2003-10-28

A MÚSICA EM VERSO BRANCO

De olhos fechados,

eventualmente com as mãos sobre os olhos fechados,

eventualmente com os lábios cerrados sob as mãos sobre os olhos fechados,


murmura-se primeiro a clave de sol, que, de suspensa no ar,

passa a cair imitando a folha caduca do plátano,


e cola-se suavemente à pele,

junto ao pulso esquerdo,

permanecendo visível a quem passe na alameda


a mesma alameda de plátanos das nossas infâncias,

que tinha o comboio a apitar nos cabelos

e o mar aos pés


Depois há uma lágrima trazido pelo arrepio da primeira nota.


A lágrima corre por debaixo do anelar da mão direita,

e depois lateraliza o nariz

e depois escala o lábio superior

e depois divide-se

e uma parte entra na boca e o sal alerta a língua,

e a outra parte contorna o lábio inferior,

vai caindo


e é junto ao queixo que o músico a tenta limpar

com a parte do pulso esquerdo que continha a clave de sol



e cai na pauta um dó



No fim dessa tarde de outono

tinha escrito a sinfonia


na pele


Soube-se que tal peça viria a integrar a sua própria carne.


e era altamente provável que, muitos anos mais tarde,

o músico do banco da alameda,


como quase todos os músicos do mundo,

não viesse a divulgar a sinfonia subcutânea,


e morresse lixeiro, como era,


como todos os que morrem o que parecem,


e afinal são músicos.



Pedro Guilherme-Moreira

2003/10/27

2003-10-24

PÁGINA 14

Do dia de hoje, Sexta, 24 de Outubro, o exemplo de vida que me fica é oriundo de uma página inteira (a página 14) de publicidade no "Público". imaginem!

Mas é Notável:
É da Atalanta Filmes, que, ao citar excertos de críticas aos filmes que está a exibir, não se fica pelas positivas.
Também publica as negativas. Mesmo as muito negativas.
Um só exemplo. O excerto de uma crítica de Augusto M. Seabra a "Dogville" de Lars von Trier:
"É o mais repelente filme que vi em anos."

Alguém me dirá que não é caso único, que é estratégia da empresa, que tem segundas intenções. Seja.
Obviamente que a intenção é que as pessoas vão ver os filmes publicitados.

Mas a Atalanta dirige-se claramente a uma franja de pessoas, que eventualmente (e inocentemente) a empresa acreditará ser alargada, e que eu acredito apenas ser reduzida, mas estar, felizmente, a aumentar.
Dirige-se a pessoas que admitem com lucidez que uma obra de arte ou uma obra sem arte, um gesto ou um olhar, podem sempre ser vistos de dezenas de diferentes perspectivas, e não é por isso que deixa de valer a pena apreendê-los, apreciá-los.

Bendita serena tolerância. Bendita honestidade intelectual.
Bendito publicitário que, sem a isso ser obrigado, percebeu que podia dispensar a hipocrisia das memórias selectivas

A mim, a página 14 enche-me a alma e o coração, faz-me feliz, faz-me acreditar que, afinal, não há só bois e palácios.
Fica-me este gesto sedimentado para sempre na memória.

Entre as tempestades e as bonanças da vida, por favor escrevam-me sempre uma página 14!

PEDRO GUILHERME-MOREIRA

2003-10-20

GANGS

Existem gangs em toda a parte.
Suponho que até na nossa alma, às vezes ígnea no crepitar de um para-sentimento.
Porque o sentimento ódio não pode existir.
Nem o dicionário o consegue definir, sem uma fraqueza poética:"Paixão que leva a desejar a desgraça de alguém;"

Depois de se ver "Gangs de Nova Iorque", de Martin Scorcese, e sem que esta seja uma crónica do filme, mas simplesmente a sequência do mesmo, tomado como mote de uma reflexão, ficamos com a certeza de que o ódio é um elemento histórico, que deveria ser pretérito neste ponto do globo, e desconhecido para cada homem bem-formado.

Mas, como acontece de cada vez que presenciamos os frutos do ódio, é terrível vê-lo percorrer o seu caminho no olhar de um ser humano.
Dir-se-ia, afinal, que outros animais não têm capacidade para partilhar tal aberração da natureza.

Desde o momento em que abrimos os olhos, agora para o dia nascente, antes para o mundo, é obrigatório ter um copo de lucidez junto à cabeceira.

Bebemos o conteúdo, lavamos com ele a cara, calmamente, e só depois nos vestimos e saimos à rua.

A cada passo de cada trilho de cada homem, a cada minudência de cada esquina da existência, devemos convocar o olhar límpido da manhã de lucidez.

Se assim todos fizéssemos, mais fácil seria perceber que o mundo, afinal, não está a ruir à nossa volta e que, bem pelo contrário, os homens se aproximam do seu centro de pureza, pé ante pé, até à vitória final.

Nunca como hoje houve tanta liberdade.
Nunca como hoje tanta gente reflectiu e opinou sobre cada pequena porcaria factual.

