrado
no lago benzido
na erva amarela
erguida

nos braços

toda a Idanha é corpo
comum,
rosmaninho

caminho
a nascer dos pés

se chego,
sou
se parto, fico,

não sei se se reza,
se se chora,
se se escreve ou se se diz,
mas sei cá que estou inteiro,
plano,

e por ser plano ouço
a cova na madrugada,
o equilíbrio raso
do nada
que é aprumado sem prumo
em ângulo recto
com todo o resto
do chão.


Pedro Guilherme-Moreira
11 de Outubro de 2004,
por uma Idanha descoberta quase à nascença, primeiro na raia de Monfortinho, depois na barragem Marechal Carmona, num certo bungalow de um certo parque de uma certa albufeira

2004-09-20

A hora dos portistas

Se eu tenho centenas de eléctrodos permanentemente ligados à geografia total do meu corpo, com vista a apurar o meu verdadeiro sentido de justiça, não posso deixar de reportar à comunidade alguns dados relevantes colhidos nas – raras – horas em que essa realidade patológica chamada “Futebol” me entra pelos olhos.

Ora, ao contrário do que a maioria dos observadores externos poderão pensar, é precisamente nestes momentos (que o Gabrielário costuma apelidar de “série negra”) que me sinto melhor como portista.

Porque, sem dúvida, também é nestes momentos que se revelam os verdadeiros desportistas.

Aqueles que são adeptos do maior clube português, o “Anti-Qualquercoisa”, ficam subitamente muito faladores, bem-dispostos, cáusticos.

Os que são Pró (essencialmente pró-pessoas), são discretos, amigos, e abordam o assunto com a naturalidade e insignificância que ele merece – seja nas vitórias, seja nas derrotas, ou...nos empates.

É óbvio que a inteligência e a amizade também se fizeram para aferroar o verdadeiro amigo – quando as mordidelas têm tudo de carinhoso, e não de cínico.

Mas “vocês sabem do que estou a falar”.

E a vergonha da TV?
Quando o meu FCP ganha – e tem ganho tanto - , admito que não me é assim tão fácil detectar o exagero, que não esconde, em nada, o país que somos.

Mas o mais saboroso de tudo é a serenidade de quem é realmente portista (ou benfiquista, ou sportinguista, ou boavisteiro, ou academista;), nos maus momentos.

Porque o que esse pessoal tacanho não consegue ver é que “os verdadeiros” não trazem o clube junto ao coração por uma questão de vitórias ou derrotas.

Trazem-no por ser de si uma identidade.

Que o é, e será sempre, na primeira, na segunda ou nos distritais.

É esse “amor” que dá as vitórias: e talvez o segredo do FCP tenha sido (quase) sempre manter a coerência com esse sentimento de tantos e tantos portistas(tripeiros ou não).

Para uma pessoa que viu a sua equipa, nos últimos dois anos, ganhar tudo o que tinha para ganhar, excepto a Super-taça europeia, é risível a berraria externa e o murmúrio de descontentamento interno.

Muito barulho por nada.

Porque eu digo o que sempre disse:

Por favor percam, se isso quiser dizer ser “Porto”.

Dispenso as vitórias de uma máquina qualquer,

sem cor, sem sotaque, sem alma.

Pedro Guilherme-Moreira, 2004-09-20

2004-09-07

E SE A MORTE

É um lamento
Embrulhado no corpo

Sentimento
Que te invade de fora

Uma dor
Que disseste ser de outro,
E afinal
Tens o peito fervente,

Fogo nu ao caminho
Onde anda o menino,
Artilhando o sorriso

Que amarrou na mochila.

Cada pai traz consigo uma morte
Um terror
Um lamento
Embrulhado no corpo,

E se a morte
E se a morte
E se a morte chegar

E o sorriso escorrer

Pela lama dos dias
Roubados?

Cada vez que o menino de todos caminha
Pelo trilho que é dele
E se afasta de nós
E faz dele a mochila

Todo o pai todo o medo do mundo
Rabisca
Num esgar suspirado
Sombrio.

Mas sorri, o menino sorri;

Nós beijamos-lhe a pele,
nosso mapa dos dias,

E, fingindo, plangemos
nos gritos silentes
“Não vás. Nunca vás! Nunca vás!”

E se a morte?

Põe-se as mãos sobre a cara
Insuporta-se o tempo,
Fica-se negro

e morre-se
Também.


Pedro Guilherme-Moreira

2004-09-07

(Dedicado a todos os pais, de todas as épocas, que sentem essa dor perene pela hipótese terrível da morte de um filho, e, obviamente, aos que os perderam mesmo, três dias depois do massacre de cerca de 300 crianças, 600 pessoas, por terroristas, em Beslan, Rússia

2004-08-31

SINTO MUITO, JOÃO LUÍS

(muitas vezes respiro com a ponta dos dedos. Teclo lágrimas. A notícia da morte do João Luís Lopes dos Reis ofereceu-me uma noite em branco. Também me apeteceu o silêncio, mas o respeito é o mesmo com estas palavras, que não consegui evitar.)

Muitos amigos, mas principalmente inimigos, me desaconselhariam a escrever sobre -muito menos para- o João Luís Lopes dos Reis, meu colega advogado.

Mas mesmo que a minha pena seja infame, mais infame é a madrugada longa que a sua súbita e inesperada morte me trouxe.

Há pessoas que, até por pudor, prefeririam calar-se, pura e simplesmente calar-se.

Eu, e por isso peço desculpa, nunca.

Nao sei ser hipócrita.

Respeito que valha a muitos, mas o silêncio de nada me vale a mim, neste momento.

Acredito bem que uma morte destas não pode servir para nada, mas serviu-me a mim para, mais do que nunca, perceber ainda melhor como podem ser fúteis os motivos que levam as pessoas a virar costas umas às outras.

Acima de tudo, serviu-me para confirmar que nem sempre é o amigo do peito que nos forma, e informa, um modo de ser.

Hoje só me lembro de um dia ter estado parado à porta do seu escritório, hesitando subir para o convidar para um café.
Até era provável que o João Luís não me recebesse.
Mas eu também não sentiria o arrependimento que sinto agora.
E teria tomado esse café, nem que fosse sozinho, a vociferar contra ele, como tantas vezes fiz.

E quantas vezes o fiz, quantos passos dei à frente.

Colando diversos pedaços a reluzir o seu sorriso, compondo com as palavras que os seus amigos sempre lhe guardaram, estou hoje certo de que me receberia com um sorriso, e, entre uma ou outra piada certeira, desdramatizaria de imediato episódios menos felizes que protagonizei.

Cada vez mais estou mais convencido de que devemos ceder (sempre, ou quase sempre) aos nossos impulsos positivos.

Mesmo que isso signifique, aparentemente (sempre aparentemente), que na altura estamos a conceder na nossa dignidade.

O Joao Luis era brutal.
Brutal no seu brilhantismo intelectual, e também brutal nas palavras que muitas vezes escolhia para o expressar.

Estranhamente, contudo, o efeito produzido pelo que dizia, mesmo quando se enganava, era sempre positivo no longo prazo.

Aconteceu comigo.

Afinal, ele foi o único de quem guardei praticamente todas as mensagens da Ciber.

O que a seguir vou dizer é uma sobre-exposição da minha intimidade.
Hesitei fazê-lo, mas a memória deste Homem nao se compadece com estas dúvidas menores, nem com o fútil receio de ser mal interpretado pelos meus amigos.

