2003-06-30

CEGO,SURDO,MUDO,HOMEM

CEGO, SURDO, MUDO, HOMEM

Sem que ele o saiba, o Zé foi das pessoas que mais me marcou.
O Zé era surdo, mudo e cego. Só a surdez-mudez lhe dava uma trégua de 10% - ou seja, ele era efectivamente surdo - , porque ver, ele só via o seu sonho.
Cruéis como são as pessoas, correu à boca larga em Coimbra, extravasando a própria faculdade de Direito, que o Zé tinha caído num dos lagos da cidade, já que a bengala apenas o avisara do objecto, mas não lhe retirara o direito a tropeçar, como qualquer ser humano que vê. E o Zé, por pouco, não se afogou com a atrapalhação.
Nessa altura, vendo as dificuldades que ele exibia nas aulas, onde ia apenas gravar, e onde às vezes colocava uma ou outra dúvida que os professores dificilmente lhe explicavam, porque ele ouvia quase nada, e sabendo que ele era uma pessoa trapalhona, que caía frequentemente na rua, que trocava os autocarros e os locais onde pretendia ir, as aulas e os professores, o nosso grupo de estudantes cruéis diagnosticou ao Zé o insucesso, e perguntou-se se não haveria limites para a coragem de um homem - limites de pudor.
O Zé deixou de aparecer. Nunca mais o vi.
Soube depois que o Zé tinha feito o curso de Direito em 5 anos.
Fiquei atónito e profundamente feliz.
Concluí então que o que o Zé queria era desdramatizar o seu drama, misturar-se com as pessoas, fazer o que todos os outros faziam. E não desistia, e não queria ajuda.
O Zé tomou consciência de que o mundo era demasiado cruel, recolheu-se ao seu canto, artilhou-se da sua ciência, e deu uma lição a quem não sente nada além de pena a olhar para estes super-homens.
O Zé não era doutor, e como não era doutor era gozado, ridicularizado. Cheguei a ver iluminados a tentarem explicar-lhe que é preciso ter consciência das nossas limitações.
Presumo que o Zé ainda seja trapalhão, tropece e caia em lagos.

Mas o Zé, que era surdo, mudo e cego, é agora o Doutor Zé.
O Zé é um doutor trapalhão, admirado.
Pena ter demorado tanto tempo.

Ele e todos os outros Zés que sofrem em triplicado.
Não lhes basta a parede da diminuição física.
Têm a parede da crueldade humana.
E têm, finalmente, a parede do urbanismo de vão de escada.

Um dia, ainda vos falo de Jaime Lerner, o milagroso de Curitiba.
Hoje falei do Zé, um dos meus heróis.

Pedro Guilherme-Moreira, 2003-06-30

2003-06-25

NASCEU UM BLOG NA NOITE DE S.JOÃO DE 2003

E que noite, senhores!
Também não foi por acaso que o blog "Ignorância" nasceu nesta noite.
Esta é a noite onde as máscaras vão caindo ao chão. Temos até ao nascer do sol, numa praia qualquer, deitados de bruços na areia. Aqui não aparecem as verdadeiras elites, aquelas que acham que não se podem misturar em determinados ambientes. Aqui, a comunhão é total, entre todas as idades, credos e profissões. Senhor ou senhora que olhe de lado o autor de uma martelada, vai enlouquecer durante a noite. Provavelmente, enlouquecerá no sentido certo.
Não é a festa (ou festas) do S.joão do Porto que o distingue de outros momentos do género.
É outra coisa, algo inefável, não dito.
O S.joão do Porto é uma experiência única na vida e no mundo. Há quem considere que não pode morrer sem ir a Paris ou a Roma. Aqui, eu diria Veneza, a Veneza do terceiro olhar. Mas, neste caso, assevero-vos que a experiência do S.joão do Porto, mesmo para quem a experimenta todos os anos, é imperdível. Sem ela, a nossa alma é mais pobre. Não deve adiar a sua presença por mais um ano - vá por mim.