Após a convulsão dos que não sabem ser livres, ou dos que, sabendo-o, querem com isso rentabilizar a sua ganância, o homem ficará reduzido à simplicidade do seu olhar, na pressão global de cada um querer ser a melhor pessoa possível.

Há hoje gangs de submundos, por um lado (e este país ainda espera esse sinal da civilização, que é a tomada das cidades por essa treva), e há também há violentos gangs de ideias e sentimentos.

Está bom de ver que muitos de nós assumimos uma de duas posturas distintas, nas estradas modernas da respiração:

- ou baixamos os braços, em atitude de sobreviência, e vamos fazendo quilómetros, levando pancada aqui e ali, até à boca do caixão, onde se dirá que éramos bons homens;

- ou erguemos os punhos, prontos a socar tudo e todos, com a mera justificação de que a vida é uma cabala gigante de monstros prepotentes e poderosos;

Ainda que muitos de nós não se reconheçam numa ou noutra postura, a verdade é que todos poderemos caber, ou já ter cabido, nelas.

Contudo, o filho-da-mãe do chato que não deixa nenhum do seus amigos insultar um desconhecido, julgar sumariamente uma figura pública, violentar um interlocutor,

o filho-da-mãe do chato que não deixa passar cinismos pela peneira da sua alma branca, que se opõe a injustiças claras sobre terceiros, oferecendo o seu próprio corpo,

o filho-da-mãe do chato que dá todo o crédito ao seu próximo, abrindo-lhe as portas de si,

o filho-da-mãe do chato que tranca, a sete-chaves e nas traseiras do seu ser, os preconceitos, os clubismos desportivos e políticos, as ideias estanques, as certezas absolutas, as opiniões eternas sobre algo ou alguém,


esse filho-da-mãe que, num primeiro momento, pode criar a convulsão dos instalados, há-de, a longo prazo, dominar o mundo.

Nesse dia, o poder será um cavalo a descansar à sombra de uma árvore, e só será montado em nome de todos.

Não se diz, em fim de crónica, que este é o utópico caminho para a perfeição da humanidade. Nem que a profunda inocência destas palavras são a solução dos males da esfera de pó em que vivemos.

Ao Guerreiro transparente, porque luta sem interesse e em nome de todos, hão-de sempre chamá-lo de pobre inocente inadaptado.
O que ele, na sua luta, absorve, com naturalidade, como tempo de antena. Como fabulosa propaganda do contra-pé (e contra o pé).

Diz-se apenas que,

se cada um de nós beber pela manhã do copo de lucidez, se com ela lavar a cara e até a alma, sua e a dos outros,

se cada um de nós se oferecer para o contágio ao próximo por via da luta (porque o bondoso passivo só serve para lá estar, e não para o seu semelhante) silenciosa por pessoas melhores,

se cada um de nós, ao fim de anos de insistência na genuína bondade, conseguir dois companheiros que ostentem esse seu perfume,

podemos ser bons desastrados, matéria-prima dos ignóbeis,


Mas havemos de ter cercado os gangs, os mesmos que sangraram as entranhas do seu pretenso inimigo pela história, ou o estarão dispostos a fazer pelo futuro dela, a um reduto desesperado de maldade.

Houvesse só mais dois sorrisos puros ao meu lado no fim do caminho, e eu morreria feliz.

PEDRO GUILHERME-MOREIRA
20 de Outubro de 2003

2003-10-17

A idade da inocência e o pecado.

Lembro-me, teria seis anos e pouco, de ter ouvido dizer que o pecado só existia a partir do entendimento.
Tinham também estabelecido os adultos que a idade do entendimento começava a partir dos sete anos, talvez porque naquela altura se dava entrada na escola primária, se começava a ir à catequese, e saíamos debaixo das saias da mãe.
Por aquela época, atormentava-me o facto de poder ter cometido um pecado, sei lá... uma bola furtada, o ter dito uma palavra feia, uma canelada dada a um amigo, uma festa mais prolongada numa colega - brincávamos aos curativos... eu tinha um casaco branco a fingir de médico que envergava para essas ocasiões, e numa delas entretive-me demorada e pacientemente a esfregar com sebo as pernas da vizinha Justa. No dia seguinte levei um puxão de orelhas, porque a mãe dela se veio queixar à minha: tinha tido um trabalhão para retirar a pomada das pernas da miúda.
Como sabia, aterrado, pela catequese, que se morresse de noite em pecado mortal, iria direitinho para o “fogo dos infernos”.
Teria assim urgentemente de me confessar, o que não me apetecia nem agradava.
Andava por isso preocupado e receoso e pensava, e tornava a pensar, aumentando a preocupação.
Até que me surgiu uma ideia salvadora.
Matreiro, perguntei à minha mãe uma coisa que eu já sabia:
" - Mãe, quando é que se atinge a idade do entendimento ?
- Aos sete anos ! " respondeu ela prontamente.
Não os tendo, não tinha entendimento...
Não tendo entendimento, era inocente!
Sendo inocente, não podia pecar...
Não tendo pecado, já não iria para o "inferno à arder".
Doce engano, saborosa falácia dos meus seis anos e pouco...

A.M. Dias Carvalho