O João Luís Lopes dos Reis é o principal responsável pelo que posso ter crescido no último ano.

Como ponto ou contraponto, o João Luis estacionou na minha alma como uma referência, algo que não me acontecia desde a adolescência, em que esse papel era desempenhado pelo meu pai.

Pode parecer desproporcionado dizê-lo hoje, e até estranhamente adequado à ocasião.
Mas asseguro-vos que vem das entranhas, não da oportunidade, e sabe-o quem me conhece bem.

Sempre tentei ser exigente comigo próprio, mas desde que me cruzei com o João Luis, essa bitola foi elevada em muitos pontos.

Nao sei se algum dia conseguiria ser seu amigo (desconfio bem que sim), mas devo-lhe este agradecimento, que, sendo agora público, não é póstumo.

Ao menos aí, tive a sorte de trocar com ele, há poucas semanas, algumas palavras pacificadoras, e de saber, por uma amiga comum, que afinal ele não duvidava da minha essência, por mais que sentisse uma natural antipatia pela aparência.

Nós, os homens, somos um pouco assim.
Nem só no estádio insultamos o árbitro.

Penso que eu e o João Luís teremos sido, numa determinada altura, saco de boxe um do outro.

O que hoje, sinceramente, só me honra, porque sei como ele não era muito dado a perder tempo.
E em nada me perturba.

A vida é mesmo assim.

Se, na altura, houve sofrimento de parte a parte, tudo acabou naturalmente sanado.
Como deve ser.

O tempo deve fluir para reduzir ou engrandecer o que nos pousa no corpo.
E ao ser violenta assim, a vida só nos ensina a não perder esse tempo com insustentáveis levezas.

Uma coisa é certa:

Depois de tantas pegas, externas e internas, com ele e comigo, carimbos dos nossos dias e das nossas noites, sei que vou ter saudades, muitas saudades, do João Luís Lopes dos Reis.

A última certeza é a de que ele nos está a ler a todos, sem conseguir evitar a lagrimazita que sempre transformou em riso.

Depois da surpresa de confirmar a sua existência, em que dizia não crer, tem agendados alguns debates com Deus e com os santos, debates duros e densos.

Próprios de uma justiça superior, que sempre almejou em terra, e com que agora convive algures.

Antes era só um Homem, hoje mistura-se com os astros.

Pedro Guilherme-Moreira
2004-08-30




2004-08-27

O comodismo do Trabalho

Dizer que se trabalha, ou tem de se trabalhar, também é cómodo, para muitos;
Deixar-se ficar preso ao trabalho, também pode ser comodismo;

Ganhar espaço para o que é essencial na nossa vida, exige sacrifício.

Para mim, era mais cómodo ficar a trabalhar de sol a sol.
Não é o que faço.
Todos os dias faço um tremendo sacrifício para ganhar espaço para os meus, mais até do que para mim.

Tudo somado, é um prazer viver assim.

Claro que este raciocínio só se pode aplicar a quem tem a independência para gerir o seu tempo.

Pedro Guilherme-Moreira, 2004-08-27

2004-08-24

O SACRIFÍCIO DA FELICIDADE

Hoje apetece-me apenas sangrar a alma por décimas de segundo.

Para dizer que o que ela me diz é que está errada a novíssima ideia feita de que é impossível ser-se feliz, já depois de há séculos ter caído a convicção de que a felicidade era perfeita.

Para dizer que ser totalmente feliz não envolve a permanência perene do estado de candura e plenitude.
Para dizer que é essencial lutar pela felicidade, e que não é incoerente com ela essa necessidade de sacrifício.

Para dizer que a felicidade é uma realização, uma vitória, e não uma graça.

Para dizer que a tristeza é essencial ao feliz. Ao ser feliz. Ao estar feliz.

E se, afinal, a felicidade já não é cantada pelos poetas, não é apenas porque ela deixou de ser um conceito redondo.

É também porque, no início do século XXI, há alguns doidos que dizem que para se ser feliz, basta não estar triste de vez em quando, basta ser modesto na aceitação da vida.

Foi sempre mais fácil cantar a falsa dor hiperbolizada, do que o amor seco, feio, banal e real, que é o mais perto do divino que podemos ter.

E esse amor simples, seco, feio, banal é ela mesmo: a felicidade.

Pedro Guilherme-Moreira, 2004-08-24

2004-08-02

AFONSO por carreiros e ladeiras

(Pelo nascimento do filho de um amigo, muito esperado, e anunciado com grande pompa à comunidade Forlegis)

AFONSO por carreiros e ladeiras

No espaço vago da amizade
Que levamos em circuitos
E nos sulcos dos ecrãs

Houve uma espécie de amigo
que são muitos e nenhum
que adivinhou em silêncio
uma curva na barriga

como se fosse
um carreiro interminável
para esta carta
sem papel

Sem papel
revelámos-te a emoção
que em cada espaço cresceu

e, nesta sala comum,
demarcada em cada olhar,
foi detonada a brilhar

mesmo nas lágrimas tácitas,
pai Nuno
mãe Coragem

Afonso em ti, apesar
da beleza te deixar
uma forma mais divina,

vai descendo esta ladeira
vem a nós a vida inteira

ser amado
e lambuzado:)

foi o teu herói que quis
ao esquecer-te no colo

da essência do Forlegis.

Pedro Guilherme-Moreira

(...com a licença de todos os forlegistas,
no primeiro poema comunitário...)

2 de Agosto de 2004

2004-07-23

EPPUR,SI MUOVE (A Carlos Paredes)

Cá feito Deus,
Tempo demais teve em carne
Uma Estátua de si próprio

No longo fado incoerente.

Agora toca outra vez.

Neste dia, acordei corda
Na guitarra de Paredes.

Véspera adentro, o lamento
Em perpétuo movimento
Penetrara-me na alma,
E,
Em inquietude calma,

Dedilhara-me a chorar.

Deixem-me estar

Na Guitarra,
Enquanto o Carlos agarra

Cumulonimbos
Enfim.

Pedro Guilherme-Moreira,
2004-07-23

2004-07-15

A PARVA ÉPOCA

Na panela da minha reflexão junto:

- O já costumeiro e sazonal jogo de ténis de mesa entre o Bastonário da Ordem dos Advogados, que é meu, e o Conselheiro Noronha do Nascimento (C.N.N., vejam só!), que não é, não por ser juiz (que esses são quase todos meus), mas por aparentar mesquinhez e infantilidade (características que não posso confirmar, por não ter uma correcta capacidade de avaliação - afinal, sou um reles advogado de primeira instância!), como a época que ora começa;
- O facto de eu já ter gozado duas semanas de férias;
- O facto de a maioria das pessoas não terem gozado nem uma semana férias;

Com estes mágicos ingredientes, pretendo reflectir de forma supersónica sobre a Parva Época, marcada todos os anos para começar a 15 de Julho e acabar a 15 de Setembro.

Constato, dado o artigo do C.N.N. no Público de anteontem (o tal da pirotecnia), que a Parva Época começou mais cedo.

E a verdade é que, depois de ler o artigo do C.N.N., pensei cá para mim (pensamento íntimo que vou revelar excepcionalmente):

" - Não é que eu me estou positivamente c... (palavra que começa em c, e acaba em "agando") para o que o ilustríssimo Conselheiro aqui escreve?"