É inefável, mas posso tentar: começa tudo na primeira martelada, em que se troca um sorriso com o agressor, ficando sempre a rolar na nossa cabecinha a pergunta: "Porquê eu?" É uma pergunta que poucos admitem fazer a si próprios, mas que assoma, de forma funda ou a espaços, por toda a madrugada.
É o polícia. O velhinho. O careca. A vareira. O doutor. O Presidente. A menina. A mulher. O Pai. O filho. A boazona. As feias, se as houver. O bebé. O portista. O camone. O bigodes. O gigante. O gordo.
Cada um , toca-nos e é tocado por nós. Literalmente. E também de forma figurada.

Não sei se era suportável viver assim todos os dias.
A dar marteladas, e a levar com elas.
Está ali uma mulher linda, deixa-me pegar no martelo, pega lá. E o sorriso? Oh, sorriso. Agora ela. E sigo em frente. Reacção química.
Alguns dirão que, afinal, é mesmo assim que se vive, todos os dias: a dar marteladas e a levar com elas.

Só que se enganam no termo, que leva outro significado no S.joão:
A martelada é um afago, uma carícia, uma ternura.
Dá-se à mulher bonita, ao bebé, ao velhinho.
Dá-se para adoçar uma cara de pau com um sorriso.

E eu pergunto: há alguma coisa de insuportável na mais nobre atitude?

PEDRO GUILHERME-MOREIRA, 2003-06-24

2003-06-23

PORQUÊ IGNORÂNCIA?

Vamos assumir a crise de ideologias e fés, com o nascimento de uma nova, que acolhe o que de bom pode beber em todo as as outras, e rejeita o que de mau a pode embriagar. Sem compartimentos estanques, sem territórios exclusivos.

Todos somos ignorantes. Mal era que não fôssemos, pois isso poderia querer dizer que a nossa vida era um inferno, na tentativa utópica de abarcar todo o conhecimento.

Por outro lado, todos devemos admitir que o somos. Sócrates já chegou a esta conclusão há cerca de 2.500 anos.
Ou seja, se eu não quiser admitir que não sei algo (quando, de facto, não sei, sendo que "saber pouco" também pode ser "não saber"), não vou ter hipótese de passar a saber, porque o interlocutor que nos poderia ensinar, das duas uma:
- Topa-nos logo à distância, e nem se dá ao trabalho de nos transmitir o seu conhecimento;
- Perante a nossa incapacidade de admissão de ignorância, entende que sabemos, e nada diz.

Pode sobrevir uma terceira atitude. O nosso interlocutor gosta tanto ou tão pouco de nós, que, mesmo assim, nos explica.
E, ou nós aproveitamos essa oportunidade de ouro para aprender, ou então continuamos a fingir que sabemos. E caimos no ridículo.

Este espaço é livre, embora seja natural que se vão criando regras de uso. Para já, há três:
1 - Educação: uso de linguagem moderada, o que não quer dizer exclusão do vernáculo, como é óbvio, em descrições, desde que não dirigido a outra pessoa, seja ela qual for.
2 - Atacar ideias, e não pessoas: devemos reflectir, antes do envio do post, no sentido de apurar se o mesmo contém ataques pessoais, ou se apenas se limita a discussão de ideias;
3 - Igualdade de tratamento entre todos, sendo, inclusive, intenção deste vosso servo e "blogmaster", trazer para a discussão ditos e feitos dos que nem por sombras sabem o que é um computador, quanto mais um blog.

Os temas são livres, embora devam acabar por incidir, naturalmente, nos temas que são mais caros ao "blogmaster":
Pessoas e relacionamento humano, Justiça, Tecnologias, Gadgets, Actualidade e Viagens;


O Ignorante-Mor,

PEDRO GUILHERME-MOREIRA