2003-12-22

ODIAR EM PAZ – Auschwitz, o Humor e a nossa estrada de guerra

Ann, perdida no minimalismo cinzento da paisagem de Auschwitz-Birkenau, enquanto a mãe e uma amiga discutem a raiz do mal, concluindo que os seus carrascos actuavam por puro ódio, pergunta, do alto dos seus puros catorze anos:

- E não se pode odiar em paz?


Ann fora uma rara sobrevivente de um gaseamento, por, no meio da horrenda confusão de uma sessão de morte num desses “chuveiros comunitários nazis”, ter ficado com a sua cara semi-submersa numa poça de água no chão (água que impediu a asifixia).

Morreu depois, de Tifo, dois dias antes da libertação do campo pelos russos.

Não sendo a personagem uma pura ficção, excepto no nome, esta interrogação deriva de uma profunda reflexão de Pascal Croci, autor da única Banda Desenhada da história a retratar o genocídio do povo judeu, especificamente, aqui, dos judeus polaco: chama-se, de forma crua, exactamente “Auschwitz”, e foi dada à estampa em 2002.

Estranho: Quase sessenta anos se passaram. Como é possível que nenhum autor de B.D. tenha antes tentado desenhar o horror dos campos de extermínio?

Não é sobre o sucedido em Auschwitz, contudo, que vos quero falar.

É apenas de mais um dia que vai cavalgando pelas horas fora com a nossa vida sentada na sela.

Ontem, entre as banalidades que fazem de mim um homem feliz, dois rios de reflexão me banharam as faces: um sobre o Humor, à volta de um estudo de Robert Provine, e outro sobre o Ódio, como referi acima.

Li com prazer as palavras de Frei Bento Domingues, falando sobre o humor de Deus e da Igreja, como li as palavras de alguns outros mediáticos, e, por isso, gente que conta.

Pela madrugada dentro, entreguei-me aos desenhos de Croci.

De manhã, após um sono repousado, ecoavam em mim as palavras de Ann:

- E não se pode odiar em paz?

E entre o siso de um ódio que não transcende o corpo, que não reclama a eliminação física do seu objecto, e o riso a que sempre me obrigo para tornar o mundo melhor, vejo desfilando imagens da viagem de Sábado, ao Natal de Pontevedra, em que, entre tanto e tão intenso prazer, apenas ressalta a fotografia mental de três carros portugueses, os únicos em quase 500 Km de passeio, a tentarem o suicídio e, simultaneamente, porque há outras faixas e outros carros, o homicídio de todos nós.

Penso na possibilidade de trazer Ann para dentro de cada português, para que ele perceba a natureza do seu mal. E que se convença de que, se tem mesmo de odiar o próximo, que o faça em paz, sem afronta física do objecto, que afinal não conhece, à excepção dos cilindros e da sua configuração, e da potência, talvez do binário.

E no fundo deste texto, que parece confuso, mas no fundo é um postal de Natal, seguem os desejos de que lembremos ao vergonhoso povo de asfalto que somos, que este ano que passou se calaram 1.500 almas em silêncio volante, e cerca de 9.000 estão amarradas entre lençóis de um síto público que cheira a formol - São, portanto, mais de 10.000 por ano a ficar marcadas, como cavalos, com o ferro do destino. E quatro a cinco vezes mais são os que sofrem, de dor em carne viva, pelo que sucedeu aos marcados.

Já vamos em 60.000 portugueses desgraçados num só ano. Paremos, então.

Ficam então os desejos em forma retórica e festas boas:

- Não se pode odiar em paz?
- Não se pode rir, rir sempre, além do cinzento global?

Pedro Guilherme-Moreira, 2003-12-22


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