E esta reacção não é me é muito comum.

Tive então de reflectir.

Fui assaltado subitamente por esta reacção íntima porque não quero saber das queixinhas de um homem crescido, nem dos temas abordados de forma superficial (o defensor público, a formação comum no Foro, etc, etc) pela mesma pessoa, ou ainda estou demasiado bronzeado para me preocupar com isso?

E foi aí que me surgiu a luz.

Ao contrário do que por aí se pensa e diz, a Época que hoje começa não é parva porque o povo, em gozo de férias, só quer pensar em futilidades e esquecer as coisas sérias.

Não.

A Época é parva porque as pessoas já estão cansadas e afectadas, e dão importância ao que não tem.

E sei-o com total segurança e absoluta certeza porque eu, tendo-me refrescado antes da Parva Época, chego ao burgo fresco e lúcido (ora bota aí imodéstia para cima!:), insensível à maioria das tricas - perfeitamente banais.

Ora, esta é uma delas, e o que eu espero, e espero sinceramente, é que o meu Bastonário tenha tido um pensamento íntimo muito parecido com o meu. E que não leve o jogo de ténis de mesa mais longe, pois, como sabe, este acabou aos 21.

Doutras tricas banais, darei eu conta em próximas mensagens.

Vão mas é de férias.

Puxa!

Pedro Guilherme-Moreira

2004-06-14

CRÓNICA DE UM PORTUGUÊS VITORIOSO

Justiça remendada, Futebol, Abstenção, Incompetência e Modorra Mental e Psicológica.

São estes os ingredientes que, misturados nas doses tradicionais, fornecem ao portuguesinho que cada um de nós é o sabor nojento de uma derrota perene.

Eu vou mostrar-vos, e para isso nem preciso de muita criatividade (muito menos de inteligência ou cultura, até porque, a última vez que conferi, não sabia se as tinha), que eu sou, nesta Segunda-feira tumultuosa, pós-Euro, pós-Eleições, pós-Mágicos, um português vitorioso.

Condição Prévia: Exercitar a psique e a cabecinha, ou seja, sair da letárgica Modorra Mental e Psicológica

1) JUSTIÇA REMENDADA - Por muito que criemos estéreis discussões sobre este tema que tem obcecado os portugueses (à falta de outro melhor...olh'aí se neste último fim-de-semana alguém falou do Carlo-Cruz-arguido-de-um-certo-processo, e olha se o mesmo não apareceu no "Público" como articulista, a dar fé ao portuguesinho...), e as deixemos a orbitar em torno do seu astro natural, que é, obviamente, o grande Planeta dos Idiotas (resta saber em que sentido o autor usar aqui "Idiotas"), já nada me afecta.

Depois de longa e aturada reflexão sobre o tema, que, apesar da minha juventude 35, já dura há quase dez anos (começou pouco antes da licenciatura em Direito, prosseguiu no exercício da advocacia, e continua na praia...), atingi a serenidade de uma conclusão preliminar, quiçá eliminatória de todas as restantes reflexões em torno dos remendos do sistema:

Este sistema, que por sua vez dura há quase um século, já não serve nem remendado.

Por isso, as propostas de remendos só são válidas mesmo para suave bate-papo e enche-pneus (se não conhecem a anedota do enche-pneus, paciência, que também a não vou contar agora). A própria ministra da Justiça verde-rubra começou, um dia destes, a sua peça jornalística de propaganda política com um "O Sistema é bom." Dada a característica e o contexto da frase, já só pude ler o restante na diagonal, e depois botei o panfleto para reciclar (saiu no DN, salvo o erro).

O que quero dizer é que só entro em discussão sobre Justiça, se estiver implícito que é necessário desconstruir o sistema.
Se não estiver, entro para dizer isso mesmo:)


2) FUTEBOL - É legítimo que o adepto nacional dos categorizados bailarinos milionárias que nos representam, tenha apenas espaço para a raiva, para a tristeza, para a contestação ou para o alento, pelo menos para justificar a bandeirinha que andou a pendurar em toda a esquina significativa da sua vida. A mim também me bateu, a tristeza digo, mas durou-me pouco.

Mas Portugal não perdeu no Sábado. E não estou a ser irónico.
Como bem dizia o director da Grande Reportagem, neste mesmo Sábado, nenhum país vencedor de um título Europeu ou Mundial teve repercussões no seu sistema político, no Turismo ou no seu prestígio mundial.
E dá o exemplo da Argentina, que, mesmo campeã mundial em 1978 e 1986, teve que gramar a ditadura e a derrota na Guerra das Malvinas. E a excelência de Buenos Aires nãos se deve, de todo, às vitórias futebolísticas, mas à alma de um povo, alma essa que, por sinal, não tem representação no seu maior astro futebolístico, que entra e sai de clínicas de recuperação, dando cabo de quase todo o brilho que um dia emanou e imanou das lágrimas de alegria dos seus compatriotas.

Como bem dizia o mesmo jornalista, o que faz Portugal já estar a vencer é o ambiente, fantástico, que se continua a viver no país, em torno desta verdadeira realização, o Euro 2004 (não se sente qualquer coisa no ar, como na Expo 98?), realização que, apesar de algum desnecessário esbanjamento de dinheiros públicos (para quê tanto Estádio?), está a demonstrar-se exemplar.
E depois são os estádios cheios, as bandeiras na rua e nos carros (se é parolice, essa parolice tem emocionado este português...) - caso único e inédito, dizem.

Ou seja, os portugueses são capazes de fazer bem, e quando o fazem exponenciam os seus feitos.
Na Expo, nem o portuguesinho cuspia para o chão, nem o portuguesinho fazia lixo de piquenique.
Era verdadeiramente impressionante, porque impressionante eram os exemplares serviços de limpeza do recinto.
Círculo Vicioso. Quando é assim, um sofismo necessário. Fundamental mesmo.

Na Expo, como no Euro, todos vestiram e vestem a camisola da organização para a qual trabalham, assalariados ou voluntários.
A produtividade laboral nos eventos associados à Expo ou ao Euro anda seguramente quase no dobro da produtividade média deste país.
Este país que, com queixas legítimas em todas as áreas (económica, social, política), quase nunca veste a camisola daquilo que produz.
E essa atitude é fundamental - é talvez a única saída - para que deixemos de ser o rabinho vibrantemente tolo do canídeo europeu.

Terminando com o tema do Europeu como jogo propriamente dito, e ainda sem qualquer ironia, não vi ninguém falar do interesse acrescido que o "escândalo" da derrota de Portugal no jogo inaugural trouxe a todo o mundo.
O ineditismo do acontecimento fez notícia até na CNN, coisa que dificilmente teria acontecido, caso Portugal tivesse ganho.

Não deve ser surpresa nenhuma que meio-mundo tenha vibrado com a vitória da Grécia. Se Portugal já é dado como favorito, tem de aguentar essa vibração menos positiva: favorito tem de perder.

Associado a essa aparente derrota, vimos um ambiente ímpar num estádio lindíssimo, ambiente que quase se repetiu, com outras cores, ontem na Luz, no dramático Inglaterra-França. E eu confesso-vos que, mesmo tendo uma costela avoenga francesa (que me faz torcer pela França, nos grandes eventos, só não a preferindo, obviamente, a Portugal), a minha alegria perante o jogo de ontem não me veio do fervor de torcedor, mas da alma de
português: um final dramático daqueles vai ser recordado por muitos anos, e é isto que faz um grande campeonato.

E já os ingleses andam a chamar "exemplares" à nossa polícia e aos nossos tribunais, por assim terem tratado dos arruaceiros que vêm causando alguns tumultos.

Afinal, somos exemplares. Não era essa mentira que queríamos que passasse lá para fora?
Voilá. Passou. Qual derrota, qual quê?

Assim é que Portugal ganhará, mesmo não erguendo a taça, como parece provável, até porque a "geração de ouro" já lá não devia estar desde 2002.


3) ABSTENÇÃO E INCOMPETÊNCIA - É imperdível a entrevista ao cientista político Manuel Meirinho, saída ontem (2004-Dia de Santo António) na "Pública".

Eu explico porquê.

Durante um bom bocado da minha vida, provavelmente sem saber bem porquê, acreditei no, e defendi o, voto em branco, e, como quase toda a gente, destratei e desprezei os abstencionistas.

Fazendo o cacique do voto-dever, posso bem dizer que, chato como sou, passei a "arrastar" uma vintena de pessoas para o acto eleitoral, não lhes dando descanso antes de me certificar que cumpriram o tal "dever".

Depois apareceu o Saramago com a mesma ideia, e eu desconfiei que alguém invadira a minha coutada, eu que tenho o irritante vício dos desalinhados.

Ontem, pela boca de um reputado especialista na matéria, consegui, uma vez mais, desconstruir-me.

Afinal, a actual abstenção portuguesa não tem nada de mau, e pode mesmo ser encarada como um fenómeno positivo, sintoma de um sistema político saudável.

Em resumo, o que se quer dizer é que um baixo nível de abstenção até pode significar uma perigosa cumplicidade do povo com o sistema político vigente (quando não significa mesmo uma ditadura ou uma oligarquia consentida).

Ao que parece, os indicadores de participação democrática portuguesa têm melhorado, e a subida dos níveis de abstenção só pode querer dizer que o actual sistema político e de partidos está a ser questionado pelo povo português, que no fundo protesta massivamente.

Ou seja, o cidadão que não vai votar, nos últimos tempos, em Portugal, toma maioritariamente uma decisão consciente, uma opção política, e não o faz por comodismo ou desinteresse.

Confesso que a leitura das palavras deste reputado cientista foi, para mim, um bálsamo, até porque não as dei como adquiridas, logo ali, à primeira leitura.
O que reparei é que, no final do dia, e após tantos e tantos ocos debates e "Especiais Eleições Europeias 2004", já me nauseavam as posturas "clássicas" sobre a abstenção, e só os novos conceitos que tinha apreendido de manhã faziam para mim sentido.

Diferente, ao que parece, deste nova visão de Abstenção, é, e para encerrar esta crónica de um português vitorioso, a INCOMPETÊNCIA E A DEMISSÃO, que, as mais das vezes, andam de braço dado.

E esses dois aeroplanos, que são quistos malignos deste povo que é o nosso, vejo-os eu a sobrevoar a consciência ou inconsciência de demasiados compatriotas, e sinto, pois, que não posso descansar um dia que seja.

E por isso me mantenho alerta, às vezes tão alerta que até me canso e abdico, por minutos.

Muitos se demitem e, naturalmente, são incompetentes (até se gabam disso).

E muitos outros são incompetentes e, por isso mesmo, se demitem ou (raramente), são demitidos.

Esses cancros são visíveis dia a dia, a cada passo percorrido nesta vida que, apesar de tudo, é belíssima.

Não tenho dúvidas de que a outra vida deste país está na guerrilha unida da lucidez, está no esforço do permanente idealismo que transportamos e transportaremos -quem quiser fazê-lo- , até ao fim dos nossos dias.

Pena que muitos dos que valem a pena digam que...já não vale a pena.

Ou se demitam também.

Porque vale a pena. Sempre.


Pedro Guilherme-Moreira
2004-06-14


PS: Sabem da última pequena luta conta a mediocridade, modéstia à parte?
Esta foi na veste de advogado (veste que, aliás, não despe).
Quem e quando tiver tempo, leia por favor esta pequena história, que pode ir um dia para a "Galeria dos Diamantes" da Justiça(se o magistrado cumprir a promessa).

Há 15 anos que, nos Juízos Criminais do Bolhão, no Porto, se notifica toda a gente (e serão às 20 audiências/secção/dia) para a mesma hora: 9:30h.
Ora, um destes dias, podendo ter ficado caladinho (já não fazia uma oficiosa há uns 3 anos), ao justificar a falta à primeira marcação, requeri ao meritíssimo que me fosse indicada, sendo possível, a hora provável do início da audiência, informando que, em dez anos, e em mais de uma centena de diligências a que comparecera naquele Tribunal, nunca começara a trabalhar antes das 11 da manhã.

A resposta do nosso caríssimo colega magistrado foi uma resposta de demissão (não ainda de incompetência, como vão ver): "A chamada é feita às 9:30h."
Só isto.

Pensei apresentar-me às 11h, avisando, claro (e curiosamente seria este o primeiro conselho do magistrado, quando o abordei pessoalmente, depois da diligência), mas considerei que isso também seria demitir-me do meu dever, em prol de uma liçãozinha pessoal e mesquinha que eu quereria dar ao magistrado e ao tribunal - era presunção a mais.

Assim, apresentei-me às 9:30h. A essa hora, informei de imediato o funcionário de que havia desistência de queixa na parte criminal, e transação no pedido cível. Queria ditar para a acta de imediato, que o senhor juiz homologaria, se assim entendesse.
- Mas... - hesita o funcionário.
- Costuma ser o juiz a ditar... adivinhei eu.
- Sim...
- Ok, não há problema; É a única transação que tem prevista hoje?
- É sim. - diz o funcionário.
- Então faça-me o favor...tente que, com a maior rapidez, subamos ao gabinete do Sr.Juiz para acabar já com isto, e as pessoas irem à vida delas.
- Pois, essa era a ideia, mas...
- O Senhor juiz ainda não chegou...? - adivinhei eu de novo (ao ouvir isto, para que vejam a imagem que isto deixa, a arguida e o ofendido começaram a rir-se, de escárnio).
- Não.
- Ok. São 9:45h, eu tenho uma diligência às 10:15h nos juízos cíveis, e não há razão nenhuma para não darmos o processo por encerrado. Veja lá o que pode fazer.

Enquanto esperava que o magistrado chegasse, prometia a mim próprio que, pela primeira vez na minha vida, havia de sair daquele tribunal antes das 11 da manhã.

O magistrado chega, apressado, às 10:10h. 40 minutos de atraso (eventualmente os mesmo que eu queria ganhar com o requerimento inicial, vejam bem).

A minha persuasão resulta. Subimos às 10:12h.

Tudo ditado, tudo combinado, as partes, excluindo o MP (que curiosamente -piada antiga- tem os seus gabinetes no próprio Tribunal), estão despachadas às 10:20h.

Eu peço alguns minutos ao colega magistrado, que acede.
Dou-lhe conta de ter sido o autor do requerimento, ele quer mostrar-me a agenda, e eu digo que já conhecia as agendas, por já ter tido alguns amigos magistrados a trabalhar naqueles mesmos juízos criminais.
Mas também disse que sabia que as coisas haviam melhorado muito com a descriminalização dos cheques pré ou pós-datados.

Pedi para que ele me permitisse dar uma sugestão séria.
Ele permitiu, simpático e bom ouvinte.
Sugeri que começasse pelos advogados, os únicos profissionais envolvidos que vinham de fora, que não trabalhavam no Tribunal, e que, nas notificações, informasse que os "Srs Advogados, não podendo responder à chamada, deviam apresentar-se na secretaria até às 10:15h, excepto se previssem que os autos podiam terminar por desistência ou transacção, caso em que deviam estar presentes, pelo menos, à segunda chamada, efectuada pelas 9:45h".

- Não é má ideia. Até posso notificar para as 10:30h...nunca comecei aqui anda antes dessa hora. - diz o juiz.

Apertando-lhe a mão, digo-lhe ainda que "caía muito bem a todos os advogados, se um dia recebessem uma notificação deste tribunal nesses termos".

- Vou fazer tudo o que posso, colega! - disse-me o senhor juiz.

A minha alma saiu de lá mais quente.

Por uma coisinha de nada, perdi uns largos minutos da minha vida pessoal e profissional.

Ou seja, não me demiti.

Abraço a todos.

PG-M

2004-05-31

Veronica Guerrin

Foi para mim uma surpresa descobrir que o Joel Schumacher tinha feito um filme sobre o exemplar e trágico caso da jornalista irlandesa Veronica Guerrin, ainda por cima protagonizado por uma das actrizes do meu “Top Five” (liderado há muito, como é do "conhecimento público", pela agora actriz da moda, Charlize Theron), a belíssima e excelentíssima Cathe Blanchett (que se lê “blanchê”....confesso que eu próprio li “blánquet” até há muito pouco tempo).

Quando o caso encheu os jornais de todo o mundo, em 1996, acompanhei-o o mais de perto que pude, fiquei vermelho de raiva, indignado. Todos os dias durante uma longa semana, afinal tão curta e insgnificante para a eternidade de Veronica.

Não sei se o filme chegou a estrear nas salas de cinema, mas eu é que não dei por ele.

O que sei é que, principalmente para quem esteja “enjoado” do problema “droga”, o exemplo desta mulher, um exemplo de corpo inteiro, aliás, é fundamental para uma renovada reflexão.

E para afinar o nosso sistema de valores.

Só vos peço, afinal, que não deixem que uma vida tão preciosa, e o legado de um ícone para os jornalistas de todo o mundo, um ícone erguido, afinal, sobre o seu sangue e sobre as lágrimas do seu marido e do seu filho, se perca assim, em vão.

Ou seja, marquem na agenda, aluguem o filme, conheçam a história.
Vale a pena.

Pedro Guilherme-Moreira, 2004-05-30



2004-05-30

OS CAMPEÕES DA ALMA QUE SANGRA PERENE

Por vezes, e é uma pena, calamo-nos e deixamos de partilhar uns com os outros o que nos parece evidente.

Por exemplo, parece-me evidente que todos já viram o filme “Furacão”, protagonizado por Denzel Washington. E, antes que prossiga, façam-me um favor: se ainda não viram, vejam o quanto antes.

Eu, por exemplo, não me canso de ver este filme, simplesmente porque o faço, de ponta a ponta, de dentes cerrados, secretamente dilacerado, talvez abismado, ainda abismado, com a injustiça em carne viva que me é exibida (trata-se da história da vida do famoso pugilista americano Rubin “Hurricane” Carter). Pelo meio, muita ternura, muita força.
Mas o melhor de tudo é quando acaba: é irreprimível a indignação, e renovada a vontade de mudar o mundo, uma pulsão que, realmente, urge renovar quando os quarenta anos se aproximam, para que não se confirme a moderna máxima: “aos 20 queres mudar o mundo, aos 30 queres uns sofás novos...”
Pulsão essa que é, aliás, a chave do filme, talvez a chave da vida de Rubin Carter.
Daí não ter dúvidas em afirmar que quem não viu este filme, quem não tomou contacto com esta fantástica história, permanece mais pobre.

Aliás, o filme, que neste momento (1:00h da manhã de Domingo) está a passar na Sic, põe-nos em perspectiva as banalidades a que tendemos a dar demasiada importância nas horas mais leves das nossas vidas
(e, como advogado, é tocante ver como, sem a ajuda de um miúdo de 16 anos, disléxico, cujo primeiro livro que consegue ler na vida é o livro que Rubin escreve na prisão, o desfecho talvez tivesse sido o mesmo de sempre...miúdo esse que, afinal, viria a ser advogado:).

Não falo, claro, na retumbante vitória do FC Porto na Liga dos Campeões, vitória que eu, como portista e português, continuo e continuarei a curtir na sua modalidade estética: as imagens, as cores (os braços e a cara de Deco após o segundo golo; a cara da princesa Stepahnie, no meio de um mar vermelho e branco; os beijos na Taça; os “festejos” do Mourinho; o dragão alado de Miragaia). Não. Não falo, nem podia falar, já que muitos destes sucessos servem para amenizar o sofrimento de pessoas que sofrem ou sofreram tanto ou mais que Rubin Carter (é difícil, mas, infelizmente, também as há...e vivas);

Também não falo da nova problemática da toxicodependência dos animais, que afinal serve para por em perspectiva a própria toxicodependência do Homem. Não estou a brincar, não! Vi-a outro dia abordada num qualquer programa televisivo, fantástico aliás: há vários animais que se drogam e embebedam por prazer, dos lémures às abelhas, dos macacos às renas. O programa conclui, aliás, que a nossa apetência toxicológica é genética e natural. Aliás, foi estudada uma espécie de macacos que assaltava uns bares de praia nas Caraíbas, e concluiu-se que havia, entre eles, a mesma percentagens de abstinentes, bebedores moderados e bebedores radiciais que nos humanos. Quem diria...

(Lá está o Carter na solitária da prisão, porque se recusou a vestir o uniforme da prisão: “Não cometi crime algum. Um crime foi cometido contra mim!”)

Falo, mais especificamente, das pequenas porcarias que nos trazem permanentemente em tensão uns com os outros, falo de certo tipo de gentinha que temos de aturar todos os dias (género “Carlos Sampaio”, aquele triste indivíduo que um dia destes participou no “Fear Factor”, e já havia participado num “BB Famosos), falo dos problemas diários que muitos de nós não sabemos perspectivar e alinhar na devida prioridade.

Ver histórias como a de Rubin Carter faz sangrar a alma, é verdade, mas é fundamental para saber ao que andamos, afinal.
Algo de que, às vezes, nos esquecemos, tão depressa nos deixamos anestesiar pela maior banalidade!

Esta semana, tomei contacto com a história dos campos de “formatação mental” do Zimbabué. Impressionante. Pois o Sr. Mugabe, que diz não se importar que lhe chamem Hitler, diz que é tudo mentira. É mentira que façam lavagem mental aos “prisioneiros” (são campos de “educação”), é mentira que, como parte do treino, os façam espancar, às vezes matar, membros da própria família, é mentira que os façam torturar todos os membros da oposição que possam encontrar. A Credibilidade do Sr.Mugabe fica expressa nesta frase lapidar, talvez uma máxima teórico-filosófica, que lhe apanhei:
“Pensem todos da mesma maneira, sintam todos da mesma maneira, façam todos da mesma maneira...”

Dei por mim a pensar que é uma obrigação de qualquer ser humano ler os relatórios detalhados da Aministia Internacional.

Talvez um dia consiga.

Hoje, com o Hurricane e os campos do Sr.Mugabe, não o conseguiria suportar.

No dia em que tiver a veleidade de pensar que sou um rapaz com pouca sorte, ou vejo outra vez o Hurricane, ou leio os relatórios.

Alerta. Sempre alerta.
Para sempre alerta.


Pedro Guilherme-Moreira, 2004-05-30

2004-05-18

O Ignorância mudou

Pois mudou. Está diferente. Como mascote, faz todas as habilidades dos dois irmãos juntos (a extinta Ignorância Livre e a também extinta seleccionada), e mais algumas. Voltou a ter fotos. Admite comentários a cada texto lá colocado.Até admite posts audio, mas isso é outra conversa. Era só para dar a notícia. Sigamos adiante. PG-M

O mais belo miradouro


O mais belo miradouro para a Ponte da Arrábida e para a Foz do Porto.Dos jardins do Palácio.Na mesma Quarta em que parei, e por parar vi;PG-M Posted by Hello

Gaia Emoldurada


Gaia Emoldurada.Olham pouco para lá, olham muito para cá.Gaia também é bonita.Veja-se a torre do Monte da Virgem, o Douro, as Caves, o Mosteiro da Serra do Pilar;Numa Quarta em que parei, e por parar vi;PG-M Posted by Hello

VERBO JOEL

Em Coimbra, os livros dos mestres transpiravam das sebentas que o Joel construia com aquela fúria de saber e querer saber, e querer dar a saber.

A minha memória repousa sempre nos dias transcritos e lidos, longos dias desfolhados sobre a cama do quarto dos Olivais, ou sobre a mesa da pastelaria, ou encostado à janela do quarto andar do céu, já na baixa, no último ano.

Dias em que sobre tudo espalhava as folhas do Joel.

E trazia sempre entalados na pasta académica os pedaços das sebentas do Joel.

Mesmo quando ganhei juízo, e ninguém me via lá por cima, porque queria acabar o curso, escondia-me no primeiro-meio-andar do Internacional (que assassinaram, juntamente com o Mandarim, e com eles tantas memórias açucaradas desses anos) com as sebentas do Joel.

O Joel era um nome quase vago, uma espécie de imagem esbatida do colega real, e esbatida porque quase supra-terrena.

Todos guardavam o Joel na palma da mão, e sentiam no coração um agradecimento pouco contido a um hiper-homem.

E nós nem sempre os percebemos bem.

Imaginávamos essa entidade descolada do chão, produzindo e reproduzindo todo um curso de direito em páginas infinitas.

Mas o Joel não parou, e fez-se Verbo.

Jurídico.

Ponto Net.

E não pararará nunca. Por todos.

E nós já temos a obrigação de não parar, por ele.


Pedro Guilherme-Moreira

PS: Por causa dos sete anos do exemplar www.verbojuridico.net , mas, principalmente, por causa do Joel;

2004-04-05

O GRANDE EX-FUMADOR

Apercebi-me, na esplanada ribeirinha de Gaia, não fumando o cigarro que outrora me fazia uma nuvem ao olhar, e me transportava para trás, para mim, para dentro...apercebi-me do tamanho dos ex-fumadores.

Sou um confesso. Confesso que nunca pensei sê-lo.

mas deixar de fumar não são só duas merdas, afinal...

Deixar de fumar é obra.
Pode ser um quadro a ser pintado, pode ser um prato a ser cozinhado, pode ser um livro a ser descrito, ou deslido, que eu sempre escrevi fumando, que eu sempre vos li fumando. Sempre fumei as letras todas.

E agora?
Pego no jornal, semi-cerro o olhar, estendo-o para lá dos rabelos, estendo-o para lá da torre, retorno ao jornal.
Por esta altura, devia estar a brincar com o maço de tabaco, arranhando-lhe a côdea, apalpando-lhe a massa.
Por esta altura, se tivesse isqueiro (se não tivesse, aqui d'el rey, que me apalpo da cabeça aos pés!), estava a estalar a pedra e a fazer fogo, uma vez, duas vezes.
Pegava no tubinho, naquele malvado cilindro branco, sentia-lhe o filtro, olhava o primeiro título, estendia-me para os rabelos, ajeitava o cabelo, ficava-me no companheiro de mesa, sorria, usava a concha das mãos para o abafar do vento e TRÁS (!) ....fogo...incandescência....fumo, fumo, pequena cortina, um bufar para longe...e o corpo a abandonar-se de si, "isto é tão bonito!", dizia à companhia, que já lia, e

caía no texto, começava a história, alçava o cigarro fumegando para o céu, e só lá voltava dois minutos depois.

Talvez fechasse os olhos, entre os rabelos, o jornal e a torre.
Às vezes, fechava os olhos, quando sol era de inverno, quase frio, às vezes não, mas nunca os abria totalmente, ficava naquela modorra, a ler

a fumar
a viver

Fosse ali, fosse na obscuridade de qualquer café com que me cobri nos útlimos dezoito anos, fumava vivendo.

Bem me sabiam, o raio dos cigarros!

Hoje, porque é difícil lixar um prazer assim (caramba, daqueles eram meia-dúzia por dia!), mas é fantástico perceber o ganho em cada centímetro da vida, tenho necessariamente de me guindar a um grande ex-fumador, pedindo a todos os fumadores, não o desprezo, não a inveja, mas uma rotunda salva de palmas a todos os que fazem assim.

O mais engraçado é que é nos fumadores que eu ainda vejo a minha raça (falando de uma forma idiota e generalizando o impossível), calma, prazenteira, ponderada, muito pouco radical, sempre pronta a aplaudir quem larga o clube. Os Homens e Deus lhes dêem espaço para mais uns dias, para mais uns bons cigarros.

No próximo capítulo, falar-vos-ei no outro acordar, na lenta transição, no que não é nada difícil, no novo hálito, na nova frescura física, no ganho de tempo e na independência de nós próprios, no ar a entrar e a ficar.

Que é melhor não fumar, é.
Mas fumar também era bom.

Ó pra cima, a ver se não!:)))

Pedro Guilherme-Moreira
PS: Para registo, foi no dia 25 de Março de 2004, e era Lucky Strike...ficaram 15 no maço. Ainda lá estão.

CARTA AOS TERRORISTAS

Cá no Ocidente costumamos começar as cartas que escrevemos com um vocativo em sinal de educação e cortesia.Não vai esta carta com o dito porque aquele que eu acho que mereciam não se escreve nos jornais.

Escrevo-vos esta carta por raiva , daquela raiva feita de indignação , de espanto e de horror. E também para vencer o medo que se instala nas nossas vidas depois de mais um atentado . O medo que planeais com requintes de maldade e com precisão quase científica. O medo de que vos ris , que vos incita e vos encoraja , numa espiral sem fim , a mais um massacre, metódica e friamente estudado.

Imagino-vos a ler nos jornais , ou a ver nas televisões , os efeitos dos vossos crimes : Bilbao, S. Sebastian, Jerusalém, Gaza, Nova York, Bali, Casablanca , Bagdad , e agora, Madrid - que isto de terrorismo não é como o colesterol , que o há bom e mau. Imagino-vos a todos - sejam Eta, Ira, Hamas, Al- Qaeda ou Brigadas seja do que for - sem uma réstea de compaixão, sem um sinal de racionalidade.

Imagino-vos a planear mais um massacre e a antegozar
a insegurança que , humana e justificadamente toma conta dos nossos dias, tolhendo-nos a liberdade e fazendo-nos recear o futuro. Imagino-vos – não imagino - tenho a certeza de que sois loucos à solta , que não sabemos onde estão, mas que parecem estar em toda a parte , financiados não se sabe por quem, assinalando em mapas de horror o tempo e o modo como dar cabo da humanidade.

Não há ciências humanas que expliquem e justifiquem o genocídio , seja qual for a autoria. Como não há Israéis , Palestinas , Sharons , Bushs , petróleo ou independências que expliquem a cobardia e a infâmia do massacre de gente que teve o azar de, numas certas manhãs , se encontrar nas torres de Nova York , num autocarro em Jerusalém , numa rua de Belém ou apanhar o combóio na estação de Henares de Alcalá ...

Julgais, por certo, que foi o medo de “Atocha” que mudou o Governo da Espanha . E que , por medo , também, Zapatero anunciou “ nem mais um soldado para o Iraque”. Desenganai-vos. O governo mudou de cor em Espanha porque os espanhóis se sentiram aldrabados e porque são um povo livre. Zapatero não vai cometer o erro de vos dar a ilusão de que o povo espanhol cedeu à vossa chantagem.

E se pensais que , quando nas praças da Europa , milhões de pessoas se insurgiram contra a invasão do Iraque, o fizeram por simpatia por Sadam ou por medo de vós, ficai sabendo que foi por causa de Bush se julgar dono do mundo e do seu petróleo. E se hoje , em Espanha, e em outros países , há muitas vozes que se levantam contra a permanência dos americanos , ingleses, italianos , uns tantos polacos e uns pouquíssimos e simpáticos portugueses no Iraque , ficai sabendo que não é por medo de vós – mal de nós se fosse- mas por saberem que o que está e como está no Iraque não leva a democracia nem a paz nenhuma.

E, já agora , se tendes notícia de que em Portugal também há gente – e muita- que se manifesta na rua contra a presença de forças portuguesas no Iraque e contra o seguidismo dos nossos governantes, ficai sabendo que não é por medo de vós , mas porque quer deitar abaixo o Governo...

E , se chegou ao vosso conhecimento que por cá há quem defenda que se deve dialogar com terroristas , ficai sabendo - embora isso não vos importe -que eu acho que , em matéria de terrorismo, não há amnistia nem perdão, não há , como dizemos no mundo do direito, transacção.

Luisa Novo Vaz- Viana do Castelo, 21 de Março de 2004

2004-02-26

À GLÓRIA - Matar e Morrer - Parte II (Epílogo)

A dor recata o olhar, a dor comprime a couraça que usamos sobre o peito, e o luto é vivido por cada um
dentro de cada um
fora do mundo
dentro da vila
fora de nós
dentro dos outros.

A Glória, contudo, vai perdoar o despudor de lhe prestar a homenagem perante um público segredado de amigos.

Já tentei fazer o desenho do meu luto, peguei nas lágrimas e usei-as um bocadinho, peguei num esgar e abusei um bocadinho, e a cada telefonema pesaroso só consigo responder a cru com o meu sorriso.
E os outros desmancham-se, fazem de mim um vaso de cristal.

E eu a convocar as memórias e a rir-me. E depois de me rir muito, só aí, em êxtase, dou sentido a um par de lágrimas.

Escrevi em Novembro:
"Os olhos da minha avó contêm a sua imagem de há cinquenta anos, agarrada a uma corda com vigor, enquanto o corpo se desmorona em volta. As palavras demoram a chegar-lhe ao lábios, tudo se processa com mais lentidão. Está velhinha, tem quase 90 anos, mas, como todos, sem excepção, naquela sala, liberta uma luz fina do olhar onde se pode ler "Eu ainda estou aqui. Eu ainda sou eu." Há apenas que ter paciência, uma paciência terna, há que saber esperar pelos nossos velhinhos."

Pois. Anteontem, no dia de Carnaval, feliz entre os meus esteios, recebo um telefonema sombreado de um irmão.

Queria dizer-me que a avó já não conhecia.
Que lhe caíra o entendimento nos ladrilhos, e que vivia só por dentro dela.

E a minha mulher, na sua grandeza que não é por estar atrás de ninguém igual, diz que vamos já.

Vamos já reconhecê-la viva.

Cheguei lá e o corpo afinal já jazia.
Vivia, é verdade, vivia serena sob drogas, mas o corpo não comunicava.
As mãos estavam amarradas com uma fita de pano a cada lado da cama.
"Que ela esteve muito inquieta, que assim se atravessava na cama e se magoava."

Este país amarra as pessoas para as proteger.
Não disse uma palavra, mas o meu olhar moveu a criatura que explicava desde a porta a teoria da amarração.
O meu olhar libertou a minha avó.

Cheguei-me.
Ela abiru os olhos azuis, mas a luz fina que falava estava muda.
Ao olhar-me, olhava-se a si, não me podia ver.

Quando me despedi, foi um Adeus.

As máquinas deste mundo bem podem enganar-nos, mas não a luz fina quando emudece.

Passou o filme da jovem Glória, belíssima, de olhos azuis que mudavam a cor ao fogo, mais de um metro e setenta e enlouquecer os homens dos anos trinta, e quem a levou foi o moço distinto, o Afonso, de quem herdei o aparente, que virou o nome e criou a Osnofa das cozinhas.
E o Afonso foi escolher um destino improvável na década de cinquenta. Ter um desastre de automóvel que de si fez um vegetal sob lençois brancos e um grande H à porta.
Com dois filhos menores, a minha avó viveu nove anos a esperança mais cruel. Afonso cedeu depois de os viver algures que não nele.
Dizem que, antes e depois, anos a fio, os filhos a ouviam chorar baixinho, todas as noites à mesma hora, que é a hora em que os corpos dos esposos se encontram para comunicarem o amor. Não interessa se feito ou não, mas dito com a pele junto ao tecido.
Prolongou esse amor louco sobre os filhos, sobre os netos e os bisnetos. Até sobre as noras e as mulheres dos netos.
Viveu 25 anos sob o mesmo tecto e sobre o mesmo chão que eu.

Só, levou uma empresa e os jovens filhos no regaço.

Até hoje. Quase 87 anos depois de ter nascido.

Não é só mais uma, é a minha avó Glória.

Perdoa-me, Glória, o despudor de o dizer ao mundo, mas tu mereces.
Perdoa-me, mundo, o desconforto da partilha da dor, mas acredito que algo se soma a cada um, quando nos deixamos cair em partilha.

Sempre desejei que ela nunca se apercebesse da proximidade deste momento, porque era ideia que temia.
Desejo satifeito.

Antes do desaperto do laço, foi-se a luz, suavemente.

E eu, depois da confusão do ser e do parecer, já só rio de saudade.

E quero aquilo que já não sabia que queria.

Levá-la, como levei, ao cabeleireiro às 6:30h da manhã, na 4L da empresa, e surripiar-lhe a carrinha para os meus primeiros passeios.
Ela, que foi o único público digno do meu Fado de Coimbra. Só ela me obrigava a cantá-lo, enquanto a 4L saltava violentamente nos buracos da estrada, e me ouvia embevecida. E é dela a minha capa de estudante e a minha toga, supremo orgulho.

É assim que me imagino a levá-la onde ela quiser ir hoje.
Naquela mesma 4L branquinha, a cantar-lhe a samaritana.

Adeus aí, plebeia de sical:) (leia-se "sicá")

Adeus, avó.

Pedro Guilherme-Moreira
2004-02-26

2004-02-13

O ÚLTIMO DIA DE PORTO

Está tudo em caixas.
Menos a alma.
Hoje, pela manhã, agasalhado no sol frio de Fevereiro, a viagem quase dois mil entre Valadares e o Porto não foi bem uma viagem, foi antes o rumo do meu útlimo pequeno-almoço de trabalhador da invicta, com a lentidão necessária de uma despedida, mastigando cada esquina e pormenor. Nove anos depois.
A descida de General Torres e a beleza da Ribeira a inundar os olhos.
O ferro da ponte.
A arcada do túnel.
O cinzento luminoso do infante. O palácio da Bolsa a brilhar, sob o sorriso vermelho do Ferreira Borges.
As mercearias sobreviventes da Mouzinho.
O vislumbre das Flores e os Lóios, onde me recolhi ainda estudante.
A rua proibida, as traseiras do Banco de Portugal, a Fábrica e o acesso ao Estrela e ao Aviz, onde também me licenciei.

A descida à praça, os Aliados, a fuga para Sá da Bandeira, que bonita está a minha rua.
A chegada ao escritório e a vontade incoerente de não estacionar, e de hoje andar em círculos entre o meu quarteirão, a Guedes de Azevedo, os semáforos do Silo-Auto e o quiosque do senhor que não tem quiosque e que agora trocou o velho 127 por um Smart, a descida da Rua do Bolhão e os juízos criminais ao fundo, onde ia todos os dias nos primeiros três anos. O troço largo da Firmeza, as lojas de acessórios de automóveis, e de novo Sá da Bandeira, os lanches na Deu-la-Deu, os almoços na Cunha, o escritório do 651 do Eneda, e depois este do 594, prédio altivo, porta de ferro, elevador de pérola, caixinhas do correio de rebuçado.

O meu recanto de 9,5 m2, os quadros das minhas fotos de Veneza,a Rua Guilherme Moreira, o diploma do Lopes Cardoso, o canudo ainda no chão, por pendurar, há anos, os processos amontoados com paixão e carinho, o sofá bordeaux dos acompanhantes, a cadeira dos clientes, o pó de um arrendamento acabado.

Mudo de escritório pela terceira vez, mas é a primeira vez que parto do Porto. Aqui nasci, aqui vivi, aqui estudei para não me licenciar aqui, mas em Coimbra, aqui cresci advogando nove anos.

Hoje não tenho corpo, só emoção.
Convosco, que sois um grande talhão do meu mundo e da minha vida de hoje, a partilho.

Agora, com vossa licença e um grande sorriso pelo amanhã, vou voltar às caixas e caixotes.

Certo de que virei à minha cidade mais alguns milhares de vezes, não será ao meu recanto, onde sempre repousei nas noites de S.João. Agora, bem feita, fico apeado, como o povo todo.

Quis apenas fotografar este momento, o útlimo momento em que este pequeno rectângulo ainda é um escritório.

Pronto. Agora já não é. Olá Valadares.

Pedro Guilherme-Moreira, 2004-02-13
certo da melhor sorte, nesta Sexta-Feira 13:)))

2004-01-29

MARIA REMENDA VALDÁGUA DE PANO

Filtro na cinza cadente
a estrela fumada em silêncio

Cai devagar no cinzeiro
a tela dos dias, e o fumo
atravessa a figura
de pano, que a carne
do tempo nos traz
numa curva dos lábios

Perdoem-me a ofensa os poetas!

Eu queria dizer, afinal,
que Maria fumava um cigarro
sorrindo.

E pintava,
e esse quadro suspenso
me parecia a pureza infinita
daquela boneca de pano
que a mãe remendava,
e punha depois
na cadeira,

e a boneca, apesar
dos remendos
dos dias,

era sempre aos meus olhos bonita
era sempre aos meus olhos perfeita

Pedro Guilherme-Moreira
19 de Janeiro de 2004

A uma amiga que não merecia tão pouco...

2004-01-17

A CULPA DOS INOCENTES

Senhor psicólogo:

Desde a primeira hora que entrei no seu consultório, o senhor viu bem que eu não queria falar daquele assunto que o senhor percebeu logo qual era porque eu me mexia muito na cadeira , baixava a cabeça sempre que a conversa derivava para aí e era, como disse, dado a poucas falas.Mas o senhor lá conseguiu que eu contasse o que tinha acontecido a mim e depois outros meninos também contaram e ficamos todos mais aliviados. Eu passei a dormir melhor e até parece que já não tinha culpa do que me tinha sucedido e estava a perder o medo . O senhor , os da polícia e os do tribunal garantiram-me que eu era uma testemunha sob protecção e que eles já não me podiam fazer mais mal que aquele que me tinham feito. O que o senhor não percebia – e a maior parte das pessoas não percebe – é porque demorou tanto tempo a saber-se , mas eu acho que está bom de ver que muitas pessoas sabiam e não quiseram saber por sermos crianças do Estado e por estar metida gente no assunto com muita influência e muito dinheiro.

Senhor psicólogo: Lembra-se daquele dia , na véspera de sermos ouvidos para o futuro? Estávamos nervosos porque nos iam apertar no tribunal : diz o dia, diz a hora , o ano, o nome da rua, o número da porta e coisas parecidas para nos baralhar.. Ficamos à espera aquele tempo todo escondidos como se fossemos nós os bandidos e depois não fomos ouvidos porque disseram que o juiz era parcial – ou imparcial, já não sei nem percebo nada .

Olhe, senhor psicólogo, eu até chorei quando começaram a dizer que nós somos prostitutos no Parque e que isso nos tira a razão toda.E também tira o crime que nos fizeram ? Olhe, eu até já não quero saber da televisão que só falam do caso e todos os dias há uma coisa nova para deitar abaixo o processo.E os debates que se fazem é só para lançar mais confusão e pôr as pessoas a desconfiar se não é tudo mentira .Olhe, aqueles que nos defenderam também são atacados e sei que há pessoas que sabem de outros casos mas que já não vão meter-se nisto. Na televisão só se fala nos arguidos, nos direitos deles e até parece que nós não temos nenhuns. Há uma senhora que é procuradora que nos defende, mas acho que não gostam muito da conversa dela .Nós não temos advogado para aparecer na televisão e esclarecer as pessoas. Percebe agora, senhor psicólogo ,porque me calei? Soube daquele caso do menino dos Açores que se enforcou? O outro menino não ficou meio marado da cabeça? Mas esse ainda tem sorte que tem mãe do lado dele.

Eu queria que isto acabasse depressa para tirar o pensamento do assunto.Não sai.
Só faltava mesmo aquela senhora da América vir cá dizer que é perita de testemunhos falsos e que fomos nós que inventamos tudo para termos auto estima e sermos célebres. E que nos fizeram um implante no cérebro de coisas que nunca existiram. Sabe, senhor psicólogo, o que eu queria mesmo era um implante que mas tirasse da cabeça.
Venho comunicar que estou farto disto tudo. Vou fugir. Não sei para onde . Estou farto de sofrer multiplicado.

Luísa Novo Vaz
Viana do Castelo, 10 de Janeiro de 2004